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    Wutucatú, Guarey, Payol e Tatú: fazendas no caminho de Guatemy

    A povoação da região, as sesmarias do território e um relatório de 1772

    Requerimento de José de Campos Bicudo ao Rei D. João V, datado de antes de novembro de 1726, solicitando a confirmação da sesmaria de uma légua de terra localizada defronte à barra do Rio Tatuí com o Rio Sorocaba. O documento oficializa a concessão dada anteriormente pelo governador Rodrigo César de Meneses, consolidando a ocupação de uma das paragens que dariam origem ao município (Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo (APESP) / Projeto Resgate - Arquivo Histórico Ultramarino (AHU). Código: BR_SPAPESP_PRESGATE_G023_S001_D000565)

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    Cristiano Mota

    Em 1771, na tentativa de expandir o território paulista, o governador da Capitania de São Paulo, Luís António de Sousa Botelho Mourão (Morgado de Mateus), ordenou a abertura de um novo caminho terrestre que ligasse a região de Sorocaba ao “Guatemy” (atual Mato Grosso do Sul). A determinação consta em despacho datado de 8 de março daquele ano.

    O documento enviado ao capitão-mor de Sorocaba, José de Almeida Leme, tratava da criação de uma nova rota para o Forte de Iguatemi (próximo à fronteira com o Paraguai). Até então, a comunicação com esse marco estratégico – que visava barrar a expansão espanhola e proteger o território colonial – era feita prioritariamente por rios, as chamadas “monções”. As viagens, no entanto, eram perigosas, demoradas e dependiam do nível das águas.

    Pelos rios, aliás, o trajeto mais conhecido era o do Tietê, que partia de Araritaguaba (atual Porto Feliz) em direção a Cuiabá. A rota incluía passagens pelos rios Paraná e Pardo, uma travessia terrestre e navegações nos rios Coxim, Taquari, Paraguai, São Lourenço e Cuiabá.

    Por muito tempo, as expedições fluviais contribuíram para a povoação do Brasil. A rota de penetração dos bandeirantes, no século 16, pelo rio Tietê, por exemplo, foi essencial para a expansão territorial e fundação de várias cidades paulistas. Caso do arraial denominado de Crusçá, localizado à margem esquerda do ribeirão de mesmo nome (Lisboa, 1984).

    Esse povoado tornou-se, mais tarde, o bairro de Pirapora (atualmente, a cidade de Tietê). Crusçá, ou Curussá-Guassú, por sua localização e produção agrícola, consistia no primeiro – e principal – posto de parada no caminho a Cuiabá, depois de Porto Feliz. Esse traçado passava por cachoeiras perigosas e levava quase dois meses para ser cumprido.

    As monções, que também incluíam o rio Sorocaba, afluente do Tietê, tiveram início em 1720, muito embora quase um século antes, em 1628, Dom Luiz de Céspedes Garcia Xeria (militar e administrador espanhol) já tivesse viajado para o governo de Assunção (Almeida, 1939).

    Por terra, o acesso direto só foi possível mais tarde e a partir das concessões de sesmarias. Em sua obra “No tempo d’antes: os 121 anos que Tatuí esqueceu”, Marcel Defensor (2026) localiza as primeiras concessões de terras a “rancheiros ou sitiantes” de 1709 em diante.

    Conforme o historiador, em 10 de novembro daquele ano, José de Campos Bicudo (referenciado em outros documentos como Jozeph e Jozé) e o genro dele, Antonio Rodrigues Velho, receberam três glebas de terra como propriedade: em Tatuí, Botucatu e Guareí.

    No entanto, a concessão da área que mais tarde viria a compor o território de Tatuí, conforme os arquivos do Conselho Ultramarino (principal órgão da administração colonial de Portugal, criado em 1642 por D. João IV para centralizar a gestão política, militar, financeira e judicial das colônias) e do Arquivo Público do Estado de São Paulo, só foi confirmada em 19 de outubro de 1727. O documento está assinado por Bento de Souza Carneiro, que ocupava cargo de Procurador da Coroa e da Fazenda da Capitania de São Paulo.

    Morador da vila de Nossa Senhora da Candelária de Itu, José de Campos apresentou o mesmo argumento que os sitiantes que se arranchavam em terras pertencentes ao reino de Portugal utilizavam para obter títulos de propriedade. Alegou que “não tinha terras bastantes, e sufficientes para suas lavouras e accommodar as suas famílias”. Naquela época, para ter posse, o chamado suplicante precisava apresentar uma razão plausível, além de ter dinheiro o bastante para pagar os custos do processo e escravos para cultivar as terras.

    Em geral, os suplicantes alegavam que as terras eram necessárias para suas sobrevivências. E apontavam, ainda, que as aproveitariam para “lavrar mantimentos”, o que era visto como de utilidade ao bem comum, uma vez que possibilitaria “augmento á Fazenda Real”. Isso porque os alimentos geravam o pagamento de impostos à Coroa e eram utilizados tanto para o abastecimento interno como para a exportação, como a da cana-de-açúcar.

    No caso de Tatuí, a gleba solicitada por José de Campos localizava-se em terras devolutas, sob o “domínio do Estado, com a destinação oportuna à propriedade privada” (Arimatéia, 2025). Em outras palavras, em terras da Coroa Portuguesa que estavam disponíveis a quem tivesse condições mínimas de explorá-las. A condição era a obrigação de cultivá-las. Daí as terras virarem grandes fazendas produtivas, de gado ou cultivares.

    O registro de concessão localiza a sesmaria entre o atual distrito de Americana e a então vila de Itu. A carta é clara ao mencionar uma légua de terras (3.000 braças ou 6,6 quilômetros), começando “defronte da barra, que faz o rio Tatuy no rio de Sorocaba pelo rio abaixo correndo rumo direito como tambem as pontas de terra, que ficarem do rumo resalvando alagadiços de terras inuteis, e de fundo até entrarem em terras dos moradores da villa de Utú”.

    Barra é o nome que se dá ao local onde um rio termina e se une a outro. O rio Tatuí nasce entre Guareí e Tatuí, seguindo em direção ao norte da cidade, fazendo curva ao leste e desaguando no Sorocaba. Já o Sorocaba começa na região de Ibiúna (incluindo Cotia, Vargem Grande Paulista e São Roque), passa por Votorantim, Iperó, Boituva, Tatuí, Cerquilho e Jurumirim, e termina em Laranjal Paulista, onde se encontra com o rio Tietê.

    O sentido “rio abaixo”, descrito na carta, indica que as terras começavam no encontro dos rios, seguindo o fluxo do rio Sorocaba em direção ao Tietê; e o “rumo direito”, que a medição seguia uma linha reta ao longo da margem do corpo d’água. Como rumo não significa lado, as terras, se fossem à direita, corresponderiam às que atualmente pertencem a Boituva; se fossem à esquerda, a Tatuí. Contudo, o fato de o documento mencionar que a sesmaria fazia divisa com moradores de Itu reforça que a área ficava na zona de fronteira entre essas vilas, onde atualmente está a região de Boituva e o distrito de Americana.

    Outra concessão, no entanto, indica que a ocupação da região, ainda que a passos lentos, estava em curso há tempos. Em 1725, o mesmo José de Campos explorava comercialmente outro extremo. No pedido que enviou ao governador e capitão general da Capitania de São Paulo, Rodrigo Cesar de Menezes, o bandeirante alegou que “tinha já mettido algum gado e feito lavouras junto ao rio Guajari” e desejava continuar com as atividades. Esse curso d’água é referenciado em trabalhos de vários historiadores como o Guareí.

    As terras ficavam distantes da vila de Sorocaba “quatro ou seis dias de jornada para o sertão”. Somavam, de extensão, “tres leguas de comprido e uma legua de largo” (19.600 hectares), começando “algumas braças abáixo da passagem do dito rio Guajari onde agora tem o seu gado, correndo rumo direito para o logar chamado Cajuramiri”. Não há, nos registros acessíveis, menção a esse lugar que possibilite a localização precisa dessa paragem.

    No entanto, o que de fato se desvela – pelos documentos disponíveis – é que dessas concessões – e de outras mais – derivam as antigas fazendas da região, e, com elas, as primeiras ocupações.

    Wutucatú, Guarey, Payol e Tatú, por exemplo, aparecem na relação de “todas as fazendas” que se formaram nos lados da Estrada Geral de Sorocaba, passando por Itapetininga, vila da Faxina (Itapeva), Butucatu e “entradas do Sertão de Paranapanema”.

    A Fazenda de Tatú é a terceira propriedade, de cinco relacionadas, localizadas na região entre Botucatu e Guareí. Essa área formava uma encruzilhada que dava rumo ao novo caminho que estava sendo aberto para o Mato Grosso do Sul. No documento, datado de 11 de maio de 1772, portanto, 47 anos depois da concessão, menciona-se que a propriedade anteriormente de “Jozé de Campos” pertencia aos “Religiozos do Carmo” (os frades de Itu).

    Um segundo Bicudo (o padre jesuíta Estanislau de Campos) possuía a Fazenda de Guarey, e um terceiro (Antônio “ou seu genro Jozé Gonçalvez”), a Fazenda do Payol. Havia ainda, no relatório, mais duas fazendas: a primeira em nome de Manoel Paes (Barra de Paranapanema) e a segunda, pertencente a Salvador de Oliveira (denominada de Itapetininga).