
A decisão de marcar o bicentenário de Tatuí com ações concretas nas áreas de arte, cultura e literatura – como se configura pelas ações iniciais – justifica-se por um traço que há décadas distingue o município: a opção por se reconhecer – e se projetar – pela força de sua produção simbólica para além dos indicadores econômicos.
Em vez de limitar a data comemorativa a atos protocolares ou obras pontuais, a administração tem previsto iniciativas com base na memória, formação de novos públicos e fortalecimento da economia criativa.
O conjunto formado pelos novos editais do Museu Histórico “Paulo Setúbal”, pelos certames Paulo Setúbal, pelos projetos de modernização do setor educativo do museu e por marcos visuais como os totens de 200 e o dos “100 Dias para os 200 Anos” aponta essa direção na prática.
No campo do fomento direto, o Museu Histórico “Paulo Setúbal” chega a 2026 com sete editais, somando R$ 237,5 mil em premiações e apoios a projetos culturais.
É um volume significativo para uma cidade do porte de Tatuí e ganha relevância adicional por estar associado à programação oficial do bicentenário. Os quatro editais recém-lançados – Festival de Arte e Cultura “Mestre Canturião”, Publicação de Livro “Leila Salum Menezes da Silva”, Festival da Composição “Tatuí 200 anos – Guardo no Coração” e seleção do jingle oficial do bicentenário – se somam aos concursos já tradicionais, como o 24º Concurso Paulo Setúbal – Literatura e Artes Visuais. Em comum, todos convergem para um mesmo objetivo: transformar a data comemorativa em oportunidade para criar, registrar e difundir conteúdos que falem de Tatuí a partir de diversas linguagens.
Os editais mostram uma arquitetura articulada. O Festival de Arte e Cultura “Mestre Canturião”, em sua sexta edição, contemplará 30 projetos com R$ 2 mil cada, integrando ações formativas e apresentações à Semana Paulo Setúbal, que chega à 84ª edição.
O edital de Publicação de Livros, por sua vez, selecionará cinco obras de autores tatuianos, com vaga exclusiva para estudante da rede pública ou privada, seguindo no caminho aberto em 2025, quando um aluno da rede estadual, pessoa com TEA, lançou o primeiro livro por meio desse mecanismo.
A homenagem à professora e escritora Leila Salum Menezes da Silva, que dá nome ao edital, ancora a iniciativa em uma trajetória de dedicação à educação e à língua portuguesa.
Os dois editais ligados diretamente ao bicentenário – Festival da Composição e seleção de jingle – projetam a celebração para o campo da música, naturalmente promovendo Tatuí como Capital da Música e integrando instituições como a Fatec e o Conservatório.
Essa combinação de literatura, música e múltiplas artes, estruturada em editais, mostra uma opção por políticas culturais duradouras, e não por ações pontuais.
No âmbito da educação básica, o 24º Concurso Paulo Setúbal – Literatura e Artes Visuais mantém-se como um dos principais instrumentos de fomento à leitura, à escrita e à expressão artística entre crianças, adolescentes e jovens.
Destinado a estudantes das redes pública e privada, do ensino fundamental aos anos finais, ensino médio, EJA e educação especial, o concurso sustenta seus objetivos de resgatar e valorizar a obra de Paulo Setúbal; difundir sua relevância na literatura brasileira; e estimular práticas de leitura, pesquisa e criação.
A edição de 2026 aprofunda a perspectiva inclusiva, ampliando a participação da educação especial também no certame literário, garantindo que mais estudantes com diferentes perfis tenham oportunidade de produzir textos a partir da obra “O Príncipe de Nassau”, que completa cem anos de publicação.
Do lado das artes visuais, o edital destina-se aos anos iniciais do ensino fundamental e à educação especial, partindo da poesia “Nhô João, o Tropeiro”, do livro “Alma Cabocla”.
A escolha do poema aponta na valorização das raízes regionais e do imaginário caboclo, aproximando as crianças do universo de Paulo Setúbal por meio da linguagem visual.
A disponibilização de uma adaptação audiovisual da poesia, com personagem criado por inteligência artificial e narração produzida em Tatuí, evidencia uma preocupação em combinar tradição e novas tecnologias como ferramentas de mediação cultural, facilitando o acesso inclusive para estudantes com deficiência.
A premiação total de R$ 37,5 mil no Concurso Paulo Setúbal – distribuída entre alunos premiados, professores orientadores e escolas – aposta no entendimento de que a criação em ambiente escolar é resultado de esforço conjunto.
Quando também valoriza o trabalho docente e as instituições, o edital reconhece a escola como espaço central de formação cultural e cidadã.
Essas ações culturais ganham ainda mais sentido quando observadas ao lado de iniciativas como o totem “100 Dias para os 200 Anos”, instalado no paço municipal em parceria com a empresa Strufaldi.
O conjunto de 45 azulejos, distribuídos em séries temáticas que vão da fé à música, do patrimônio natural ao esporte, constitui um novo marco visual e simbólico da cidade.
Como já efetivado inicialmente pelo totem dos 200 dias para os 200 anos, instalado na Praça da Matriz, o novo atrativo sintetiza, visualmente, elementos que construíram e constroem a identidade tatuiana, e deixa claro que o bicentenário está sendo tratado como oportunidade de incentivar vínculos de pertencimento, inclusive por meio da economia criativa envolvida na produção e comercialização dos azulejos.
Do ponto de vista da gestão, há dois aspectos a destacar. Primeiro, o apoio continuado da família Setúbal aos concursos literários e às ações do museu, que garante estabilidade às políticas de memória e literatura.
Segundo, a articulação com políticas culturais de âmbito estadual e federal, como a Política Nacional Aldir Blanc e editais de manutenção e modernização de museus, que aportam recursos e dão lastro às ações locais.
Essa combinação de apoio privado, recursos públicos de diferentes esferas e produção artística local fortalece o sistema municipal de cultura e contribui para que Tatuí se consolide como referência também na forma como organiza seu campo cultural.
Em síntese, ao aproximar-se dos 200 anos, Tatuí demonstra que escolheu celebrar sua história com aquilo que sempre a distinguiu: a arte, a cultura e a literatura.
Os editais, concursos, projetos de modernização, marcos visuais e publicações em 2026 não são apenas homenagens; são investimentos em formação, memória e criação. Dessa maneira, têm potencial para deixar um legado que ultrapassa o calendário do bicentenário e se projetam como base para as próximas décadas.







