
David Bonis * Especial para O Progresso
A reportagem d’O Progresso publicada na edição de 11/10/2026, intitulada “Candidatos da cidade acabam não eleitos” traz uma síntese importante sobre o desempenho de nomes conhecidos no município que concorreram ao cargo de deputado federal nas eleições deste ano: todos ficaram como suplentes.
Embora nenhum nome com vínculo local tenha conquistado uma cadeira no Congresso Nacional, todos os deputados federais eleitos pelo estado de São Paulo no pleito de 2026 receberam votos tatuianos.
Vereador da cidade de São Paulo, Lucas Pavanato (PL) foi eleito com recorde de votos, mais de 3 milhões. Em Tatuí ele foi escolhido por 8.063 eleitores, ou 13,48% do eleitorado da cidade – percentual pouco acima da votação que recebeu no próprio domicílio político (12,59%) e no estado de São Paulo (12,83%).
O vereador da capital paulista foi o segundo mais votado em Tatuí, ficando atrás apenas de Alessandra Gonzaga (PP), que recebeu 14.312 votos, porém à frente de Guiga Peixoto (PRD) e Marquinho Santa Casa (Republicanos), escolhidos por 4.691 e 2.533 eleitores, respectivamente.
Juntos, Guiga e Marquinho, que possuem trajetória relevante na política local, receberam menos votos em Tatuí que o vereador da cidade de São Paulo.
Como informa O Progresso na reportagem em questão, Alessandra Gonzaga e Guiga Peixoto também concorreram nas eleições de 2022 e, naquela ocasião, receberam mais votos em Tatuí que no pleito de 2026.
Alessandra, que disputou uma vaga de deputada estadual há quatro anos, teve uma redução de aproximadamente 38% de votos recebidos no município. Já Guiga Peixoto registrou uma queda ainda maior, de cerca de 66%.
Em números totais a redução de votos de eleitores tatuianos em candidatos do município caiu 10,8% em 2026 em comparação a 2022. A maior queda foi registrada em relação aos votos destinados a candidatos que têm domicílio eleitoral em cidades vizinhas. Eles receberam 82% menos votos neste ano.
Em resumo, em 2022 dos 10 candidatos a deputado federal mais votados em Tatuí, 7 tinham vínculo municipal ou regional, totalizando 36,5 mil votos. Quatro anos depois esse número caiu para 24,4 mil, redução de 33%.
No pleito de 2022, Carla Zambelli (PL) e Eduardo Bolsonaro (PL) foram os candidatos de projeção nacional mais votados por Tatuí, aparecendo em 7º e 8º lugares com 2,2% e 1,9% dos votos, respectivamente. Ambos não exercem mais os cargos para os quais foram eleitos na ocasião em função de assuntos externos ao município.
Cenário para estadual
Com ainda menos opções locais, os votos para deputado estadual em Tatuí tiveram resultado ainda mais fragmentado. Embora Rodolfo Fanganiello (PSD) tenha sido o nome mais votado na cidade, escolhido por 7.553 (14%) eleitores tatuianos, também ficou como suplente.
No entanto, ele recebeu apenas 1.236 votos a mais que a segunda mais votada na cidade, a vereadora do município de Praia Grande, litoral de São Paulo, Eduarda Campopiano (PL), escolhida por 6.317 eleitores locais.
Eleita com 1,9 milhão de votos, a segunda maior votação da história da Alesp, Campopiano recebeu, proporcionalmente, mais votos em Tatuí que na média estadual (10,9% contra 8,39%, respectivamente).
A dispersão de votos nas eleições legislativas é sempre um desafio para as candidaturas locais, que possuem menos recursos financeiros e tempo de propaganda na televisão.
No entanto, com o crescimento das campanhas políticas nas redes sociais e sobretudo a estratégia de engajamento full-time dos candidatos de projeção nacional que utilizam a internet como influenciadores – e passam os anos que antecedem as eleições viralizando na internet –, surge um novo desafio que as candidaturas de Tatuí e de todo o interior do Brasil devem encarar: a concorrência quase desleal com nomes nacionais.
É imperativo discutir o assunto, pois o risco que esse novo fenômeno pode representar é reduzir drasticamente a representatividade local e o entendimento dos problemas reais para o munícipe em busca de soluções e pautas genéricas. Está em curso uma mudança no motivo de votar. O voto passa a ser ainda mais ideológico e menos representativo das necessidades locais.
Com grande atuação nas redes sociais muito antes das eleições, como Instagram e YouTube, Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano são conhecidos por viralizarem na internet por defenderem pautas gerais.
O novo deputado federal, por exemplo, já declarou no curso das eleições que trabalhará pelo impeachment de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).
Há poucas propostas de soluções locais nos discursos de candidatos desse perfil – o que pode se tornar uma tendência para as eleições do futuro e um desafio a ser observado pelas candidaturas com pautas localizadas.
Outro obstáculo que deve ser analisado decorre da destinação desproporcional de recursos promovida pelos próprios partidos em razão do engajamento que esses candidatos promovem. Na campanha de Eduarda Campopiano mais de 90% dos recursos da vereadora de Praia Grande foram disponibilizados pelo diretório nacional do PL.
Interesses de Tatuí?
O avanço dos candidatos influenciadores digitais levanta uma questão que vai além dos resultados das urnas e que tem sido objeto de preocupação Brasil afora: qual é o peso da popularidade digital na escolha de quem vai representar a população?
A pesquisa acadêmica já trata esse fenômeno como parte das transformações da comunicação política. Um estudo publicado em 2025 sobre as eleições federais alemãs de 2021 identificou que cerca de 6% dos entrevistados consideraram o conteúdo de influenciadores útil para decidir o voto.
Embora o resultado não possa ser aplicado diretamente ao eleitorado tatuiano, ele demonstra que esse tipo de comunicação já participa das decisões eleitorais pelo mundo.
No Brasil, uma pesquisa publicada na revista Political Communication analisou cerca de 80 mil publicações e anúncios no Facebook durante as eleições de 2022. Os pesquisadores concluíram que a comunicação política nas redes não necessariamente reduz as desigualdades da disputa: candidatos com menos recursos tiveram menor presença ou engajamento, e as campanhas concentraram esforços em municípios mais populosos e ricos, deixando centenas de cidades à margem dessas ações.
Os dados de Tatuí colocam essa discussão em perspectiva. Quando candidatos sem uma trajetória política local identificada conquistam votações expressivas, enquanto nomes com histórico de atuação no município perdem espaço, surge uma pergunta legítima sobre os critérios que orientam o eleitor.
Os números, isoladamente, não provam que as redes sociais causaram essa mudança, mas justificam investigar o papel da visibilidade digital na disputa eleitoral.
O desafio neste momento não é exigir que todo representante tenha nascido em Tatuí ou impedir que candidatos de outras cidades recebam votos no município. É cobrar que a popularidade venha acompanhada de propostas, compromisso e prestação de contas. Afinal, a eleição não termina na contagem dos votos: começa ali a responsabilidade de representar a população.
Mais do que perguntar quem conquistou a atenção dos eleitores, cabe perguntar quem conhece os problemas de Tatuí, quais compromissos assumiu com a cidade e como será cobrado por eles. Em tempos de política cada vez mais digital, a visibilidade abre caminho até o voto. A representação, porém, precisa ser demonstrada na prática.
Porém, se não houver resultados a discussão sobre regionalização do voto, semelhante ao que acontece em outros países, pode entrar em pauta. Só o tempo dirá.
* Jornalista e leitor de O Progresso. Foi repórter, com atuação na cobertura de eleições majoritárias e proporcionais.








