Mais

    ?

    Aqui, Ali, Acolá

    José Ortiz de Camargo Neto *

    Um ponto de interrogação surgiu em minha mente.

    Exatamente igual ao do título desta crônica.

    Idêntico a todos os pontos de interrogação que povoam tantas cabeças — ao menos nos países de língua portuguesa.

    Porque, convenhamos, no idioma espanhol a pergunta já começa de cabeça para baixo, e a bolinha, que aqui fica no chão, lá flutua no topo.

    Mas, voltando ao assunto, essa não foi a única interrogação a surgir na minha alma. Há muitas outras. Que já formam uma fila assim:

    ????????????????????????????????????????

    É verdade que, no decorrer da vida, muitas foram respondidas. E, sempre que isso acontece, elas perdem a haste em gancho e viram ponto final. Ou ficam eretas num ponto de exclamação!

    Vê-se isso na pergunta “O que é a vida?”, cuja resposta aparece no seguinte ditado português: “A vida é bela, nós é que damos cabo dela!” Como se vê, fecham a frase com uma exclamação — sinal que só aparece quando constatamos as grandes verdades.

    Confesso que, no meu caminho, também há uma imensidão de pontos de exclamação:

    !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Exclamações de espanto! De alegria! De entusiasmo! De surpresa!

    Esse ponto, firme e ereto — e não curvado como a interrogação — é mais direto. Também flutua sobre um pingo, mas perfeitamente equilibrado, sem a corcunda de um Quasímodo.

    Desde que a vida se abriu para mim em dois pontos, esperando que eu contasse a minha história – ou aceitasse viver a história que Deus preparou para mim – vim caminhando, correndo, parando, continuando, tropeçando, caindo, levantando, rindo, chorando, indagando… Me enchendo de interrogações e de exclamações que, às vezes, são gritos como os da tela de Munch. Desespero diante da insanidade estabelecida.

    Nas encruzilhadas, também povoei minha jornada de reticências. Hesitações sobre o melhor caminho a seguir:

    … … … … … … … …

    Mas logo reiniciei a caminhada: dois pontos, travessão, e voltei a me ajustar a minha própria história.

    E assim vou indo, em busca de ter na mente só a calma das certezas, só a bondade das exclamações de amor, só as perguntas de carinho aos seres amados.

    Vou indo.

    Até o ponto final.

    Que, como dizem os místicos, assinala a passagem para uma outra vida, eterna, boa ou má, de acordo com o bem ou mal que fizemos.

    Um ponto inicial…

    Aqui concluo. Ponto.

    Até breve.

    * Jornalista e escritor tatuiano