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    A democracia que não pode morrer

    Neste domingo, 25 de outubro, os brasileiros vão às urnas para decidir a eleição presidencial mais acirrada da história nacional. A disputa não é apenas entre candidatos: é, sobretudo, uma decisão sobre o futuro da própria democracia.

    Por isso, embora incômodo, é primordial lembrar que cada cidadão ausente estará, na prática, abrindo mão de um direito inigualável em qualquer outro momento da vida pública.

    Ausentar-se das urnas também é uma escolha. O voto não depositado conta, indiretamente, para quem vence. Mas, o prejuízo é mais profundo: quem deixa de votar renuncia ao único instante em que seu peso é “exatamente igual” ao de qualquer outro cidadão.

    Na cabine eleitoral, não há diferença entre pobre e rico, preto e branco, heterossexual ou não, religioso ou agnóstico. Ali, todos são iguais perante a urna. Abrir mão desse privilégio é menosprezar a própria cidadania — e, depois, perder a legitimidade para reclamar dos resultados.

    Neste momento de profunda cisão política, porém, o maior equívoco seria reduzir a eleição a uma disputa entre “esquerda” e “direita” – notando-se, inclusive e novamente de forma desconfortável, que a maioria das pessoas sequer sabe identificar o que essas ideologias realmente representam, por nem uma linha da literatura a respeito terem se dado ao trabalho de ler…

    Deixaram-se afastar dos fatos, das notícias reais e dos livros de história (sim, os livros, aqueles que explicam de onde viemos e o que já experimentamos como nação) em favor de bobagens de redes sociais.

    O resultado é uma quase total falta de critério. Pessoas francamente “de bem” estão sendo manipuladas com mentiras, falsas promessas e, acima de tudo, com a instigação ao ódio e ao conflito.

    O objetivo não é o debate nem a construção de consensos, tampouco “pontes” de reconexão familiares, de amizade e de trabalho – enfim, de civilidade! O que ser quer, de forma vil e descarada, é a divisão do povo, com seu enfraquecimento como nação, tornando-o vulnerável à captura por poucos.

    Sem nenhum compromisso com a pacificação — cientes de que a conquista do poder é mais fácil quando a população está fragmentada —, esses agentes apostam naquilo que tem varrido o planeta na contemporaneidade: a promessa de mudanças extremas. E é aí que começa o (maior) perigo.

    Ao longo da história recente, promessas de ruptura radical abriram espaço para golpes, ditaduras, teocracias e autocracias. Regimes que não apenas suprimem liberdades, mas se perpetuam no poder muito depois de as promessas que os sustentaram terem sido esquecidas.

    É nesse ponto que a reflexão precisa ir além de 2026. O que está em jogo neste domingo não é apenas a escolha de um candidato: é a continuidade da democracia a permitir que haja eleições em 2030, em 2034 e nas décadas seguintes.

    Por este aspecto, vale demais a atenção sobre a tese apresentada pelos cientistas políticos de Harvard Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em “Como as Democracias Morrem”, a qual fornece base lógica e científica para o que se testemunha no Brasil destes anos recentes.

    Os autores demonstram, com fartura de evidências históricas, que as democracias contemporâneas raramente desaparecem por golpes militares abruptos. Elas são, com frequência, corroídas por dentro — por líderes que chegam ao poder pelo voto e, uma vez eleitos, passam a enfraquecer as instituições que deveriam contê-los.

    A erosão é gradual. Começa com ataques verbais a adversários, à imprensa e ao Judiciário. Prossegue com a tentativa de deslegitimar o sistema eleitoral e a oposição – neste caso, tratando-a não como adversária legítima, mas como “inimiga que não tem direito de governar”.

    Avança com o desrespeito a normas informais que sustentam a democracia tanto quanto as leis. E culmina na alteração das regras do jogo para dificultar a alternância de poder. Cada passo, isoladamente, pode parecer tolerável; acumulados, comprometem a própria possibilidade de que o povo volte a escolher livremente seus governantes.

    Levitsky e Ziblatt acentuam dois comportamentos como sinais de alerta: rejeitar as regras democráticas do jogo e negar a legitimidade dos adversários.

    Também dão importância central a normas não escritas, mas que mantêm a democracia viva: a tolerância mútua, que reconhece o outro como participante legítimo da disputa, e a contenção institucional, que impede que os poderes legais sejam explorados até o limite máximo para aniquilar quem pensa diferente.

    O que se vê no Brasil atual — e em tantas outras democracias sob risco — é o enfraquecimento acelerado dessas normas. A política deixa de ser o espaço do confronto civilizado de ideias e se transforma em guerra – quando não em simples palhaçada em rede social e, por ora, até em debates de TV.

    O outro não é alguém com quem se discorda, mas alguém que precisa ser eliminado – ou, como dizem alguns, “neutralizado”. E quando essa lógica substitui o debate, a primeira vítima é a democracia. A segunda é a liberdade de todos — inclusive daqueles que, iludidos, aplaudiram o processo.

    Por isso, o voto deste domingo é muito mais que uma preferência pessoal ou ideológica, correspondendo, mesmo, a um ato de defesa da democracia.

    Novamente: não se trata de optar por esquerda ou direita, mas, sim, de garantir que, em 2030, ainda haverá eleições livres. Que ainda será possível discordar, protestar, fiscalizar e alternar governantes sem medo! Que as instituições continuarão existindo não para servir a um grupo, mas para proteger a todos!

    A democracia pode ser imperfeita, lenta e frustrante. Contudo, é o único sistema que permite corrigir seus próprios erros sem derramar sangue. É o único regime em que o cidadão comum pode, a cada ciclo, mudar o rumo do país.

    E é exatamente por isso que tantos, ao redor do mundo, tentam destruí-la por dentro, usando as ferramentas que ela mesma oferece (ou melhor, que “só ela oferece”).

    O que Levitsky e Ziblatt ensinam é que a morte da democracia não ocorre de uma só vez. Ocorre quando as pessoas deixam de acreditar que ela merece ser defendida.

    Acontece quando a omissão se torna maioria, quando as mentiras substituem os fatos e quando o ódio se torna mais forte que a disposição de conviver com as diferenças.

    Neste domingo, não abdique de um de seus maiores direitos. Compareça às urnas com a consciência de que seu voto não é apenas direito: é a sua parte na defesa da democracia brasileira.

    Não permita que a desinformação, o cansaço ou a desilusão lhe roubem esse momento. Lembre-se: a história não perdoa aqueles que, tendo a chance de proteger a liberdade, escolheram se ausentar.

    Que 2026 seja lembrado como o ano em que os brasileiros disseram sim à democracia — e garantiram que ela continuasse viva para 2030 e para todas as gerações que virão depois.

    Finalmente, pensem exatamente nas futuras gerações. Avaliem, com esforço a favor do bom-senso e do fundamental distanciamento dos conflitos artificiais, quem melhor pode garantir, a seus filhos e netos, um Brasil comprometido com valores como a democracia, a paz, a justiça e, essencialmente, com a “humanidade”!