
Aqui, Ali, Acolá
José Ortiz de Camargo Neto *
Caros amigos:
Não sei por que, numa manhã destas de abril, peguei-me cantarolando Zeca Afonso. A melodia insistente trazia o verso: “Quando um homem dorme na valeta, o que faz falta, o que faz falta é avisar a malta, o que faz falta…” Uma canção linda, que tive o privilégio de ouvir ao vivo, em Lisboa, na voz do próprio compositor.
Talvez seja a proximidade do 25 de abril, a data histórica da Revolução dos Cravos, que me trouxe essa memória. Foi a música de Zeca, a célebre “Grândola, Vila Morena”, que serviu de senha aos “Capitães de Abril” para derrubarem a ditadura de Salazar. Zeca Afonso era um idealista: impedido pelo regime de exercer o magistério, declarou com a rebeldia dos poetas: “Como fui proibido de ser professor, fiquei músico”. Cantava muitas vezes sem cobrar um cêntimo e partiu deste mundo pobre de posses, mas rico de dignidade.
Dessa primeira lembrança, meu pensamento e meu coração saltaram para outra composição visceral: “Os Vampiros”.
Acho esta canção impressionante e atemporal. É um aviso pungente aos povos para que não se iludam com o “ar sisudo” daqueles que chegam prometendo progresso e investimentos gigantescos, mas que, na verdade, vêm apenas para sugar as entranhas de uma nação. Destroem rios, devastam o ambiente e consomem vidas sem qualquer remorso. Mariana e Brumadinho são as cicatrizes abertas que provam que os vampiros de Zeca continuam à solta.
Então deixo aqui para os nossos leitores o aviso pungente deste maravilhoso compositor e cantor português. Quem quiser pode ouvi-la na internet.
No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas pela noite calada
Vêm em bandos com pés de veludo
Chupar o sangue fresco da manada
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada
Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada
À toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada
No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos na noite abafada
Jazem nos fossos vítimas dum credo
E não se esgota o sangue da manada
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada
São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada
Até breve.
* Jornalista e escritor tatuiano.




