O frio: dois lugares, dois olhares

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Henrique Autran Dourado

Estados Unidos, julho de 1977. A primeira vez que tive contato com um frio de doer foi em Brighton, New England, onde fui morar, estudar e trabalhar. Estava bastante frio, mas ao chegar no apartamento de um amigo, cedido por uns tempos, bastou ligar a calefação elétrica para o sol lá fora fazer cara de verão. Esgotado da viagem, arrumei minhas coisas, depois fui dormir cedo. Ao acordar fui para a sala e, assustado, vi uma massa branca por fora da porta envidraçada da varanda. Olhei o pátio, mas onde os portões dos prédios, onde os carros? Desci, e ao lado de vizinhos pasmei olhando a portaria de vidro: uma imensa parede branca.

Logo, pessoas com pás e enxadas uniram-se solidariamente para abrir uma passagem daquele iglu, digo, prédio, para a rua, a fim de podermos sair. Mas para onde? Não havia metrô externo, uma colina de neve cobria os trilhos, nem loja aberta. Voltei para o apartamento e fui procurar comida. Nada. Apenas uma cebola, que comi crua com sal, devidamente fatiada, meio ardida, mas era o que tinha. Liguei a TV, e aí o susto: jornalistas exaltados, avisos de alerta, números para ligar por socorro em casos extremos de fome ou frio. A nevasca era a maior “blizzard” dos últimos 150 anos, soube depois, coisa nunca vista por toda aquela população. Uma deixa para me agasalhar com casaco estofado com pena de ganso, botas, gorro e cachecol no rosto e sair à procura de alimentos. Andando por cima dos carros, driblando aquelas longas antenas antigas, atravessei a linha férrea e… Salve! Encontrei a longa fila de um mercadinho! Pela neve da linha férrea, em declive, exibiam-se pessoas de esqui, o que me distraiu do frio até poder entrar no ambiente da loja.

Seriam gelados todos os invernos, neve quatro a seis meses no chão, mesmo que sem aquela tragédia de 77. O lado bom: depois de engolir flocos na rua, como criança, ver nevar de casa, gelar uma cerveja colocando-a para fora da janela por cinco a dez minutos. Ah, os pinheiros e maples cobertos de neve, arte da natureza – mas olhando do quentinho de dentro, privilégio a ser desfrutado por quase todos. Sim, digo quase todos por causa dos moradores de rua, miseráveis geralmente nas bocas da saída de ar quente das estações de metrô. Os pobres que tinham onde morar eram impedidos por lei de serem despejados, o que seria como condená-los à morte. O mesmo valia para o corte por falta de pagamento das contas de luz e do óleo que aquecia as caldeiras nos porões.

Ricaços partiam com seus esquis rumo a algum resort em Aspen, Colorado, para se divertirem com garbo e estilo entre um chocolate quente e um conhaque. Porém, havia um lado triste, amargurante: o frio não era só festa, era seletivo pela natureza da sociedade americana, dividida em maioria privilegiada e pobres, gente açoitada pelas lufadas de vento baixando as temperaturas de até -15°C para -30°C ou ainda menos, fenômeno chamado “windchill factor” (fator de gelo do vento, por aqui conhecido suavemente como sensação térmica).

Tatuí, julho de 2021. Conforme as previsões meteorológicas, uma frente fria se abatera sobre o Brasil nos últimos dias. No quarto onde escrevi este texto, no dia 30, o termômetro registrava internamente 10°C, e do lado de fora, acredite, a mesma temperatura, tendo marcado 0°C durante a madrugada. O país sofre com o frio, as casas não são preparadas, não há calefação e os que mais penam são os peões de obras, pessoal de serviços externos e entregas – a mais dura parte cabendo aos motoboys de delivery, mototáxis, que têm de se locomover deslocando ar contra si mesmos. (O Inmet disponibiliza uma tabela de cálculo da sensação térmica que pode ser resumida da seguinte forma: a cada 7 km/h de velocidade, o vento faz cair 1°C, ou seja, se a temperatura é de 10º, como no dia em que escrevi este artigo, e o vento chega a 21 km/h, a sensação térmica é de 7ºC. Para um motociclista dirigindo a 42 km/h, a sensação será de apenas 4°C).

O frio tomou, mesmo que em diferentes proporções, todo o país, e nevou em diversas cidades do sul; houve onde a sensação térmica chegasse a -6,5°C com previsão de cair ainda mais. Com roupas não preparadas, casacos comuns e na falta de luvas e botas especiais, o sofrimento é ainda maior. (Nas residências, também, sem as mantas de lã de vidro internas às paredes e forros como nos EUA, por exemplo, o frio é impiedoso. As raras que possuem uma lareira são privilegiadas – porém, apenas nos ambientes em que ficam, as pessoas ao redor como em adoração ao fogo). Rio e Salvador, fregueses contumazes de calor intenso de 42°C ou mais, viveram momentos de rigoroso inverno, de 15°C na primeira cidade e 24° na segunda. (Contraste: lembro-me de que quando chegava a primavera, em Boston, com os 15°C do Rio estudantes desciam às ruas de shorts e camisetas regata, som ligado alto, para jogar bola e festejar. Deve ter sido essa, concluo eu, a alegria do russo Igor Stravinsky ao compor seu célebre balé orquestral “A Sagração da Primavera”, um marco na história da música).

É inegável que dez ou 20 minutos na geada ou na neve, com as crianças bem agasalhadas, podem ser prazerosos, divertidos. Para os adultos, uma alegria quase infantil que quase sempre termina em vinho ou chocolate quente, mas é preciso nunca esquecer que há uma população sofrendo: os sem-teto, moradores de rua. Fora os muitos que perderam a vida por causa do frio. Os que amargam o frio intenso merecem atenção especial das autoridades e de todos nós, privilegiados.