Num rabo de foguete

Henrique Autran Dourado

Era o ano de 1979. O poeta Aldir Blanc fez de uma letra preciosista, um libelo contra a ditadura, e é preciso entendê-la para que possamos nos situar no samba do João Bosco: um goulash de informações cifradas, figuras de linguagem e metáforas para falar de verdades proibidas, e ele o fez com mãos de ourives. Assim nasceu “O Bêbado e a Equilibrista”, sucesso até hoje na voz imortal da Elis Regina: “Caía a tarde feito um viaduto / e um bêbado trajando luto / me lembrou Carlitos”. Em 1971, desabaram simplesmente 112 m de um trecho do viaduto Paulo de Frontin, no Rio, obra mal feita, com vícios, superfaturamento, estruturas de material barateado. Morreram 48 pessoas e houve grande número de feridos. Eram tempos do general Médici, talvez o mais cruel daqueles anos, responsável por uma censura implacável: assunto proibido. Infelizmente, os censores sequer tinham lido ou compreendido um poema: a censura é um ato contra a inteligência.

“(Brasil) que sonha / com a volta do irmão do Henfil / com tanta gente que partiu / num rabo de foguete”. Henrique de Souza Filho, o Henfil (1944-1988), era cartunista do semanário O Pasquim. Dono de um traço inconfundível e pai de figuras como a Graúna, o Fradim, o Bode Orelana e outros, e de cujo irmão Betinho fala a música, era hemofílico como ele e o irmão Chico Mário, músico (os três morreram de Aids após transfusões para o tratamento de hemofilia congênita). Betinho (Herbert José de Souza) foi um brilhante sociólogo que terminou exilado depois de ser preso por, digamos, pensar. Essa “volta do irmão do Henfil” simboliza, além de um enorme bom-retorno, braços abertos para receber de volta os asilados, exilados ou que tiveram de buscar proteger-se no exterior.

Rabo de foguete, com ou sem os hifens, pode ter diversos significados: uma grande encrenca, uma queimadura por fogos de artifício; segundo o etimólogo Deonísio da Silva, “empreender tarefa difícil”. Refere-se igualmente a uma planta conhecida também como “arnica de Minas” e mais uma dezena de nomes: é coberta de espinhos que grudam na roupa e na pele e podem ferir, enroscando-se na vítima. Todas as versões convergem. Como grande parte das expressões populares, “rabo de foguete” é moldado pelo tempo e cultura de onde se vive, enriquecendo-se. Mas há uma sensação intangível: é “coisa ruim”, que por sua vez quer dizer “coisa do diabo” – ou o próprio. Mas quem sabe, ao invés de seguir destrinchando a etimologia seja melhor sentir, tal qual o povo faz sabiamente?

Segundo o Memorial da Democracia, de 5 a 10 mil pessoas foram expulsas, deportadas, exiladas ou asiladas. Da primeira leva, em 1964, fizeram parte políticos como JK, Jango, FHC, Arraes, Brizola e Darcy Ribeiro; da segunda, estudantes, artistas como Caetano, Gil, Vandré, Chico, Glauber Rocha, professores, militantes e mais de 130 presos políticos trocados por embaixadores reféns na luta armada. Foram em boa parte refugiados na França, no México, no Chile e no Uruguai.

Essa gente, o filé da nossa chamada intelligentsia nacional, foi a que “partiu no rabo de foguete”, na poesia de Blanc. A censura vigiava essas partidas, e pior: as viúvas de presos políticos. A letra diz “choram Marias e Clarices”, referindo-se essas últimas à viúva de Vladimir Herzog, jornalista preso e morto em uma cela do DOI-Codi em 1975. As Marias simbolizam a viúva do operário Manuel Fiel Filho e todas as mulheres de mortos e presos no Brasil – e tantas Marias há, como bem disse João Cabral em seu candente “Morte e Vida Severina”: “… deram então de me chamar Severino de Maria / Como há muitos Severinos com mães chamadas Maria / (…) Severino da Maria do Finado Zacarias”. Quando a razão se esgota na missão de compreender alguma coisa, a poesia ocupa o espaço e se faz presente em outro universo: o da sensibilidade, dos sentimentos mais profundos, da arte como expressão humana maior: dores e alegrias, figuras e fundos, sofrimentos e vazios, devaneios e angústias que a mente não consegue explicar.

“Mas sei / que uma dor assim pungente / não há de ser inutilmente / a esperança / Dança na corda bamba de sombrinha / e em cada passo dessa linha / pode se machucar”. Vivemos esta vida como a equilibrista na corda bamba, com sombrinha para não cair, passo a passo, correndo riscos, sabendo que a qualquer momento um aventureiro pode nos fechar a encruzilhada. Vivemos parte de nossa República sob regimes de força, exílios, desde os constitucionalistas de 1932 – entre os quais meu avô – aos de que tanto nos lembramos no pós-64 – todos num rabo de foguete, “que ninguém sabe o que seja”; mas foi ruim, muito ruim (que o diga minha mãe, outra Maria, que na mais tenra infância teve o pai tirado do convívio do lar, e suas irmãs, também Marias). Há o retorno, diz a história que sempre retorna, mas o importante é não partir, a não ser para passear por lugares lindos, nunca para se entocar.

Se a poesia do Aldir Blanc, que nos deixou sem avisar no dia 4 de maio de 2020, é uma ode à anistia, em 1968 Chico escreveu para Jobim a letra de “Sabiá”, de uma leveza enorme, um canto do exílio que teria sido dedicado a JK: “Vou voltar / sei que ainda vou voltar / para o meu lugar / Foi lá e é ainda lá / que eu hei de ouvir / uma sabiá”.

Uma parte risível mas incendiária dos brasileiros faz coro ao modismo radical dos piores momentos da história – por não a conhecerem, não a terem vivido ou por ligações com o instinto dos próprios repressores. Citando o grande Mário de Andrade, “reverendíssimas bestas”.

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