
A literatura, em sua essência, é um convite à imaginação, à reflexão e à empatia. Mas, em Tatuí, é mais: tornou-se instrumento de inclusão, reconhecimento e transformação social – além da expressão do próprio talento pungente.
O lançamento de quatro novos editais pelo Museu Histórico “Paulo Setúbal”, nesta quarta-feira, 8, somando R$ 237,5 mil em fomento cultural em 2026, além de ato de política pública, é a confirmação de que a cidade entende a cultura como vetor de desenvolvimento, pertencimento e dignidade.
Entre esses editais, destaca-se o “Publicação de Livros”, que, já em sua primeira edição para estudantes, revelou um dos mais belos frutos do fomento cultural tatuiano: o livro “Blacknight”, do jovem Brian Pietro Telles Coelho, de 13 anos, aluno da rede estadual e pessoa com transtorno do espectro autista (TEA).
A obra, que aborda temas como bullying, identidade e superação, nasceu do incentivo de uma professora, do apoio da família e, fundamentalmente, da decisão da prefeitura de abrir uma vaga específica para estudantes da rede de ensino no edital.
O resultado é emblemático: Brian não apenas realizou o sonho de publicar seu primeiro livro, mas se tornou símbolo de que a literatura pode ser, para jovens com TEA, uma ponte para o mundo — e para que o mundo veja, reconheça e admire a potência dessas vozes.
A trajetória de Brian, como relatada também pelo jornal O Progresso de Tatuí na edição do final de semana passado, leva sem dúvida à sensibilização.
Ele encontrou na escrita a forma de expressar o que não conseguia verbalizar, transformando sentimentos em narrativa, dor em arte, solidão em partilha.
A mãe, Agnes Natacha, lembra que o incentivo sempre esteve presente, mesmo antes do diagnóstico de autismo. A professora Maria Cristina Manis, da Sala de Recursos, percebeu o talento e o apoiou na revisão, organização e inscrição do projeto.
O edital, portanto, não criou o talento — apenas lhe deu espaço, visibilidade e legitimidade. Esse caso ilustra, de maneira exemplar, o que pode acontecer quando políticas públicas de cultura são desenhadas com sensibilidade social.
Quando passou a destinar uma vaga para estudantes, o edital reconheceu que a literatura não é privilégio de poucos, mas direito de todos — inclusive daqueles que, por razões de saúde, neurodiversidade ou vulnerabilidade, muitas vezes ficam à margem.
Premiando Brian, Tatuí demonstra valorizar a diversidade, a inclusão e o potencial de cada jovem, independentemente de suas condições.
O lançamento de “Blacknight” durante as ações de conscientização do autismo, na Praça da Matriz, também evidenciou atenção do município com a cidadania.
Não se trata apenas de celebrar um livro, mas de comemorar a possibilidade de que outros jovens, com ou sem deficiência, vejam na literatura um caminho para se expressar, serem ouvidos e, quem sabe, publicados. O edital, portanto, cumpre dupla função: fomenta a produção literária e promove a inclusão, mostrando que arte e cidadania caminham juntas.
O contexto é ainda mais significativo porque Tatuí, como estância turística, tem a chance de projetar essa vocação inclusiva para além de suas fronteiras.
O Museu Histórico “Paulo Setúbal”, ao lado de O Progresso de Tatuí — que desde 1943 incentiva a celebração do escritor tatuiano —, tem sido protagonista na construção de uma política cultural que une tradição e inovação, memória e futuro.
Os novos editais, que abrangem música, literatura e múltiplas linguagens artísticas, estimulam em Tatuí a formação de novos talentos, com a valorização da identidade local e a democratização do acesso à cultura.
Investindo em editais que promovem inclusão, acessibilidade e diversidade, Tatuí não apenas cumpre sua função social, mas se posiciona como referência nacional em políticas culturais que reconhecem a arte como direito e, também, ferramenta de transformação.
Que o exemplo de Brian inspire outros jovens a escrever, desenhar, compor e criar. Que as famílias, escolas e professores sigam apoiando esses talentos, muitas vezes silenciosos, mas sempre presentes.
E que Tatuí, ao celebrar seus 200 anos, continue a guardar no coração — e a compartilhar com o mundo — a certeza de que a literatura, quando acessível, é capaz de revelar, acolher e dignificar cada vez mais vozes.






