Traduzir: um discreto convite à traição

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Dei de presente para minha filha Marta, que mora em Londres, um exemplar da tradução para o inglês de “Ópera dos Mortos”, do meu pai. Há três edições pelo mesmo tradutor, John M. Parker, sendo uma após o Prêmio Goethe de 1982 e duas anteriores: Peter Owen (1980), Taplinger (1981) e Hamlyn (1983). Não compreendi o porquê da não tradução literal, “Opera of the Dead”. Parece não haver outro livro ou filme que impeça, mas o tradutor optou por “The Voices of the Dead” (“As Vozes dos Mortos”), que caberia melhor em um thriller de terror.

Uma das capas é sóbria, só traz o título. A que escolhi é uma vaga remissão ao casarão de Rosalina, personagem central do romance. A terceira mostra uma ilustração antiga que lembra o Pão de Açúcar carioca, abraçando uma baía (um Debret ou Rugendas, não fosse o barco a vapor cruzando ao fundo). Mas tudo se passa em uma fictícia cidadezinha do interior mineiro, tal como a Monte Santo em que o pai viveu! Obra do capista ou do editor?

O texto da tradução tem vários equívocos, a exemplo desta frase no original em português: “… a gente viu como foi. Como por que aqueles relógios começaram a parar”, traduzida assim: “… we saw the other times how it happened, how and why those clocks began to stop”, desse jeito, quebrando o sentido e o frasear característico do autor. Lê-se assim “… nós vimos das outras vezes como aconteceu, como e por que aqueles relógios começaram a parar”. Esse “como”, sem o ponto antes e na tradução, indica “de que maneira”, uma conjunção, e no original, é “a exemplo de”, advérbio. Os títulos dos capítulos têm suas escorregadas: “Rosalina’s Song”, para “Cantiga de Rosalina”. Cantiga remete a um cântico monofônico (de uma voz apenas) que vem desde a Idade Média, e aqui à mineira: cantarolando. Assim como a escrita do meu pai, a cantiga é introspectiva e não uma canção no sentido genérico de “song”, voz com acompanhamento, ou um “Lieder” alemão. Não vou fixar-me apenas nesta tradução (e menos ainda fazer um elogio à traição, pensando no adágio italiano “tradutore, traditore”).

Meu pai, em publicação de 1987 escrita a quatro mãos com minha mãe (professora de francês), traduziu “La Légende de Saint Julien l’Hospitalier”, de Gustave Flaubert (1821-1880). Em “Notas à Margem de uma Tradução”, ele cita o próprio autor, via Maxime Du Camps: “… o escritor é livre, conforme as exigências de seu estilo, de aceitar ou rejeitar as prescrições gramaticais que regem a língua e que as únicas leis às quais é preciso se submeter são as leis da harmonia”. Essas pequenas subversões, quando a bem da fluidez do texto, são benéficas. A escrita deve se submeter à harmonia, pensando em Flaubert, e não às impositivas regras gramaticais. Quando cabível, porém, a tradução exata é muito melhor, como nos outros casos que relatarei aqui.

O norte-americano Benjamin Moser escreveu, sobre Clarice Lispector, em 2009, “Why this World” (“Por que Este Mundo”). Uma pergunta sem interrogação, sem esperar resposta. Traduziu-o para o português em 2011 e, tal como aconteceu com “Ópera dos Mortos”, pecando já no título: “Clarice, uma Biografia”. Serviria para um jogador de futebol, humorista da TV, algo assim. Mas não é Clarice. A capa do original, em inglês – a biografada com o rosto coberto pelas mãos, sob o título “Why this World” -, nessa tradução banaliza a personalidade complexa da escritora, mais chegada a Nietzsche, Schopenhauer e Kafka.

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“The Cloud of Unknowing”, de um monge beneditino anônimo do século 13, eu traduziria para “A Nuvem do Desconhecimento”, de maneira fiel ao título. São textos e exercícios espirituais, um livro que me foi dado por um primo, frade dominicano. Li pausadamente, ensaiando de exercitar-me como os monges beneditinos da época, em busca da contemplação, prática não muito diferente da de outros monges, como os do Tibet. Ou aquela que Cristo mencionou, segundo Lucas (10:38-40), “Maria escolheu a parte certa, que dela nunca será tirada”: a contemplação divina. Mas o título “A Nuvem do Desconhecimento”, em português, virou “A Nuvem do Não Saber!” (“Desconhecimento” e “não saber” são para mim coisas diferentes. “Unknown” é exatamente desconhecido, diferente de “não sabido”, “not known”, mais afeito ao jargão policial: “o suspeito está em Lins” – Lugar Incerto e Não Sabido).

Um amargo depoimento de William Styron (de “A Escolha de Sofia”), trata da depressão, passa pelo estágio da internação psiquiátrica e o ímpeto do suicídio. Mas Darkness Visible (“Escuridão Visível”) chegou a nós como “Perto das Trevas”, de sentido bastante diferente.

Muita gente compra livro pelo título, e em geral leva gato por lebre (raríssimas vezes lebre por gato). A capa, nos dias de hoje, tem importância enorme na venda, embora em algumas grandes publicações elas sejam sóbrias e não ilustradas. A liberdade gramatical e das regras de que falou Flaubert se aplica quando o tradutor interpreta e revela a ideia original, sendo-lhe fiel. Contudo, o velho literal às vezes pode ser a maior fidelidade.

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