Mais
    Início Colunas Editorial “Deslizando” o dedo da tela para as boas ideias

    “Deslizando” o dedo da tela para as boas ideias

    No dia 23 de abril, o mundo celebra o “livro”. Não apenas como objeto de papel e tinta, mas como porta de entrada para outros tempos, outros lugares e, muitas vezes, para cada um de si.

    Em um momento em que o gesto mais comum à noite é deslizar o dedo pela tela do celular, passando por vídeos rápidos e postagens efêmeras, a leitura de um livro tem sido, para muitos, adiada – ou simplesmente abandonada.

    A cena descrita por uma manifestação do Sesi-SP à imprensa, nesta semana, é familiar: o feed rola sem parar e alguém adormece sem ter lido uma única página.

    Os dados confirmam essa mudança de comportamento. A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2024, indica que metade dos brasileiros não leu sequer parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento.

    Ao mesmo tempo, entre aqueles que leem, a média é de cerca de quatro livros por ano, e a leitura por prazer segue entre os principais motivos. Ou seja: a prática não desapareceu, mas disputa espaço com outras formas de consumo de conteúdo – sobretudo digitais.

    Para especialistas em educação ouvidos pelo Sesi-SP, o problema central não é simples “falta de interesse”, e sim a ausência de conexão.

    Crianças e jovens estão cercados de textos, imagens e informações o tempo todo, mas muitas vezes não encontram, no livro, algo que se identifique com seu repertório, sua realidade, seus afetos.

    O desafio, então, não é só mandar ler: é criar experiências significativas de leitura, em casa e na escola, que façam sentido em cada fase da vida. Ler é muito mais do que cumprir tarefa escolar.

    Como lembra a bibliotecária e analista de educação Ludmylla Pereira, quem lê tem mais condições de identificar o que busca “nesse mar de informações em que vivemos”.

    A leitura ajuda a filtrar, comparar, organizar ideias, desconfiar de notícias falsas, compreender contextos, se posicionar. Nesse sentido, livro e internet não são inimigos: a leitura é justamente o que permite navegar pelo ambiente digital com mais autonomia e senso crítico.

    A relação com o livro, porém, costuma ser marcada por uma diferença decisiva: ler “para a prova” não é o mesmo que ler “por prazer”. A docente Tamires Monteiro lembra que atitudes centradas apenas na obrigatoriedade podem afastar o estudante da literatura.

    Quando a leitura aparece apenas como cobrança, lista de exercícios ou resumo para nota, perde-se a dimensão de descoberta, de emoção, de identificação. Fortalecer o hábito passa por reconhecer a leitura como prática cultural e pessoal, não apenas como exigência escolar.

    Formar leitores começa cedo, mas não termina nunca. Na primeira infância, antes mesmo da compreensão das palavras, o contato com livros é vínculo, colo, curiosidade: o bebê que manuseia, morde, vira páginas está construindo uma relação afetiva com o objeto.

    Entre três e sete anos, a imaginação floresce e as narrativas ganham força. Mas não existe “prazo de validade”: o que faz diferença é a constância, a qualidade das experiências e a possibilidade de o leitor se ver nas histórias – seja em um quadrinho, um romance, um suspense, uma biografia ou um poema.

    Pequenos passos constroem leitores. Reservar alguns minutos por dia, reduzir um pouco o tempo nas redes, escolher temas que realmente despertem interesse – “nem que sejam duas ou três páginas por dia”, como sugere Tamires – já pode iniciar uma mudança.

    A consistência, com o tempo, amplia o volume lido e abre portas para novos gêneros. A chave é a identificação: como acentua Ludmylla, o importante é começar pelo que conversa com o leitor, não pelo que “deveria” ser lido segundo um modelo rígido.

    Na vida acadêmica e profissional, a leitura aprofunda esse papel. Estudantes entrevistadas pelo Sesi-SP relatam que ler de forma mais densa as ajuda a compreender contextos, desenvolver pensamento crítico, encontrar “caminhos”, não apenas conteúdos.

    A leitura deixa de ser só meio para tirar nota e passa a ser ferramenta de formação pessoal, de autonomia intelectual e de participação mais qualificada na sociedade.

    Criar leitores, portanto, não depende apenas de incentivo verbal (“vá ler!”), mas de contexto, acesso e identificação. Depende de bibliotecas vivas, professores engajados, famílias que leem junto, políticas públicas que aproximem o livro das pessoas. Depende, também, de cidades que assumam a leitura como parte de sua identidade.

    É o caso de Tatuí. Aqui, o livro e a literatura não são apenas adereços de calendário: fazem parte da história e da memória da cidade. Desde que O Progresso de Tatuí encabeçou, em 1943, as homenagens ao escritor tatuiano Paulo Setúbal, a palavra escrita ganhou um lugar de honra em nosso calendário cultural.

    A Semana Paulo Setúbal consolidou-se como o mais tradicional evento cultural do município, e dela nasceram desdobramentos que atravessam décadas.

    Entre esses desdobramentos, está o já tradicional Concurso Paulo Setúbal – Literatura e Artes Visuais, destinado a estudantes das redes pública e privada de ensino, assumido e promovido pela prefeitura, atualmente com apoio da família Setúbal.

    Ano após ano, o concurso convida crianças, adolescentes, jovens e adultos da EJA a lerem, pesquisarem, escreverem e produzirem, a partir da obra e da figura de Paulo Setúbal, suas próprias criações.

    O resultado é um movimento que vai muito além da premiação: alunos descobrem autores, professores reinventam práticas de leitura, escolas inteiras se mobilizam em torno de textos, desenhos, poemas, contos e crônicas.

    A existência, ainda, do Prêmio Literário Paulo Setúbal – de abrangência nacional, nas categorias conto, crônica e poesia – amplia esse alcance, colocando Tatuí no mapa da literatura brasileira contemporânea e mostrando que uma cidade do interior pode, sim, ser referência em produção e circulação de livros.

    Neste Dia Mundial do Livro, portanto, vale uma dupla observação, cuja primeira é que, a cada família, escola, jovem e criança, seria excelente transformar alguns minutos de tela em algumas páginas de leitura, começando por aquilo que mais desperta a curiosidade, sem culpa, sem formalismo excessivo, mas com a disposição de fazer do livro um companheiro, não um estranho.

    Segundo, que própria cidade: que Tatuí siga honrando sua vocação literária, fortalecendo iniciativas como a Semana Paulo Setúbal, o Concurso Paulo Setúbal e o Prêmio Literário Paulo Setúbal, para que mais leitores e autores surjam de nossas salas de aula, bibliotecas e praças.

    Porque, em um mundo de mensagens rápidas e conteúdos descartáveis, abrir um livro continua sendo um dos gestos mais silenciosamente revolucionários que podem ser feitos – sobretudo quando esse gesto nasce cedo, é nutrido ao longo da vida e encontra, em iniciativas como as de Tatuí, um terreno fértil para crescer em letras e (boas) ideias.