Irerê, solta teu canto, canta mais, canta mais!

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Henrique Autran Dourado

Dia desses festejaram nas redes os cem anos de “Luar do Sertão”, cançoneta de Catulo da Paixão Cearense, nascido em São Luís em 1863 e falecido no Rio de Janeiro em 1943. (Se alguém quiser saber por que um maranhense é chamado “Cearense”, eu explico: não era gentílico ou apelido, mas último sobrenome herdado do pai, Amâncio José Paixão Cearense, ele sim do Ceará). Toada em parceria com João Pernambuco, “Luar” é uma ode ao sertão brasileiro, em toda sua singeleza: “Não há, ó gente / ó não, luar / como este do sertão / (…) Esse luar da cidade tão escuro / não tem aquela saudade / do luar lá do sertão”.

A cantiga é de 1914, conforme registros no Itaú Cultural, entre vários outros; portanto, em 2021 teria completado 107 anos. Há controvérsias, e não poderiam faltar: na parceria com João Pernambuco, Catulo teria sido autor da letra, e não da melodia. (Pernambuco criou também a obra-prima “Sons de Carrilhão”, hoje repertório mundial do violão, peça instrumental que evoca os sinos das igrejas). Catulo era poeta e autor de peças de teatro, além de compositor bissexto, e vivia do salário de servidor público. Esta opinião sobre a autoria de “Luar” era dividida por Villa-Lobos, Zuza Homem de Mello e Mozart de Araújo, entre outros. Para apimentar a discussão, Pixinguinha disse ter ouvido a melodia tocada no violão por Pernambuco anos antes. Querelas que permanecem no ar, uma espécie de obra aberta, enigma de Capitu.

“Luar do Sertão” foi o gancho para entrar no assunto da memória musical cada vez mais distante das novas gerações. Cantava essa toada para meus filhos menores para distraí-los durante o trajeto de carro para a escola, assim como para embalar minha mais velha, quando ainda no berço, ao lado de “Travessia”, do Milton, e “Gatinha Manhosa”, do Erasmo. Por meio de canções simples e riquíssimas, como “Luar” e “Terezinha de Jesus”, introduzia os pequenos no mundo da música. Gostava do “Guia Prático”, do Villa-Lobos, uma compilação do que o maestro andara recolhendo em suas viagens pelo interior (publicação que talvez continue esgotada. Felizmente, ainda tenho o meu surrado exemplar, de 1932).

O Canto Orfeônico foi oficializado em 1931 no Distrito Federal com Villa-Lobos à frente, e ampliado para todo o Brasil na Reforma Capanema (1942). Em 7 de maio de 1946, o ministro da Economia e Saúde, Ernesto de Souza Campos, manda publicar no Diário Oficial do dia 14 a portaria nº 300, que “aprova instruções e unidades didáticas do ensino do Canto Orfeônico nas escolas secundárias”.  Com o presidente Dutra em início de mandato, fora lançada a pedra fundamental, graças à luta de Villa-Lobos, para o ensino da música como disciplina escolar no Brasil.

O material didático da disciplina era de autoria do maestro: dois livros de solfejo, dois de Canto Orfeônico propriamente dito e os volumes intitulados “Guia Prático”, tanto para piano quanto para voz, com as compilações das pesquisas de campo: “Bela Pastora”, “Cai Cai, Balão”, “Caranguejo”, “Capelinha de Melão”, “Pai Francisco” e tantas outras! Os alunos aprendiam solfejo, os hinos Nacional e à Bandeira, em respeito aos Símbolos Nacionais e com discreto lucro político pelos governos – sem “apropriação ilícita”, expressão usada pelo Dr. Marcelo Válio em artigo aqui em O Progresso.

Em São Paulo, em frente à minha casa, na vila Mariana, havia uma Emei (onde, aliás meus filhos estudaram). As aulas de canto já não mais existiam. Em seu lugar, um aparelho de CD em torno do qual as crianças, rijas como varapaus, dançavam nas festas juninas, ao som híbrido de um falso sertanejo com Jovem Guarda, pop e sei lá o quê. O caipira fora trocado por modismos, e a meninada sequer abria a boca! Nas datas cívicas, ou semanalmente, ao invés de cantarem perfilavam-se como em honra ao aparelho e apenas ouviam o Hino Nacional. Mataram a música nas escolas!

No dia 26/09/2003 foi criada a Frente Parlamentar pela Inclusão da Música no Ensino Escolar na Assembleia Legislativa de São Paulo. Tive a honra de ser indicado presidente, formalizando apoio ao PL 793/2003, do deputado Rodolfo Costa e Silva.  Muitas reuniões, debates, encontros com músicos e professores de música na plateia do plenário, muito esforço dirigido à causa. Se, por um lado, a Frente por si já demandava uma luta desgastante, de outro havia entraves de ordem corporativista: por interesse pessoal, alguns forçavam a exigência do diploma de licenciatura ou conservatório “oficializado” para professores, o que praticamente inviabilizaria o ensino musical (e a qualidade) nas então 5.500 escolas do estado. Faltariam docentes, além da perda de qualidade e de um contingente enorme de ótimos professores-artistas.

Sonhávamos o sonho de Villa-Lobos. Segundo publicação da Alesp, eu havia dito que “Há diversos estudos que atestam o poder da música como elemento harmonizador e terapêutico, o que comprova sua importância para criar um ambiente de convivência, sem violência entre os estudantes – e as experiências em curso ratificam este pensamento”. Porém, ao invés de se tornar realidade, nossos anseios sucumbiram aos entraves burocráticos, além das pressões corporativistas.

Em tempo: “Irerê, solta teu canto, canta mais, canta mais!” vem do poema de Manuel Bandeira que é letra do 2º movimento da famosa “Bachianas Brasileiras nº 5”, para soprano e orquestra de violoncelos, de Heitor Villa-Lobos, a quem muito devem nosso folclore e cultura e musical por sua sobrevivência, mesmo que por aparelhos.