
O relato da mulher de 46 anos mantida em cárcere privado e agredida pelo companheiro em Tatuí no domingo passado, 22 de fevereiro (reportagem nesta edição), não é apenas mais uma ocorrência policial, devendo ser entendido como retrato explícito de um padrão que insiste em se repetir: a violência doméstica como expressão de poder, controle e desumanização.
Enquanto a vítima era trancada em um cômodo por cinco horas, impedida até de trabalhar, o Brasil registrava mais um capítulo de sua trágica estatística: 3,7 milhões de mulheres agredidas no último ano, sete em cada dez diante de testemunhas.
Os números (apurados por pesquisa do DataSenado) evidenciam que a violência contra a mulher é epidêmica, estrutural e testemunhada coletivamente. E Tatuí, infelizmente, não está imune.
O caso local, descrito no boletim de ocorrência, ilustra com crueza o ciclo perverso analisado pela psicóloga Amanda Piacente. A agressão física — a cabeçada, o chute, a lesão no olho — é apenas a ponta de um iceberg de violências psicológicas, morais e simbólicas que minam a autoestima, isolam a vítima e perpetuam a sensação de impotência.
Como destacado pela especialista em artigo enviado à imprensa nesta semana, a presença de testemunhas (no caso, o próprio agressor trancou a vítima em um local onde os gritos eram ouvidos por vizinhos) não garante proteção. Pelo contrário: “pode intensificar a vergonha e o constrangimento, reforçando a armadilha que mantém mulheres presas a relações abusivas”, aponta ela.
Os dados nacionais revelam ainda outra camada de horror: 70% dos episódios de violência acontecem na presença de crianças. Isso significa que, além de ferir mulheres, o agressor semeia traumas que comprometem o desenvolvimento emocional, cognitivo e social de futuras gerações.
Crianças expostas a esses cenários, como explica Amanda, podem desenvolver desde agressividade e isolamento até dificuldades de concentração e memória — efeitos que ecoarão por toda a vida. A violência doméstica, portanto, não destrói apenas indivíduos: corrói o tecido social.
Apesar da gravidade, os caminhos para romper o ciclo ainda são tortuosos. A pesquisa mostra que apenas 28% das vítimas registram ocorrência em Delegacias da Mulher, e só 11% acionam o Ligue 180.
Em Tatuí, felizmente, a denúncia de um vizinho permitiu a prisão em flagrante do agressor, mas quantos outros casos permanecem invisíveis? O desconhecimento sobre a Lei Maria da Penha — admitido por 78% das brasileiras — é uma barreira crítica.
Como aponta o advogado Igor Alves Soares, muitas mulheres não reconhecem sequer estarem em situação de violência, especialmente quando a agressão é psicológica, moral ou patrimonial.
É aqui que a sociedade precisa assumir sua responsabilidade.
O caso tatuiano explicita que a rede informal de apoio — familiares, vizinhos, amigos — é muitas vezes o primeiro (e único) recurso da vítima. Quando a mulher trancada gritou por ajuda, foi um morador quem permitiu a entrada da polícia.
Esse gesto possibilitou se encerrar uma situação potencialmente ainda mais perigosa, mas também expõe uma realidade: não basta esperar que as vítimas denunciem. É preciso que a comunidade seja proativa, reconheça sinais de violência e não normalize discussões agressivas ou isolamento social.
A Lei Maria da Penha, completando 20 anos em 2026, segue sendo a principal ferramenta jurídica de enfrentamento. Ela prevê desde medidas protetivas de urgência — como afastamento do agressor e pensão alimentícia provisória — até políticas integradas de acolhimento.
Porém, como destacam os especialistas, sua efetividade depende de acesso à informação e de uma rede de apoio robusta. Isso significa campanhas permanentes de conscientização, especialmente em escolas, unidades de saúde e espaços públicos, para que mulheres conheçam seus direitos e saibam como denunciar.
Também implica em capacitação de profissionais — policiais, professores, agentes de saúde — para identificar sinais de violência e agir com protocolos humanizados.
Ainda, no fortalecimento de programas locais que ofereçam abrigo, assistência psicológica e suporte jurídico gratuito, em parceria com entidades da sociedade civil.
O caso recente também evidencia a urgência de responsabilização exemplar. A prisão em flagrante foi um passo crucial, mas o processo não para por aí.
É essencial que o Judiciário priorize esses casos, assegurando que medidas protetivas sejam cumpridas e que a vítima receba acompanhamento para reconstruir a vida longe do agressor.
Tatuí, que recentemente vem investindo em políticas de turismo, cultura e infraestrutura, deve acompanhar com muita proximidade o problema. Uma cidade que se orgulha de ser “ternura” precisa ser, antes de tudo, um lugar seguro para suas mulheres. Isso exige união entre poder público, iniciativa privada, imprensa e população. Campanhas como a divulgação dos serviços de denúncia em pontos estratégicos, a instalação de “botões de pânico” em locais de risco e a criação de redes de apoio entre vizinhos podem fazer a diferença.
A violência doméstica não é um problema privado. É um crime que diz respeito a todos. Cada vez que uma mulher é agredida, seja em uma vila de Tatuí ou em um apartamento de São Paulo, toda a sociedade fracassa. Mas, cada vez que uma denúncia salva uma vida, renova-se a esperança de que é possível mudar a realidade.
Que o caso tatuiano sirva de alerta e incentivo: denunciar não é intromissão: é um dever humano. Apoiar vítimas não é opcional: é uma obrigação moral. E combater a violência contra a mulher não é tarefa de um grupo, mas missão coletiva de uma sociedade que se pretenda civilizada.








