Para compreender o fenômeno Anitta

Henrique Autran Dourado

Nascida Larissa de Macedo Machado há 29 anos, a cantora, dançarina, compositora e empresária adotou o nome artístico Anitta, mais simples e de fácil memorização, inspirado na minissérie da TV “A Presença de Anita” e de quebra no ícone Lolita, adolescente desejada por um professor no livro de Vladimir Nabokov (1955). Em 2012, obteve seu primeiro sucesso comercial com “Meiga e Abusada”; tornou-se conhecida nacionalmente em 2013, aos 20, com o hit “Show das Poderosas”, assinou com a Warner do Brasil e a partir daí só colecionou sucessos. Uma vocação que surgiu cedo nos cânticos religiosos em uma igreja católica de Honório Gurgel, zona norte do Rio. Abriu as portas do público latino nos EUA, incluindo parcerias com os Black Eyed Peas e Madonna, e chegou ao mercado dos países de língua espanhola e da comunidade latino-americana.

Anitta não é a moça pobre de uma comunidade que chegou ao topo do sucesso por sorte ou apadrinhamento. Passou por um estudo técnico de administração, aulas de dança e cursos intensivos de inglês e espanhol, preparando-se para o futuro: no programa “Tonight Show”, de Jimmy Fallon, lançando o hit “Boys Don’t Cry”, lapidou-se para enfrentar o público especial de Coachella, na California, o maior festival de música pop do mundo. O que mais impressionou naquela entrevista foi o inglês fluente e a perfeita compreensão das perguntas feitas pelo apresentador. No programa “La Resistencia”, de uma TV espanhola, Anitta foi elogiada pela perfeição no idioma, em entrevista que obteve mais de 5 milhões de acessos. Seu recente single “Envolver” encabeçou a lista dos “top 50” no Spotify, e a Billboard a colocou entre “uma das celebridades mais influenciadoras na mídia social” do mundo. A essa altura, Anitta já tinha conquistado diversos prêmios e distinções, e desfrutava de trânsito livre na comunidade internacional.

O festival pop de Coachella em Palm Springs, na California, recebeu Anitta com entusiasmo. Reservaram-lhe dois dias especiais no evento, 15 e 22 de abril, duas sextas-feiras, em horário privilegiado, 22h, e já no dia 15 cumpriu sua promessa de levar o chamado “funk carioca” para o mundo. Cantou um pot-pourri de seus sucessos e revelou seu lado ativista: subira ao palco na garupa de uma motocicleta com collant verde, amarelo e azul, assim como diversos bailarinos, chegando a fazer uma breve preleção sobre o uso das cores da bandeira brasileira, dizendo que elas não têm dono, pertencem a todos – um claro recado aos que fazem uso partidário apropriando-se de um Símbolo Nacional. Imensos painéis eletrônicos e atores no palco mostravam um país real, a pobreza na comunidade, tudo o que se costuma encobrir com imagens lindas das praias cariocas, do Cristo Redentor e do Pão de Açúcar – que, por ironia, não era figura na apresentação, apenas fundo. Não mostrou o país tipo exportação, mas o Brasil real, sua origem, berço e local de criação.

Anitta abriu o show com “Onda Diferente”, tendo o parceiro de estúdio Snoop Dogg para acompanhá-la. A seguir, um séquito de bailarinos tomou o palco e, para gáudio da plateia latina, ela começou a cantar “Me Gusta”. Houve uma breve performance de capoeira, e após troca rápida de corpete apresentou seu hit atual, “Envolver”, lançado dias antes. A famosa e histórica revista norte-americana Rolling Stone não poupou elogios: “destemida, divertida e audaciosa”, dizendo ainda que Anitta leva a música brasileira ‘a patamares inéditos’”. Pode-se acreditar que a cantora chegou ao topo da carreira ainda um pouco nova, estourando em Lollapalooza e Coachella e lançando seu álbum “Versions of Me” (Versões de Mim).

Não sou fã – talvez ouvinte ocasional – da Anitta, mas aprendi a respeitá-la e admirá-la como artista e empreendedora. Tudo o que ela faz reverte em sucesso, e isso, independentemente de preferências musicais, é assombroso. Críticas gratuitas não lhe atingem a performance, e sequer a simplicidade melódica e harmônica pode ser dita falha no contexto em que ela se situa. Se as harmonias contêm apenas coisa de dois ou três acordes a questão é do gênero, palavras percussivas baseadas principalmente no ritmo e na dança. Quanto aos poucos acordes, a ótica crítica levaria para o brejo todo nosso folclore, a música de raiz, os cantadores, o partido alto, o rock’n’roll, a folk music. “Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores” tem apenas dois acordes, e levantou multidões: o que interessava no caso era a letra, seguindo a regra “poesia complexa, música simples, música complexa, poesia simples”, deixando o recado bem claro; já em Anitta sobrepõe-se um terceiro elemento: a dança, o gingado, a coreografia. A complexidade musical e poética não tem relevo no contexto mais amplo da cantora.

Anitta é um fenômeno e é como tal que devemos vê-la. Há um grande público a aplaudi-la, agitando o corpo num ritmo sacolejante (o grande George Clinton, ícone do funk americano, dizia “sacuda seu traseiro e sua mente seguirá”). Conquista seus louros para o Brasil em um segmento das massas, do povão, mas tem pouco acesso às elites econômicas e culturais – e nem por isso deixa de possuir grandes méritos, incluindo ter opinião política. Atitude rara entre artistas, chegou a se oferecer para pagar a multa de 50 mil imposta por uma frágil – e felizmente efêmera – decisão do TSE aos artistas que se manifestassem politicamente no festival de Lollapalooza, no Rio. Anitta é uma artista paradoxal, imprevisível e multifacetada, um caleidoscópio das versões de si mesma.

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