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    Paulo Setúbal e o Juízo Final

    Aqui, Ali, Acolá:

    José Ortiz de Camargo Neto *

    Caros amigos,

    Pouca gente escreveu com tamanha propriedade sobre o Dia do Juízo Final quanto o nosso queridíssimo escritor tatuiano, Paulo Setúbal. Em sua obra autobiográfica “Confiteor”, ele discorre sobre a urgência de uma vida pautada por ações concretas, criticando severamente a fé feita apenas de palavras e rituais vazios.

    Sobre essa hipocrisia, Setúbal expressa-se com vigor:

    “Foi por não valerem coisa alguma que o Cristo proferiu aquela rude palavra imorredoura: ‘Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus’. Não entrará. Jamais poderá entrar. Pois é um embuste risível, uma miséria, dizer-se cristão e, ao mesmo tempo, fugir esquivamente do parente desafortunado que lhe bate à porta.”

    O escritor continua sua denúncia contra a incoerência moral de quem separa a devoção da conduta ética:

    – A falsa piedade: É miséria ir à igreja pela manhã, compungidamente, mas jantar à noite com mulheres pagas em restaurantes alegres.

    – A exploração: É embuste ouvir a missa aos domingos, mas explorar, durante os seis dias da semana, o operário que trabalha na fábrica.

    – A soberba: É miséria bater no peito diante de Deus, mas ostentar diante dos homens a vaidade da inteligência ou o luxo de sua vida.

    “Todos esses “pobres loucos” talvez não creiam que nada há encoberto que não venha à luz. Esquecem-se de que um dia comparecerão diante do Senhor para dar conta de seus atos. E Ele dirá abertamente: “Não vos conheço. Apartai-vos de mim, vós que praticastes a iniquidade”.

    Continua Setúbal:

    “Meu amigo, você que lê esta página: recolha-se por um momento. Ponha a mão na consciência. Se você partisse hoje, sem ter meditado seriamente sobre essas questões, não teria medo de ouvir aquela sentença fulminante?

    Pense. Reflita. Quanto a mim, meu irmão, se eu partisse hoje, não sei o que me aconteceria. O coração humano é lento em subir um degrau que seja acima de sua própria miséria. Mas de uma coisa tenho certeza: se eu tivesse morrido anos atrás, o Cristo — que é a Justiça — teria, para ser justo, de me dizer secamente: “Não te conheço; aparta-te de mim, tu que obraste a iniquidade.”

    São palavras fortíssimas de nosso artista maior. Sigo a meditar nelas, e a pensar também na outra Promessa de Cristo, aos que buscam fazer o bem: “Vinde a mim, amados de meu Pai”, buscando que a minha fé, até hoje tão fraca e inconstante, não seja apenas um rito, mas uma prática do bem.

    Até breve.

    * Jornalista e escritor tatuiano