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    Velho vocabulário para novos tempos

    Henrique Autran Dourado

    Cada vez mais somos reféns do novo dialeto imposto pela internet aos acontecimentos políticos, seja direta ou indiretamente ligado a eles. Quantas vezes não se falou em cortina de fumaça nesses dias! Que fumacê! A exoneração do ministro Salles foi uma cortina de fumaça, dizem, e fumos de lenha grossa, completam os mais ferinos. Mas se por baixo do fumego o imunizante Covaxin jogou lenha em uma fogueira de enormes proporções, claro que não será assoprando que se irá apagá-la. Outros dizem que é fumaceira criada para encobrir fatos, Deus sabe quais, mas fumaça criada, trabalho dobrado. (Até lembrou Leônidas I, rei de Esparta, cinco séculos a.C.: “tanto melhor, combateremos à sombra”).

    E haja modernicismos! (“mea culpa”: criei a palavra, neologizei para não matar de raiva o velho e bom modernismo). Tenho visto “cringe”, “millenials”, “geração Z”, coisas que alguma hora, talvez por acidente, vou descobrir o que são. Ou por fonte bem popular, talvez a única da “rapeize” – hoje em dia, galera -, o Google, pelo qual nutro certa aversão, sendo pessoa razoavelmente escolarizada. Conto isso em “off”, só para velhos amigos; mesmo assim, pessoalmente e sem ninguém por perto! (Diria hoje Tancredo Neves, mestre político e sábio mineiro, “smartphone é para marcar encontro no lugar errado”).

    Gosto do discreto charme da velha guarda política, que tinha queda pela música: “Lacerda botou a boca no trombone”, a “Banda de Música da UDN” abafou a discussão, as lideranças estão desafinadas, um autogolpe foi ensaiado sob a batuta do presidente, e Fafá foi a “musa” das Diretas Já – lembrando que na mitologia grega musas eram divindades ligadas à criação, como Euterpe, da música, e Calíope, da bela voz. E enquanto o deputado fulano segue batendo na mesma tecla, tocando o mesmo bordão, o assessor beltrano foi pego com a boca na botija, que coisa feia: bebendo a manguaça escondido dos outros, diretamente na boca do fole.  Como de praxe, a campanha do impeachment é “orquestrada” pela oposição, o Congresso está “em compasso de espera”, as votações em plenário estão cheias de pianistas. Em tempos mais poéticos, Juscelino era o “pé de valsa”, Jango o “seresteiro”, e o comício na Central do Brasil seu “canto do cisne”.

    Falando em cisne, quantos animais! A condenação fez do assessor um boi de piranha, animal doente ou mais velho que é jogado na água para o banquete selvagem daqueles vorazes peixes carnívoros, enquanto a boiada passa lá atrás no rio. Aliás, uma das frases recentes mais ouvidas e vistas na TV foi proferida pelo ex-ministro Ricardo Salles, em reunião no Alvorada: enquanto o Brasil naufragava de proa na pandemia, ele disse que o negócio era ir “passando a boiada”, o vírus como uma espessa e continental tenda de fumaça escura para encobrir atos nada canônicos, como diria meu pai. Coisa para fazer corar estátua de profeta do Aleijadinho.

    Tem sempre alguém para “colocar o bode na sala”, provocar um assunto a fim de desviar a atenção do principal. Ou fazer de fulano um bode expiatório – segundo o Levítico bíblico, um de dois bodes era sacrificado no templo e o outro ficava, tendo sobre a cabeça a mão do sacerdote, para expiar, ou seja, remir os pecados de Israel. Na maçonaria, o bode é um animal especialíssimo, bom de ouvir e guardar segredos. A tradição remonta ao século 3 a.C., mistério revelado pelo apóstolo Paulo. Entre os adeptos de organização maçônica, não é incomum usar o nome do bicho para identificar-se em sigilo para um “irmão” de outra loja, ou ainda para cutucar alguém para saber se é integrante da ordem: se não responder e ficar com cara de paisagem, certamente não é. Animal rebelde e de difícil controle, dele originou-se também “vai dar bode”, bagunça, caca. Já “amarrar o bode”, se conseguir… Pernas pra que te quero, o animal fica bravo! (Jards Macalé, lá por 1970, cantou: “se amarrar algum bode eu mato / se amarrar algum bode eu morro / (…) mas eu volto pra curtir”). E quem sabe o que foi um “pau de arara” não quer mais ouvir falar dele. Tristes trópicos.

    Político dissidente expurgado de um partido vai amarrar o cavalo em outra freguesia, e se andar por linhas tortas pode dele cair. Por essas e outras, deve estar sempre com o cavalo encilhado. Os alienados, que não gostam de política, podem tirar o cavalinho da chuva: o grande castigo deles é que serão governados pelos que gostam dela (frase creditada a vários autores, e cuja origem pode estar no velho Platão). E um favor entre certos figurões costuma ter pilantragem oculta, pois a cavalo dado não se olha os dentes. E se a coisa vai mal, o sujeito pode ter de passar de cavalo a burro, coitado do animal que tem opinião própria, só anda por caminho aprendido ou para onde quer. Portanto, melhor seguir o troar do pai de santo: levanta teu cavalo!

    Quanto aos modernicismos, havia dito no começo que iria pesquisar, mas o repórter Gilberto Amendola, do Estadão, o fez por mim na edição de 25 de junho: “A nova controvérsia (N.: “cringe”) nada mais é do que uma geração chamando a outra de antiquada” (em inglês, é “adular servilmente”, curvar-se). “Os millenials, ou geração Y, nasceram entre 1981 e 1995”. Por fim, fala da geração Z, que “domina a Internet e aponta alguns gostos ‘datados’ nos antecessores, como a série ‘Friends’, ‘Harry Potter’ e desenhos da Disney”. De onde se conclui serem Y e Z alienados, nada a ver com política: são apenas ultramoderninhos que serão governados por quem gosta dela.