Mestre condutor da arte e da educação em Tatuí

Professor por décadas da “Escola Industrial” – assim antes popularmente chamada a Escola Técnica Estadual “Sales Gomes” (Etec) -, Josué Fernandes Pires somou diversos talentos, artísticos em particular, que o levaram a ser reconhecido como um realizador “multimídia”.

Isso, importante lembrar, muito antes do termo “mídia” acabar banalizado pelo uso tão repetitivo e sem critério, além de apegar-se cada vez mais às ferramentas digitais – o que não é fato, dado a expressão indicar muito mais que um disquete, um CD, um pendrive ou um HD…

Basicamente, a mídia é um meio (qualquer) pelo qual se manifesta, se transmite algo. Para os Homo sapiens, as paredes das cavernas eram “mídias”; para os jovens da atualidade, os APPs de celulares. Tanto faz o instrumento, “o meio”; interessa a “mensagem”.

Portanto, as mídias como “meios” seguem em constante processo de renovação, embora nem por isto em evolução de conteúdo – muitas vezes, pelo contrário, como se pode testemunhar nestes anos recentes.

Então, torna-se oportuno atentar para as diversas manifestações na mídia, do uso delas apenas para a comunicação quanto, em outro extremo, à criação artística, que pode se tornar sublime e eterna, seja “guardada” nas nuvens, na “História” da humanidade ou mesmo na “memória” de cada ser humano.

Michelângelo di Lodovico Buonarroti – ilustrando este argumento – utilizou-se da cúpula da Capela Sistina, no Vaticano, como “mídia” para dar de herança à humanidade uma das maiores expressões de criação artística de todos os tempos.

Conscientes ou não, jovens ou idosos, minimamente informados ou ignorantes, de alguma forma, “todos” já viram e reconhecem “A Criação de Adão”, maior destaque do afresco no teto da capela, em que, mesmo esforçando-se, esticando-se, a figura do “homem” tenta tocar os dedos de Deus, mas, imperfeito, muito longe espiritualmente da divindade, não o consegue.

(O gênio da pintura, aliás, tem exposição em São Paulo neste momento, no MIS Experience).

Do Vaticano de volta a Tatuí, guardando-se as chamadas devidas considerações, de épocas, localizações e “mídias”, é muito seguro – e correto – afirmar que a Cidade Ternura também teve seu Michelangelo, o qual legou-lhe, inclusive, algumas obras de arte icônicas, já parte integrante da própria identidade tatuiana, tal a obra-prima do mestre renascentista para o Vaticano.

Expressando-se sempre com singular talento, o “Professor Josué” era pioneiro local em multimídia, fazendo uso de diversas “plataformas” para expressar sua arte, entre as quais, o desenho, a mecânica, a escultura, a fotografia, a literatura.

Em todas, no entanto, sempre um aspecto em comum: a preocupação em “edificar” (verbo constantemente conjugado pelo professor junto aos alunos e amigos).

Trata-se de uma arte inspiradora, incentivadora, apontando para o “semear”. Não à toa, um de seus três trabalhos mais conhecidos e significativos encontra-se na Estação Experimental, uma estátua denominada “O Semeador”!

As outras duas obras são ainda mais representativas de Tatuí: uma delas, “O Condutor”, instalada justamente na entrada da antiga Escola Industrial, indica a importância da Educação, baseada na verdade de que o professor – o condutor – leva o jovem, o aluno, a ser um adulto educado e, portanto, cidadão de fato!

O outro, certamente encontra-se na posição de maior “ícone em pedra” de Tatuí, não por acaso a recepcionar público e músicos do mundo todo à frente do Conservatório Dramático e Musical “Dr. Carlos de Campos”.

O Apascentador” é símbolo indissociável da Capital da Música e, também por este motivo, foi de grandiosa alegria e justiça ver essa obra sendo homenageada no desfile das escolas de samba do grupo especial, em São Paulo, neste Carnaval de 2023.

Pelo “O Apascentador”, a cidade esteve representada na madrugada de sábado, 18 de fevereiro, no Sambódromo do Anhembi, pela Escola de Samba Unidos de Vila Maria.

Uma representação do monumento, escolhido na década de 60 como escultura símbolo do Conservatório de Tatuí, foi atração do carro abre-alas da agremiação.

De acordo com a assessoria de comunicação da escola de samba, por meio do carro alegórico, homenageou-se o município e a Faculdade de Tecnologia “Professor Wilson Roberto Ribeiro de Camargo”, que há mais de seis anos é parceira da agremiação.

Estudantes e professores do curso de graduação tecnológica de produção fonográfica já participaram do processo de seleção dos sambas-enredo da agremiação em anos anteriores e, em 2021, produziram o samba de enredo da escola na Gravadora Experimental da Fatec.

A Vila Maria tem gratidão por quem faz parte da nossa história e, como Tatuí tem essa estátua que representa a abertura dos caminhos, colocamos o monumento no abre-alas do nosso desfile”, divulgou a assessoria.

Sabemos que Tatuí também é a Terra dos Doces Caseiros e é a Cidade Ternura, mas também é o lugar de maior representatividade da música no Brasil e, dentro disso, decidimos usar a imagem de ‘O Apascentador’, que, de fato, consegue mostrar a grandeza de Tatuí para o resto do país”, argumentou o presidente da escola de samba, Adilson José de Souza.

Fantástico!

Por outro lado, há um aspecto a se lamentar quanto ao legado do professor Josué a Tatuí: o acidente envolvendo “O Condutor”, praticamente destruído com a queda de uma árvore na tarde do dia 13 de outubro de 2021.

De acordo com a direção da unidade escolar, o episódio ocorreu durante a poda de uma árvore por uma equipe do Corpo de Bombeiros.

Uma das filhas do artista plástico, Sônia Fornazari Pires, lamentou a queda: “Essa estatua tinha uma história: a história de um amor profundo pela educação e desenvolvimento dos jovens”.

Sônia ainda lembrou que o nome da obra, “O Condutor”, remete “à atuação de um professor que caminha ao lado do aluno por um tempo até que o discípulo siga o seu próprio caminho e supere seu mestre”.

Foi construída com as mãos de vários, pelo mestre e seus alunos. Josué dizia: ‘Essas estátuas são nossas, não são minhas’. Eu, como filha, sei o quanto a emoção tocava as obras de meu pai”, acrescentou Sônia.

A escultura “O Condutor” foi exposta pela primeira vez na década de 70, sendo a segunda estátua criada como parte de uma sequência de três obras efetivadas pelo professor com a ajuda de alunos.

A primeira é “O Apascentador”, imagem fixada no Conservatório no final da década de 60, e a terceira, “O Semeador”, na Estação Experimental.

Ao passo (bem largo) em que as mídias se modificam, pouco importando quais sejam em suas efemeridades, os conteúdos relevantes – os artísticos em especial – seguem eternos, seja na Capela Sistina, do Vaticano, seja no pátio da escola Sales Gomes, em Tatuí.

Sobre estes, finalmente, é imperioso haver cuidado e, quando necessário, o devido restauro – pelo bem desta e das gerações futuras, carregadas à frente pela inspiração de seus gênios e direção de seus mestres “condutores”.