
Aqui, Ali, Acolá
José Ortiz de Camargo Neto *
As ruas de Tatuí não conheciam paralelepípedos, as lajotas do Junqueira e, muito menos, o asfalto. Eram de pura terra vermelha. Por elas nós, a criançada, andávamos de pés no chão e calças curtas. Só um pouco mais tarde comecei a usar os sapatos Vulcabrás — aqueles que pareciam nunca acabar.
O pátio quadrado ao lado do prédio da cadeia municipal era o nosso “estádio”: o campinho de futebol. Ali, a “turma da cadeia” jogava bola todos os dias, do amanhecer ao anoitecer, sem conhecer o cansaço. Só interrompíamos a partida, sempre de má vontade, quando as mães chamavam para o jantar ou quando os pais do “dono da bola” o recolhiam para casa.
Naquele quadrilátero de terra, desfilaram Paulinho Pires, Rochinha, Netinho Salum, Corintinha, Roberto Bassoi, Zé Reiner, Kiko Barth e tantos outros, como o Maquinão — cujo nome real nunca cheguei a saber.
O campinho também era o porto de nossas pipas, o palco para o jogo de “pais” ou para o estalo das bombinhas Caramuru. Havia uma diversão quase ritualística: acender a bombinha, cobri-la com uma lata vazia e aguardar o estouro. Quando a latinha voava pelos ares, o campinho era invadido pelos nossos aplausos e risos.
O cenário mudou. A velha cadeia tornou-se museu; o campinho de terra deu lugar a uma linda praça arborizada, com bancos de madeira. Onde hoje casais de namorados trocam beijos e segredos. As crianças que corriam alegremente desapareceram de cena.
Mas eu ainda as vejo. Na minha imaginação, sempre que visito a praça, elas continuam vivas, gritando e disputando jogos animados. As pipas deixaram de cruzar o azul, mas ainda as enxergo com os olhos do coração, colorindo o horizonte.
Como é possível que tudo tenha desaparecido e, apesar disso, tudo permaneça tão presente? Noto, enfim, que o tempo não passa para o que foi vivido com felicidade e amor. O que passou, na verdade, não se foi: guardou-se para a eternidade.
As eternas ruas vermelhas.
Até breve.
* Jornalista e escritor tatuiano.




