Mais
    Início Colunas Editorial Arte que sustenta a fé

    Arte que sustenta a fé

    A história recente da Basílica e Santuário Nossa Senhora da Conceição de Tatuí não pode ser contada sem o nome de dois artistas que, discretamente, passaram mais de uma década pendurados em andaimes, sob calor intenso, para devolver ao templo a dignidade estética que hoje encanta fiéis, visitantes e turistas: João Campos Filho e Ivone Mírian Kabazi.

    A história deles junto ao templo foi narrada em reportagem pelo jornal O Progresso de Tatuí na edição do final de semana passado, 1º de março.

    Entre 1994 e 2005, o casal assumiu a tarefa monumental de restaurar praticamente todo o acervo artístico da Igreja Matriz, em um trabalho que combinou técnica, coragem, paciência e um profundo respeito pela memória visual do patrimônio religioso.

    Em um momento, inclusive, em que Tatuí consolida seu status de estância turística, reconhecer publicamente essa contribuição é não só um ato de gratidão individual: é um gesto de maturidade cultural.

    A basílica, além de espaço de oração e devoção, é um dos principais cartões de visita do município. Quem entra no templo, olha para o teto e se deslumbra com as cenas bíblicas que se distribuem pelos seis grandes arcos centrais – cada um com cerca de 16 metros de comprimento por 5 de largura – certamente, desconhece o esforço necessário para que aquelas imagens permanecessem vivas.

    Campos Filho, autodidata que saiu de uma infância humilde, aprendeu a desenhar em ateliês, letreiros comerciais e decorações em Santos e São Paulo, até se especializar em arte sacra nos anos 1980.

    Ao lado de Ivone, restaurou igrejas em diversas cidades da região (entre elas, Torre de Pedra, Porangaba, Sarapuí, Avaré, Capela do Alto), mas foi em Tatuí que encontrou sua maior obra: 11 anos ininterruptos, com jornadas diárias médias de oito horas, incluindo sábados, para refazer o teto, os corredores, o corpo da igreja, a sacristia e a Capela do Santíssimo.

    O processo da restauração é, por si só, uma aula de dedicação. Após a substituição do forro original de madeira, danificado por cupins e infiltrações, por placas de PVC, foi preciso começar quase do zero.

    As antigas telas de 1935, projetadas pelo piracicabano Mário Tomazzi, foram removidas e levadas a Sorocaba, passando a servir de referência. As novas pinturas, impedidas de serem coladas, tiveram de ser executadas diretamente sobre o PVC. Isso exigiu um método paciente: lavagem, lixamento, aplicação de fundos preparadores, marcação dos riscos, estudos minuciosos de cores e, por fim, pintura sobre pintura – quatro “mãos” em cada desenho até alcançar a densidade adequada.

    Do ponto de vista artístico, o desafio incluía fidelidade ao estilo original, correção de medidas dos arcos, referência constante às fotografias e às telas antigas, e a busca por tintas importadas que reproduzissem a textura e a tonalidade de décadas atrás.

    Do ponto de vista humano, havia o medo da altura, o calor de até 40 graus junto ao teto, o uso de andaimes sem os equipamentos de segurança hoje obrigatórios e a dificuldade de encontrar ajudantes dispostos a enfrentar essa rotina.

    Não por acaso, Ivone, que inicialmente não estaria na linha de frente, acabou se tornando parceira direta do marido nos andaimes, cuidando das medidas, das estamparias, dos detalhes miúdos quase invisíveis para quem olha do chão.

    Cada arco, cada quadro, cada detalhe do teto guarda, além das cenas do Antigo e do Novo Testamento e das referências aos Dez Mandamentos, marcas sutis da jornada do casal: datas escondidas nas composições, números simbólicos em homenagem aos filhos, ao monsenhor Teotônio dos Reis e Cunha ou ao próprio casamento.

    A data “03-01-98”, por exemplo, inscrita discretamente no terceiro quadro à direita de quem entra, não é apenas um registro cronológico: celebra o aniversário do celibato do monsenhor que convidou Campos Filho a assumir a obra.

    Atrás da capela, a inscrição dos nomes do religioso e dos artistas eterniza a autoria da restauração, reconhecendo que, sem eles, a basílica hoje seria outra.

    Para Tatuí, que se projeta como estância turística e se prepara para seu bicentenário, a Basílica Nossa Senhora da Conceição, mais que um templo religioso, é um espaço de arte, memória e identidade.

    Turistas que chegam à cidade para conhecer seus atrativos culturais e musicais encontram, na Matriz, um exemplo raro de como fé e arte podem caminhar juntas.

    O olhar que se eleva ao teto encontra cenas bíblicas cuidadosamente recompostas; o visitante que percorre o interior da igreja percebe a harmonia entre arquitetura, pintura e devoção popular. Nada disso seria possível sem o trabalho silencioso de João e Ivone.

    Em um momento em que se discute, com razão, o papel do turismo como vetor de desenvolvimento econômico, é fundamental sublinhar que não há turismo consistente sem patrimônio preservado nem sem reconhecimento a quem o preserva.

    Homenagear o casal de restauradores – com registros oficiais, menções públicas, memória institucional e – por que não – iniciativas de valorização ainda mais visíveis – é também uma forma de afirmar que Tatuí sabe cuidar de seus artistas, de seus ofícios e de sua história.

    E que entende que a condição de estância turística não se resume a títulos e recursos, mas se sustenta em escolhas como essa: proteger o que é essencial e celebrar quem torna isso possível.

    Olhando para o passado recente da Matriz, a cidade vê refletido um compromisso a ser renovado: o de tratar seus espaços religiosos também como espaços culturais, abertos à visitação, à contemplação e ao estudo.

    A Basílica de Nossa Senhora da Conceição é, hoje, um ponto obrigatório em qualquer roteiro turístico sério sobre Tatuí. E, nesse roteiro, os nomes de João Campos Filho e Ivone Mírian Kabazi merecem estar em destaque, como artistas que, com pincéis, tintas e coragem, ajudaram a construir – e a preservar – a imagem da “Cidade Ternura” que Tatuí apresenta ao Brasil e ao mundo.