Sua majestade, o cururu

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Henrique Autran Dourado

Até mudar-me para Tatuí, interior de São Paulo, em 2008, só sabia do cururu pelas aulas de folclore, no Rio. Não o conhecia “in loco”, ao vivo, até ir morar na região. Lembrava-me do cururu que Mário de Andrade chamava de “transposição erudita” da música de raiz brasileira: o compositor Osvaldo Lacerda (1927-2011), último bastião nacionalista da chamada música de concerto e durante muitos anos professor na Escola Municipal de Música de São Paulo, onde fui diretor, era mestre em mazurcas, cocos, xotes, modas, maxixes, lundus, polcas, forró e…cururu. Tanto que criou sua versão em uma das nove “Brasilianas” para piano, a de número 2.

Em Tatuí, costumava receber bilhetes carinhosos do Lacerda, até perto de seu falecimento; em um deles, mencionava o cururu das “Brasilianas”. Escrevia com o esmero de sempre, e resolveu me parabenizar, e ao Conservatório de Tatuí, pela iniciativa de ajudar a manter vivo o cururu na região, como parte do Festival de MPB – Raiz e Tradição, “uma das três ações realizadas, (…) que também inclui o Certame da Canção e o Painel Instrumental”, divulgou a reputada escola de música, artes cênicas e luteria do estado.

O I Torneio Estadual de Cururu aconteceu em 2009, após eu ter travado contato direto com o gênero no ano anterior. Homenagem ao cururueiro Horácio Neto, teve lugar na Concha Acústica Spartaco Rossi, e durante a apuração dos resultados houve apresentações de Antonio Nóbrega e do campo-grandense Almir Sater, que além de ótimo cantor – emocionou o público com sua versão de “Chalana”, de Mário Zan –revelou-se um bom papo e dono de uma boa cultura geral, tendo cursado direito no Rio de Janeiro. Foi esse primeiro evento que chamou a atenção do compositor Osvaldo Lacerda e motivou o afável bilhete que me endereçou. E foi um dia histórico: subi ao palco com os diretores de importantes instituições para assinar, com o governador Alckmin, um acordo para o curso superior de produção fonográfica (Fatec) e o de técnico em música (Etec).

Em 2010, 4.000 pessoas na plateia, vieram duplas de cururueiros de diversas regiões de São Paulo para, também na Concha Acústica, participarem do II Torneio de Cururu, homenagem a Noel Mathias, sob a coordenação do cenógrafo e escultor Jaime Pinheiro. Além do certame, em si, tivemos uma linda exibição de catira, ameaçada de esquecimento como o cururu, e o sorridente Tinoco, que teve dupla caipira com o falecido Tonico. Dois anos depois daquela apresentação, Tinoco também faleceria, talvez entrando no Céu com todo aquele garbo com que cantou no final do Torneio – um smoking de reluzente lamê vermelho.

Em 2011, em homenagem à memória de Pedro Chiquito, levamos o III Torneio para o Teatro “Procópio Ferreira”, a fim de trazer o povo para dentro: chegamos a “convocar” alguns mais tímidos que se escondiam lá fora, para que entrassem no auditório, já que a casa também é deles, para se tornarem frequentadores. Foi um sucesso, mas o público não ficou à vontade. Assim, o IV Torneio, em 2012, tributo a Aírton Pires, aconteceu no pátio do estacionamento do Conservatório. O público, bem mais à vontade, pôde se deliciar com iguarias caipiras e até degustar provinha de uma das diversas variedades de cachaça da tradição local. Todos em casa!

Sempre com a coordenação do Jaime Pinheiro e grande sucesso, em 2013 repetimos a apresentação na chamada “quadrinha” do estacionamento, com público, violeiros e canturiões (cantadores de cururu) bem à vontade. O V Torneio, “in memoriam” de João Davi, contou com apresentações como a catira dos Tropeirinhos do Rancho no intervalo. O VI Torneio, dedicado a Luizinho Rosa, aconteceu em 2014, também no estacionamento do Conservatório.

Conheci o cururu das rodas, fiz amizades com vários cururueiros, em especial o cantador José Pinto, exímio poeta, e o violeiro Josué, seu companheiro de sempre. O cururu parecia efervescer novamente, cheguei a ir a eventos em cidades próximas, como Pardinho, em seu lindo e ecológico Centro Cultural “Max Feffer”.

Diz a tradição que cururu é corruptela de cruz (“cururuz”, entre os indígenas), e teria se desgarrado da catequese para tornar-se arte profana, uma espécie de desafio que obedece a certas regras. O cantador incumbido de puxar a querela faz o seu “baixão”, ou seja, uma linha melódica sem letra, como um vocalise, base para o seu improviso. Os versos são organizados em rimas, chamadas carreiras, que podem ser “do divino”, “do sagrado” e“do sinhô”, entre tantas, além de algumas bem difíceis para se improvisar. São comuns desafios de cantores comum violeiro e de canturiões independentes, cada qual com seu acompanhamento. Piadas e ironias são permitidas, mas a ética dos cururueiros não aceita falar da mãe alheia, ofensas e racismo.

Temas comuns são Bíblia, política e história, o que obriga o cururueiro a um conhecimento geral bastante abrangente, pois é na contenda entre as duplas que eles serão testados. A tradição exige dos canturiões, além de versatilidade no improviso e esse conhecimento, para poder replicar, atenção ao que canta o outro debatedor, o que os obriga a ler e estudar.

Deixo homenagem ao poeta e canturião José Pinto e o violeiro Josué – arrimo para qualquer bom cantador – em nome de todos os cururueiros,com uns versos emprestados do primeiro, “Um pouco de Jó”: “Jó era muito querido / onde era morador / tinha pena tinha dó / do pobre trabalhador / (…) um homem que sofreu tanto / não reclamava da dor”. E lá ia história. Paciência de Jó, salve o cururu!

1 COMENTÁRIO

  1. Maravilhosa matéria!
    Parabéns Prof. Henrique por ter promovido este evento histórico da Cultura Popular Brasileira.
    Agradeço por ter participado deste momento tão feliz para Cururu de nosso povo!

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