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    Tatuí na “elite” do basquete nacional

    A conquista da Liga Ouro 2026 pelo Basquete Tatuí, além de motivo de festa e orgulho, representa o auge, até aqui, de um projeto esportivo construído de forma paciente, planejada e coerente ao longo de anos.

    Vencendo Brusque por 81 a 76, em Santa Catarina, nesta quarta-feira, 27, no quarto jogo da final, a equipe tatuiana garantiu o troféu nacional e o acesso ao NBB, principal competição do basquete brasileiro.

    Mais que isso, porém, o caminho percorrido e a forma como a cidade se envolveu com o time explicam por que esta vitória tem peso histórico para Tatuí.

    O roteiro da campanha mostra que não houve atalho. Confirmado na Liga Ouro no início da temporada, o Grupo BT/Clube de Campo estruturou um elenco robusto, combinando manutenção de uma base competitiva e reforços com experiência no NBB.

    Permaneceram atletas como Robson Júnior (eleito melhor armador do Paulista de 2025), Igor Araújo, Aquiles Novo, Rafael Castellon (maior cestinha da história da própria Liga Ouro), Leo Bispo (MVP do Paulista) e Guizão Estevão. Chegaram, entre outros, o armador João Machini, tricampeão do NBB e das Américas, o ala-armador Alef César, o pivô Dida Pereira (três vezes MVP paulista) e peças com passagem por grandes clubes do país.

    Não se tratou apenas de “trazer estrelas”, mas de construir profundidade de elenco, como detalhou o diretor técnico Emanuel Lopes: jogadores capazes de atuar em diferentes funções, sustentar um calendário intenso e manter competitividade simultânea na Liga Ouro, na Copa São Paulo (em que Tatuí é bicampeão), nos Jogos Regionais, Abertos e Campeonato Paulista.

    Em janeiro, ao apresentar o grupo no Memorial do Rugby, já estava claro que o objetivo não era “apenas participar”: a meta declarada era brigar pelo acesso.

    A presença do presidente da Federação Paulista de Basquete, Enyo Correia, sublinhou a percepção de que o projeto tatuiano passou a ser visto, também externamente, como sério e consistente.

    A trajetória na Liga Ouro confirmou essa expectativa. Tatuí enfrentou adversários tradicionais – como Fluminense, Basket Joaçaba, Contagem América Towers, Vila Velha e Brusque – e soube reagir em momentos de adversidade.

    Logo na estreia, saiu de 19 pontos atrás contra o Unoesc Basket para virar a partida em 91 a 89, evidenciando uma característica que marcaria toda a campanha: a resiliência.

    Ao longo da competição, segundo o técnico Daniel Leque, mudanças no perfil de jogo e na postura defensiva foram assimiladas pelo elenco, até que a equipe passasse a ostentar uma das melhores defesas do campeonato.

    Nas finais, contra o Brusque, esse amadurecimento ficou ainda mais evidente. No jogo um, em Tatuí, vitória segura por 70 a 49, com o ginásio do Clube de Campo fazendo sua parte.

    No jogo dois, também em casa, a equipe iniciou bem, mas viu o adversário reagir e vencer o duelo, por 72 a 61, levando a série empatada para Santa Catarina.

    Fora de seus domínios, o Basquete Tatuí mostrou capacidade de ajuste. No jogo três, virou no último quarto e venceu por 73 a 67. No decisivo jogo quatro, chegou a terminar o primeiro período 13 pontos atrás (29 a 16) e foi ao intervalo ainda em desvantagem (39 a 35).

    No terceiro quarto, empatou em 57 a 57. No último, impôs maturidade, cometeu apenas três erros de posse de bola e fechou a série com vitória por 81 a 76.

    Os números individuais ajudam a ilustrar a performance, mas não explicam sozinhos o título. Dida foi o cestinha da partida final, com 23 pontos; Alef César somou um duplo-duplo (13 pontos e 10 rebotes) e Robson Jr. contribuiu com 17 pontos e cinco assistências.

    Porém, como o próprio dirigente Lopes salientou, o diferencial esteve tanto dentro quanto fora de quadra: a capacidade de administrar adversidades, manter foco nos momentos decisivos e transformar o projeto em algo que “contagia e inspira pessoas”.

    A filosofia declarada, de buscar impacto para além da quadra, aparece em detalhes como o esforço da comissão técnica, o cuidado com a preparação física, a atenção ao torcedor e a construção, passo a passo, de uma identidade.

    Essa identidade passa, necessariamente, pela relação com a cidade. Tatuí é, nesta edição da Liga Ouro, o único representante paulista, algo que eleva a responsabilidade e amplia a visibilidade.

    Em entrevista ao jornal O Progresso de Tatuí, atletas como João Machini – que superou o estigma de “baixa estatura” para um armador de alto nível – e Rafael Castellon – que fala em encerrar a carreira no clube – apontaram “a força da torcida e a sensação de defender, não apenas um time, mas uma comunidade de mais de 130 mil habitantes”.

    O ginásio cheio, as ações de engajamento, as decorações com a identidade do clube e o esforço para tornar cada jogo um evento mostram que o Basquete Tatuí soube construir um vínculo emocional com o público local.

    Do ponto de vista de gestão pública e de política esportiva, há elementos a reconhecer. O projeto foi gestado ao longo de décadas, passando por interrupções e retomadas, até ganhar impulso mais recente com apoio da prefeitura, de empresas locais e do Clube de Campo.

    O prefeito Miguel Lopes Cardoso Júnior lembrou que o basquete organizado na cidade remonta a 1992, que houve retomada em 2006 com foco em crianças e que, a partir de 2019, começou a se desenhar uma equipe adulta de alto rendimento, ainda em bases modestas.

    Títulos em divisões estaduais, participação em torneios regionais e, agora, a conquista da Liga Ouro mostram uma curva de crescimento que não se confunde com iniciativas improvisadas.

    O plano de construir novos ginásios – um, por contrapartida, na Fundação Manoel Guedes, pensado para basquete e vôlei; outro, com apoio do governo estadual, em área próxima à Colina das Estrelas, com dimensão para receber Jogos Regionais, Abertos e outros eventos – indica que a administração municipal enxerga o esporte de forma estratégica, conectando infraestrutura, formação de base, alto rendimento e uso múltiplo dos equipamentos.

    Essa visão ganha relevância especial em 2026, ano do bicentenário. Ter o Basquete Tatuí campeão da Liga Ouro e seguindo ao NBB acrescenta uma camada simbólica à conquista.

    Em meio a ações de fomento à arte, cultura e literatura – editais do Museu Paulo Setúbal, totem comemorativo, concursos literários – o esporte surge como mais uma frente em que Tatuí se afirma nacionalmente.

    A cidade que se orgulha de ser Capital da Música e referência em produção cultural passa a ser, também, um polo esportivo em ascensão. É importante, contudo, manter a sobriedade: o acesso ao NBB traz consigo exigências maiores de organização, orçamento, calendário e competitividade.

    O desafio, daqui em diante, será transformar o título em alavanca para consolidar o projeto, reforçar parcerias, garantir sustentabilidade financeira e preservar a filosofia que trouxe o time até aqui.

    Nesse sentido, a amplitude e a diversidade de patrocinadores locais devem também avançar, marcando novos pontos no placar da economia de Tatuí.

    A conquista do Basquete Tatuí justifica o incentivo à continuidade desse trabalho. Esporte, quando tratado com seriedade, entrega resultados que vão muito além de troféus: oferece referências positivas para crianças e jovens, movimenta a economia, fortalece o sentimento de pertencimento e projeta a cidade para além de suas fronteiras.