Neologismos clássicos e os ‘da galera’

Henrique Autran Dourado

Idioma é “a língua própria de um povo, de uma nação, com o léxico e as formas gramaticais e fonológicas que lhe são peculiares” (Houaiss). É com ele, e as variações regionais, dialetos e gírias, que nos comunicamos, nos reinventando. Quem faz a língua é o povo e quem a consagra é o escritor; instâncias acadêmicas, são apêndice posterior. Disse Gustave Flaubert (1821-1880): “… o escritor é livre, conforme as exigências de seu estilo, de aceitar ou rejeitar as prescrições gramaticais que regem a língua, e as únicas leis às quais é preciso se submeter são as leis da harmonia” (trad. de Lucia e Autran Dourado, meus pais).

Em 1991 o então ministro Antonio Rogério Magri afirmou “o salário do trabalhador é imexível”, o que bastou para um linchamento linguístico que motivou uma declaração de meu pai: sob todos os aspectos, apesar de até então a palavra não existir, ela estava absolutamente correta na etimologia. O renomado jornalista Carlos Castello Branco, do Jornal do Brasil, repercutiu a declaração e o neologismo teve um apoio rasgado do Otto Lara Resende: “A palavra era bem formada e portanto vernácula. O fato de não constar no dicionário, se de fato não figura, só depõe contra o dicionário”. Pouco depois, por uso e costume, “imexível” passou a constar nos dicionários e no Volp – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia de Letras.

Há um consenso de que “imexível” foi gestada em fala espontânea e informal do ex-ministro, mas segundo elementos que formam nossa língua. O que não é o caso de certas extravagâncias do idioma, os neologismos importados da língua inglesa em contexto geralmente fora do original. Bom exemplo é o verbo “trolar” – “ele está me ‘trolando’”, que surgiu na internet, e Deus sabe como teria vindo parar aqui. Em inglês, existe o verbo “to troll” que significa empurrar um carrinho ou ainda puxar um anzol com isca em um barco em marcha lenta, para desespero dos peixes. Mas existe ainda um “trol” que vem de “to patrol”, patrulhar, e indica que a corruptela teria surgido de “I’m trolling”, como diria o funcionário de uma loja que fica de olho em pilantras que vagueiam entre as gôndolas para fazer uns “ganhos” – palavra essa dicionarizada há muitos anos (bem mais antiga é “pilhar”, fazer pequenos roubos). Voltando a “trolar”, como não se vê uma ligação clara, sua origem permanecerá um mistério – apenas temos certeza de que é um anglicismo.

O caminho parece semelhante ao de “bullying”, “provocação”, de onde “cyber bullying”, que entre nós seria uma “ciberperseguição”, um neologismo a que sou obrigado por simples tradução literal. “Bull” é “touro”, e em suas variações não há nada que faça conexão com “bullying”, termo à parte. Ao importarem essa palavra, preteriram o nosso velho “bolinar”, talvez porque “bullying” tem sentido único, e bolinar, entre outras acepções (op. cit.), há “apalpar ou encostar-se a (outra pessoa) com fins libidinosos, ger. de modo furtivo”. Nesse sentido, “bolinar” seria o mesmo que “sarrar”, malandragem dos ônibus, trens urbanos e metrôs: “estabelecer contatos voluptuosos com alguém, sobretudo em aglomeração de pessoas, em cinemas, etc.” (op. cit.). De sarrar vem “tirar um sarro”, significando “curtir com a cara” de alguém, “zombar”, do espanhol “zumbar” (séc. 15). O velho “bolinar” soaria feio: “mãe, meu colega fica me bolinando”.

Nas mídias sociais é frequente o TBT, “Throwback Thursday”, sendo “throw”, “jogar”, e “back”, “trás”, quinta-feira revivida. Com o TBT pessoas compartilham fotos de momento ou ocasião voltando a quintas passadas, por nostalgia, um “flashback”, termo emprestado do cinema. Abrasileirando e sem saber o significado de TBT, alguns também usam para os outros dias da semana, simples lembrança. Até inventam um significado, como “Tá Bom, Tá?”. Melhor seria algo como “relembrando uma quinta-feira”, “RQF”, mas o dialeto das redes consagrou o “TBT”. A “hashtag” – “hash”, “confusão + “tag”, “etiqueta” -, símbolo “#”, que aparece no canto inferior direito dos teclados de telefones e que as atendentes de telefonia comercial chamam de “jogo da velha”, tem nome em português: cerquilha! “#” são um “must” (necessidade), em “apps” como o Instagram, e fazem uma espécie de chamada, a exemplo de #forafulano e #sextou. BTW (“By The Way”: “aliás”) é outro anglicismo abreviado, já que escrever o mínimo é a tendência, seguindo de perto ler cada vez menos. Para a galera, são “chiques” (aliás, um galicismo que vem de “chic”, e no interior é seguido por um caipirismo, “no úrtimo”.)

Gilberto Gil, há 25 anos em “Pela Internet”, já fazia uso musical e crítico desses maneirismos cantando “Criar meu website / fazer minha homepage / com quantos gigabytes / se faz uma jangada / e um barco que veleje” – detalhe: palavras já devidamente dicionarizadas na “última flor do Lácio” – do poema “Língua Portuguesa”, de Olavo Bilac. Gil prossegue com os já abrasileirados disquete, site, hacker, videopôquer. Se existe “hotlink”, não agregado aos dicionários tupiniquins, há também os já naturalizados auriverdes upload, download e uma infinidade de termos e expressões em inglês. Gil lançou a música pela Internet, “comme il faut” (como deveria ser).

Não é vício exclusivo nosso. Na França é comum ouvir-se “stopper”, de “stop”, parar, dialeto que eles chamam “franglais” (“français” + “anglais”). Ao que tudo indica, a China ascenderá ao pódio de país mais poderoso do mundo, mas o inglês será cada vez mais a língua-mater da comunicação.

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