‘No Dia em que Eu Vim-me Embora’

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Henrique Autran Dourado

Nessa belíssima e melancólica canção, Caetano Veloso descreve sua partida para a capital, em busca de seus sonhos. Em 7/7/77, eu embarcava em um voo para NY, conexão para Boston. (Na Cabala o número 7 fala de equilíbrio, e no somatório volta ao 1, da autoconfiança. Na Kabballah judaica, sete é o número dos que gostam de viagens).  Levava pouca coisa, além de meu instrumento. Ao pousar, fui para o apartamento de um amigo brasileiro em Brighton, na região chamada New England, onde fiquei meses. Mas não foi o melhor dia para ter chegado: após uma noite tranquila, andei até a janela da sala e levei um susto, a neve na sacada alcançava mais de um metro de altura. Ao olhar para baixo, onde estavam os carros? Tudo branco!

A neve bloqueara a portaria do prédio. Subi, liguei a velha TV e ouvi vários alertas, telefones de resgate e de helicópteros para emergências. Descobri então que eu vivia a maior “blizzard” dos últimos 150 anos! Enquanto a TV gritava em tom alarmista, fui procurar algo para comer. Na geladeira, uma fatia de pão e uma cebola inteira. Comi o pão, para na hora do almoço, ouvindo as notícias, amargar fatia por fatia da cebola, crua, com sal e um pouco d’água. Um pacotinho com dois biscoitinhos, brinde do voo, fez boa sobremesa. Dia seguinte, vizinhos caprichosos tinham cavado um túnel para sairmos. Vi pessoas andando e as segui até chegarem à fila de um mercadinho. Deu para comprar alguma comida.

Mudei-me para Allston, mas o dinheiro do metrô me pesava tanto quanto escolher entre fumar ou café da manhã. Por praticidade e economia, fui morar “downtown” Boston, centrão, na Gainsborough St., rua da New England Conservatory, onde estudava (atrás do prédio do Boston Symphony Hall, casa de uma das melhores orquestras do mundo). O apartamento, um pequeno cômodo, uma cozinha e um banheiro. O prédio, daqueles antigos de tijolos aparentes à inglesa com simpáticas “baywindows”, janelas protendidas. O meu era o de nº 79 – ao lado do 77, onde, só descobri mais tarde, em 1962 havia morado e começou uma trilha de sangue o terrível “estrangulador de Boston”, autor de 13 assassinatos de senhoras idosas. (FRANK, Gerold. “The Boston Strangler”. Boston: NAL, 1966).

Um pequeno aparelho de som, o meu instrumento, uma cama feita de caixas de leite cobertas por uma espuma. Achei na rua um daqueles rolos de madeira para cabos telefônicos, levei-o comigo e… hélas, uma mesa! Chegou o outono, início do ano letivo, e não valendo o preço da mudança os estudantes que deixavam as várias universidades largavam nas calçadas um sortimento de bugigangas para quem quisesse. Levei uma TV P&B, uma torradeira, uma máquina de escrever “vintage” Remington de teclas redondas e outras coisas de que precisava. (Nas horas mais difíceis, algumas vezes uma amiga brasileira me levava um “tupperware” com arroz, feijão e um pedaço de carne).

Praticava das 6h da manhã até sair correndo a pé para o ensaio da orquestra, às 9h. Depois do almoço, aulas e enfim retornar à casa, estudar ao menos outras três horas de instrumento e duas ou três para a parte teórica e leitura de um dos 371 corais de Bach para análise, em um tecladinho mequetrefe – e lá se ia a jornada. Para o almoço, cena comum nas ruas, às vezes uma grande fatia de pizza de 90 ¢, suspensa entre os dedos e escorrendo gordura enquanto eu andava. Às vezes, eu ia a uma “steak house”, onde degustava a opção mais barata, US$ 2,60, uma fatia de carne sobre um pão de forma. Para desespero do gerente, enchia a barriga no self-service com três ou quatro tigelas de salada com molho roquefort.

Findo o dia, voltar e estudar horas a fio, até que minha rotina passou a ser alterada por convites para tocar salsa em grupos latinos de Roxbury, uma espécie de enorme gueto que começava do outro lado da New England – barra pesada, mas pagavam no ato. Minha vizinhança não era das mais finas: restos de macarrão ou arroz jogados pela janela, enormes ratazanas lá fora e camundongos e baratas dentro. Com o frio, meses e meses de neve, trancado, bastava abrir a janela ao lado da mesinha redonda para gelar uma longneck “no name” (genérica) em minutos. Vida preferencialmente solitária e com o mínimo possível – tempo de lutar com um sorriso esperançoso.

O isolamento necessário ao meu crescimento musical prescindia de maiores gastos. Festinhas eram raras, tudo conspirava para meu estudo e futuro, o resto era secundário. Mesmo conquistando um cargo no staff do Symphony Hall e depois de conhecer as guildas de cachês de orquestras em Boston e cidades vizinhas, o recesso diário continuou fundamental (são mil na plateia e só um no palco, dizia meu professor, abrindo-me os olhos para a competição). No inverno, as pessoas isolavam-se mais ainda: sair? Encoberto até o rosto, uma “escala” em uma loja para aquecer e correr em frente.

Fora as necessárias saídas e raras badaladas, foram tempos essenciais à minha formação, escolhera uma escola dificílima de se entrar – e concluir -, mas caminho para oportunidades profissionais. Tempos de leituras, de introspecção, de longa distância e escassa comunicação com a família. Mas foi esse estágio de confinamento que me abriu caminhos intelectuais, musicais e como pessoa. A ele devo tudo.

Por isso, não me estranha muito a atual quarentena. Buscar um lugar ao sol já me é apenas um retrato na parede, e posso trabalhar particularmente. O recolhimento que vivi serve-me bem nas horas das penitências que pagamos por essa pandemia e suas ameaças devastadoras.