
Os resultados das eleições de 2026 deixam uma pergunta necessária: quem representa as cidades do interior quando os votos se dispersam entre candidatos sem vínculo com elas e os postulantes que, em tese, conhecem de perto suas necessidades não se elegem?
Em Tatuí, nenhum dos três candidatos locais à Câmara dos Deputados conquistou uma cadeira. Conforme os dados apresentados pelo jornalista David Bonis em artigo publicado por O Progresso de Tatuí na semana passada, os candidatos com trajetória local também receberam, no conjunto, menos votos que em 2022.
Na disputa também para deputado estadual, o candidato mais votado no município ficou como suplente. Em seu artigo, Bonis examina a votação dos candidatos em Tatuí e a força conquistada por nomes com projeção nacional e presença nas redes.
Os números não provam “cabalmente” que as plataformas digitais tenham causado a perda de espaço das candidaturas locais, mas forçam a reflexão sobre a influência da visibilidade na escolha dos eleitores — e sobre os critérios usados para definir quem os representará.
A questão também aparece no artigo de Sebastião Misiara, presidente do Conselho Gestor da Uvesp (publicado na mesma edição), que defende o voto distrital como forma de aproximar eleitores e representantes.
Misiara chama a atenção para o peso político da Grande São Paulo e a necessidade de o interior ter voz nas decisões tomadas em Brasília. Não se trata de diminuir a importância da capital ou da região metropolitana, mas de reconhecer que o estado é diverso e suas diferentes regiões precisam de representação efetiva.
É momento crucial, portanto, que o voto distrital misto seja discutido com seriedade. Em linhas gerais, o sistema combina a eleição de representantes por distritos com a representação proporcional dos partidos.
Uma parte das vagas é preenchida por candidatos escolhidos em suas regiões; outra, por listas partidárias, de modo a preservar a pluralidade política. A proposta procura conciliar o vínculo territorial entre eleitor e eleito com a representação de diferentes correntes e partidos.
Nenhum sistema eleitoral é perfeito, claro. Portanto, a definição dos distritos, a distribuição das vagas, a proteção das minorias e o equilíbrio entre representação local e proporcionalidade exigem debate e análise técnica.
A reforma do sistema, porém, não substitui a responsabilidade dos eleitores. Cabe a cada um avaliar se dará prioridade aos interesses de sua comunidade ou se decidirá principalmente pela notoriedade de um candidato, pela força de uma publicação viral ou por meras palhaçadas nas redes.
O eleitor tem liberdade para escolher qualquer nome; exercê-la com informação e discernimento é parte de sua responsabilidade cívica.
As plataformas ampliaram o espaço de comunicação política, mas popularidade digital não é sinônimo de preparo, experiência ou compromisso público. Um vídeo engraçado, uma provocação calculada ou uma declaração feita para gerar indignação podem alcançar milhões de pessoas sem apresentar propostas para os problemas cotidianos.
Da mesma forma, um candidato conhecido nacionalmente pode não ter compromisso específico com as comunidades cujos votos busca conquistar.
O debate político também perde qualidade quando é reduzido a rótulos ideológicos repetidos sem reflexão. As diferenças entre correntes políticas são legítimas, mas não dispensam a análise de propostas, trajetória e capacidade de representação.
Quando o debate é substituído por memes, ofensas, falsas notícias e teorias conspiratórias, perde o eleitor, que decide com informação precária, e perde a comunidade, cujas necessidades ficam à margem.
Mais grave é quando figuras públicas usam deliberadamente a desinformação, o conflito e o desprezo pelas regras democráticas para conquistar poder. Ou, até pior: quando colocam Deus na ofensiva condição de cabo eleitoral.
A democracia não exige que todos pensem igual, nem impede críticas a governos e instituições. Exige que a disputa respeite regras comuns, reconheça a legitimidade dos adversários e preserve a possibilidade de alternância.
A popularidade nas redes não pode servir de salvo-conduto para o autoritarismo nem encobrir a falta de preparo para o exercício de cargos públicos – lembrando que a desqualificação cabal e constrangedora será carregada a assembleias estaduais e à Câmara Federal por figuras tétricas em número nunca antes atingido.
O chamado “movimento de manada digital” transforma repetição em prova e viralização em critério de escolha. Mas, o que circula com maior intensidade pode estar muito distante da realidade do interior.
Temas nacionais podem ser importantes, mas não respondem automaticamente às necessidades de cada município. Quando o eleitor não pergunta quem conhece seus problemas, quais compromissos foram assumidos e como poderá cobrar o representante, a comunidade corre o risco de ficar sem voz.
Sim, a população perde quando seus interesses comuns são preteridos pela lógica do espetáculo. Perdem os moradores que dependem de serviços de saúde, transporte, educação e infraestrutura; perdem trabalhadores, estudantes, famílias e empreendedores. Perde toda a população, sem distinção de partido ou opinião, quando a representação se distancia dos problemas que afetam sua vida.
Por isso, a discussão sobre o voto distrital misto é oportuna, mas deve vir acompanhada de uma mudança imediata: recuperar a atenção ao que realmente importa.
Antes de votar, é preciso verificar o que cada candidato propõe, onde atua, que compromissos assume e como poderá ser cobrado. É preciso desconfiar quem oferece apenas provocações, promessas milagrosas ou desinformação.
Como mostram os artigos de Sebastião Misiara e David Bonis, o debate sobre representação regional e dispersão de votos merece ser levado adiante. O interior não pede privilégio nem se coloca contra a capital: pede voz, presença e respeito.
Nenhuma votação viral substitui uma representação responsável. E nenhuma comunidade deveria aceitar que seus interesses se percam no ruído das redes.
Há, por fim, uma ironia apontada pelos textos: candidaturas locais parecem ter disputado atenção no mesmo ambiente digital que favorece nomes já conhecidos e com grandes audiências.
Esta estratégia não se mostrou eficiente, embora não seja possível concluir por definitivo que a internet tenha causado a derrota dos candidatos locais ou que todos tenham concentrado nela todos os seus recursos de partido – ou deles mesmos.
Ainda assim, é legítimo questionar se a busca por visibilidade nas plataformas não afastou campanhas do diálogo mais próximo com as comunidades e, inclusive, com os veículos locais, que acompanham as questões regionais de fato.
Inquestionável, entretanto, é a ironia de que o privilégio da atenção e investimentos dos candidatos esteve reservado justamente às plataformas digitais que lhes tiraram as chances de eleição – e isso em detrimento aos veículos de suas próprias comunidades, denotando a mesma falta de atenção que, para com eles, tiveram os eleitores locais.








