Relembrando os anos 70-80





Ou bem-vindos à Thunder, à Sunrise e ao Tatuí Clube (TC)

Bem, meus amigos, na década de 70-80, o mundo foi surpreendido por um movimento musical com direito a muito som, luzes, ritmos, moda colorida: nascia ali a “discotheque”, depois, “discoteca”, e, ainda, para encurtar, “disco”.

Na verdade, eu entendo que, da mesma forma que biblioteca é o local onde se encontram livros, a discoteca era o local onde se levava e ouviam-se discos. Acredito ter sido esse tempo a época que mais se gravou músicas pelo mundo todo e em todos os idiomas.

Essa febre atingiu toda a Terra, pois o ritmo era muito contagiante e, além do que, o som passou a ser muito repetitivo e a percussão era toda computadorizada. A tecnologia sonora dava um salto grande, e os produtos importados eram despejados nas lojas da rua Santa Efigênia, em São Paulo, que era, na época, e ainda é, o paraíso dos eletroeletrônicos.

Visando uma perfeição na qualidade do som, surgem: equalizadores, potências, mixers (misturadores), luzes, bolas com efeitos, muita fumaça de gelo seco e muitas cores, que eram um colírio para os olhos, alegria para os ouvidos e ritmos para os pés.

Nas casas, os “três-em-um” (toca-discos, toca-fitas cassete, rádio AM-FM) faziam sucesso. Porém, era um “sonzinho para dizer que tinha”. Não podia abrir muito o som, senão rachava, e adeus alto-falantes! Os carros recebiam uma atenção especial, sendo que a predominância e o destaque eram para os agudos, e os twitters vieram e os carros passavam assobiando com excesso de “issssss”. Até era chamado de som de frigideira, pois nos lembravam o som de fritura de ovos na gordura quente.

Surgiam os inesquecíveis toca-fitas: T.K.R. – Pioneers, Sansui, Sony e outros. E as fitas cassete comuns e as de cromo e dióxido, que reproduziam uma frequência ainda mais aguda.

Nos cinemas, o filme “Saturday Night Fever”, aqui traduzido como “Os Embalos de Sábado à Noite”, era o estimulante para que todos aprendessem os passos e os movimentos com John Travolta no papel do bailarino Tony Manero.

A trilha sonora desse filme, de um álbum duplo dos Bee Gees e outros com quatro sucessos que bombavam nas casas noturnas: “Night Fever”, “Staying Alive”, “More Than a Woman” e a romântica e eterno sucesso “How Deep is Your Love”.

Recomendo que você assista, vá à locadora mais próxima e alugue. Tire a criançada da sala e boa noite de embalos! Vale a pena matar saudades! Em Tatuí, essa febre chegou, pela criatividade e visão cultural do professor Acassil, que era o presidente do Alvorada Clube e, sentindo essa onda musical cultural mundial, convidou o jovem Osmil Antonio Martins (o Burt), que, além de guitarrista da minha banda The Johnnies, assume o comando dos botões dos equipamentos da “Thunder”, que foi a primeira “boatinha” dentro do Alvorada Clube, era um atrativo para os associados e, com o passar do tempo, passou a ser aberta para todos.

Pelo telefone, conversei com o Burt, que hoje reside em Aparecida do Taboado (Mato Grosso do Sul), com a esposa Simone e a filha Vitória. E, assim, consegui algumas informações que agora apresento pra vocês.

A Thunder teve o seu início em 24 de dezembro de 1974. O símbolo dela era um cachorro bulldog, criado pelo falecido Reinaldo “Catatau”. Os equipamentos que ele pilotava eram: um toca-fitas Akay, um gravador de rolo da mesma marca e duas pick-ups Technics.

Durante a semana, ele ficava garimpando os sucessos por todas as grandes boates do Rio e São Paulo, que lançavam seus próprios discos contendo os maiores sucessos mundiais do momento. A exemplo: Hippopotamus, New York City, Banana Power, entre outras.

O clube comprava e investia em equipamentos, as fitas cassete e os rolos já vinham prontos, era só ligar na tomada, dar o play, aumentar o som e ver a pista ferver. Conversando com o Burt, ele me contou que, das milhares de músicas que tocava, as que mais marcaram foram: “Born to Be Alive” (Patrick Hernandez), “Don’t Let me Be Misunderstood” (Santa Esmeralda), “San Francisco/Macho Man” (Village People) e, ainda, Gloria Gaynor, Barry White, Earth, Wind and Fire, e a abertura era a “Livin’ Thing” (Electric Light Orchestra), entre muitas outras.

Nessa época, Tatuí era mais calma e havia muitos outros jovens (agora senhores), que também gostavam de músicas e equipamentos; Lembrei-me do Flavinho Hoffman, Flavinho Ferreira, Tico Moreira (irmão do Bambino), Pinóquio, os irmãos Betão e Marião Foltran, Paulo Wesley e Alencar, Paulo Cabra, Barth, Márcio Vieira, Roberto Lorenzetti (Lore), entre outros.

Esse pessoal comprava os discos e levava para o Burt gravar, e todo mundo gostava das mesmas músicas! O Burt me contou que ficou lá de 1974 a 1978 e, depois, em meados de 1978 a 1982, quem assumiu foi o Barth, hoje piloto de aeronaves.

No Carnaval, eram lá que as coisas aconteciam, pois, com as músicas do Convocação Geral, da Rede Globo, Jorge Ben, Frenéticas e outras, e, ainda, quando fui gravar em 1976 – comemorando os 150 anos dos sesquicentenário de Tatuí – o primeiro samba-enredo da Banda Bandida: “Samba da Ternura”:

“Estou aqui em nome da rosa,

A rosa que é a flor mais pura.

Estou aqui pra falar pra vocês

do Carnaval da Cidade Ternura”

Que é de minha autoria e foi lá que tocamos para o pessoal aprender e cantar no Carnaval de rua. Bons tempos!

Em desabafo bem intimo, o Burt me falou: “Foi o melhor tempo da minha vida, junto com todos os meus amigos, em que éramos todos felizes e despreocupados com o mundo”.

Quando eu disse para o Burt mandar uma mensagem para os amigos de Tatuí, ele me falou, com uma voz meio chorosa e emocionada: “Ei, Voss, vai fazer eu chorar, mande um forte abraço a todos, que aproveitem cada segundo da vida e me aguardem que um dia eu apareço por aí. Fique com Deus, e muito obrigado por se lembrar de mim”.

Também tivemos outras discotecas que foram criadas em Tatuí, como o Tatuí Clube (TC), onde o presidente João, já falecido, e eu promovemos, ao lado de amigos como Marquinhos Eletrola Digital e Marcos Break, muitos eventos temáticos, como “Noite do Recado”, “Noite do Hawaii”, “Noite do Karaokê” (naquela época, consegui emprestar quatro televisões grandes de uma loja da cidade e, com câmera de vídeo, jogávamos a imagem simultânea, e o slogan dessa festa foi: “Aqui você canta no Karaokê e se vê na TV”).

Você já imaginou o cara cantando e todos os salões vendo-o na TV. Pra época, isso foi um sonho. A TV Globo também entrou nesse clima e apresentou uma novela, “Dancin’Days”, que foi quem ditava a moda dos cabelos, dos sapatos, do vestuário e das músicas. E a música tema até hoje é sucesso. Pra lembrar: “Abra suas asas, solte suas feras e caia na gandaia”.

Um fato curioso que me lembrei quando teve início a onda disco: meu falecido irmão, Diógenes Voss Campos, o Dió, e o Adalberto Barros Costa compraram um kit e montaram um dos primeiros misturadores de som “mixers” da cidade. E todo mundo ia lá em casa pra ver aquela engenhoca que era um sucesso e que permitia nem bem terminar uma música você já fazer a outra ir entrando bem baixinho. Hoje, é tão comum. E isso para o desespero da minha mãe, do meu pai e dos vizinhos.

Foi na Thunder que o Rizek montou a Troupe, um grupo de manequins, entre homens e mulheres, que divulgavam as roupas das lojas da época: Bla-Blu, Malu, Lojas Telles, Cida Ricci, e muitas outras. Entre os manequins, lá estavam: Zalina, sua irmã Cristina, Jaqueline Lorenzetti, Beth Roseiro, Marta Muzel, Lore, Márcio Vieira, Atílio Batistella, Seco, Célio, eu e muita gente mais. Eram montados os quadros para cada estilo de roupas – inclusive, me lembrei de um quadro em que eu até usei um uniforme do Correio, que eu emprestei de um funcionário, e eu entregava, no quadro, uma carta para Zalina. Coisas de Jorge Rizek!

Foi nessa época que eu mandei fazer uma enorme mesa de som, que era um trambolho preto na sala de casa, mas era minha usina de som. Também foi nessa época que o Carlos Marteleto me emprestou o LP “Made in Japan”, do grupo de rock pesado Deep Purple. Aí, quando meu pai ia para o sítio e minha mãe, para escola, eu ligava em casa e o som ia até o Jardim da Santa! (risos)

E agora, para encerrarmos essa viagem pelos anos 70-80, vamos saber um pouco sobre a “Discotheque Sunrise”, e a conversa vem com Edwald Miranda “Canário” e o Adalberto Campos Luz.

ENTREVISTA

Como surgiu e de quem foi a ideia de montar mais uma discoteca em Tatuí?

Adalberto – o Canário se entusiasmou com a onda da novela “Dancin’Days” e do filme “Embalos de Sábado à Noite”. Em conversa, nós dois resolvemos topar a parada.

Quem foram as pessoas envolvidas nesse projeto?

Adalberto – Fomos nós dois, e contamos com a presença do Burt e do Barth.

Por que o nome Sunrise?

Canário – Sunrise, nascer do sol. Depois de várias sugestões, escolhemos esse nome, achamos bonito e soava bem.

Onde ela funcionou?

Adalberto – Foi ali na rua do Cruzeiro, onde funcionava a antiga madeireira do senhor Tonico Luciano, onde, atualmente, é o estacionamento do supermercado Barbosa Gold.

Qual foi a data de inauguração?

Canário – Ela foi inaugurada em 7 de junho de 1978, com uma superfesta, com uma multidão que tomou toda a rua do Cruzeiro.

Até quando ela funcionou?

Adalberto – Praticamente, até o início de 1979. Tivemos uma série de problemas com a polícia em relação à idade, pois os namorados queriam entrar com suas namoradas menores de idade. E isso nos causava muito problema e muito constrangimento.

Quem foram os DJ’s que trabalharam lá?

Canário – Foram o Burt, o Barth, o Avallone já falecido.

Adalberto – Inclusive, nós tínhamos domingueiras com matinê para as crianças, onde o Barth e o Avallone faziam o som. Haja Balão Mágico!

Eu me lembro que vocês tinham equipamento muito bom. Você se lembra das marcas?

Canário – Era o que havia de melhor naquela época: Marantz, Sony, Technics, Koss, além de projetor de imagens e filmes. E tínhamos o chão com lâmpadas. Tanto é que, quando nós encerramos as atividades, vendemos tudo isso para um clube de Sorocaba.

Em termos de eventos, quais foram os que mais ficaram nas suas memórias?

Adalberto – Os que fizeram tremendos sucessos foram desfile de modas da Malu, desfile da loja Bla-Blu, do Beto Albertoni, tudo organizado pelo Rizek.

Canário – Também tivemos um concurso de danças que foi muito bom, vencido pelo doutor Jorge Orsi e a Solange.

Adalberto – Um evento também que marcou foi o aniversário do nosso amigo já falecido Beline e também as noites do cowboy, onde o pessoal ia a caráter.

Que músicas marcaram aquele tempo para vocês dois?

Canário – Foi, praticamente, o que todo mundo ouvia: Os Bee Gees, Barry White, pois, nesse tempo, tínhamos lançamentos mundiais todos os dias, e não era fácil acompanhar os lançamentos e os hits mundiais. Era correr o tempo inteiro atrás dos discos em São Paulo, nas lojas de discos.

Adalberto – Também as músicas da novela “Dancin’Days”, que faziam sucesso.

Pra encerrarmos essa conversa, vocês querem fazer algum comentário?

Canário – Infelizmente, foi um tempo de duração muito pequena. Foram muitos discos, muitas músicas, muitas emoções. Porém, muito curto. Mas, é lembrado até hoje por todos que viveram e curtiram. Valeu a pena!

E, para encerrar a nossa conversa, agradeço a vocês pelas boas lembranças. Muito obrigado, Canário e Adalberto; meu amigo guitarrista do The Johnnies e DJ da Thunder e da Sunrise, o Burt; ao Barth; ao Marquinhos Eletrola Digital; ao Marcos Break; ao Jorge Rizek, pelos desfiles e eventos que fizeram nossa juventude ser repleta de bons momentos, muita cultura e criatividade na nossa querida Tatuí.

Ao fotógrafo Brunno Vogah e a todos vocês, que nos acompanham por esta coluna. Até o próximo embalo, de sábado, domingo e o dia que der. Abraços a todos, obrigado pela sua leitura. Voss.

E atenção: se você leu e curtiu os anos 70, 80, 90, ou se você leu e quer curtir essa época mágica, aproveite a quarta edição da Casa do Polengue, que acontece neste sábado, 26, às 22h, na Associação Atlética XI de Agosto.

O evento terá como atrações: a banda Ossos do Ofício, completando 25 anos e tocando os clássicos do rock nacional e internacional da época; nas pick’ups, DJs Everaldo Postinho (Trololó), Ricardo Amaral (Clube 80) e o dono da “Casa”, Marcelo Polengue. Só para lembrar: só para maiores de 21!

Venha e, de repente, você pode encontrar com John Travolta, Village People, Gloria Gaynor e outros por lá.