A arte da fuga

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Henrique Autran Dourado

Johann Sebastian Bach (1685-1750) deixou uma obra inestimável para a música ocidental. Nos últimos dez anos de vida, entregou-se a ela com grande devoção (estudou, dois séculos depois, na mesma escola de Lutero em Eisenach). Naquela década, talvez antecipando sua hora, Bach dedicou ao Senhor várias obras, a exemplo de corais, cujo tema rondava a falência do corpo: a morte.

Nesse período, compôs “A Arte da Fuga” (“Die Kunst der Fugue”), sem indicar instrumentação, uma generosidade para com os intérpretes: piano, órgão, orquestra ou quarteto de cordas, quem sabe.

Bach empregou o binômio Prelúdio e Fuga, a exemplo do Cravo Bem Temperado, e outras combinações, como a Tocatta e Fuga (BWV 565) para órgão, em ré menor, transcrita para orquestra por Leopold Stokowski (conhecida do público leigo pelo magnífico filme de animação de Walt Disney, “Fantasia”, de 1940).

A fuga é uma técnica que vem da Idade Média. Diversas vozes trabalham em imitação ou replicação, dando impressão de que elas “fogem” entre si. Em “A Arte da Fuga”, Bach compôs 14 delas – na última, parou no compasso 239, para depois morrer. Há ainda quatro cânones em que as vozes se repetem, cada uma tendo início em compasso diferente (quem nunca brincou de cantar “Frère Jacques” na infância?)

Agora salto para outras nada canônicas artes da fuga, como as da prisão de segurança máxima de Alcatraz, ilha da baía de San Francisco (EUA), palco de 14 tentativas, a mais espetacular em 1946.

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Na chamada “Batalha de Alcatraz”, seis internos, em violenta tentativa de fuga, dominaram carcereiros, invadiram e assaltaram o depósito de armas e roubaram chaves de celas. A marinha americana abortou a fuga, com saldo de dezenas de feridos e seis mortos. Dois dos líderes foram condenados à câmara de gás e outro, de 19 anos, à prisão perpétua, pela pouca idade.

Outra tentativa, elaboradíssima, foi a “Fuga de Alcatraz”: até cabeças imitando as dos rebelados foram moldadas em “papier marché”. Entre mortos na água gelada do mar e desaparecidos, o FBI encerrou o caso inconclusivamente.

No Brasil, após o golpe que o depôs em 1964, João Goulart foi enviado por Leonel Brizola para o Uruguai, onde tinha propriedades; tentou articular um contragolpe com militares, mas falhou, evadindo-se um mês depois para o Uruguai. Nessa fuga, diz o folclore político, estava usando peruca e vestindo roupas de mulher. Contudo, o piloto que o levou para o exílio, Manoel Leães, detalhou a fuga em livro, com requintes de filmes de espionagem: Neusa, esposa de Brizola, lhe dera metade de uma cédula de dinheiro, e a pessoa que o encontrasse com a outra parte seria o elemento-chave para a fuga.

Indagado por uma repórter durante a campanha presidencial de 1994, o “engenheiro” respondeu indelicadamente que teria escapado como mulher, sim, usando as calcinhas da entrevistadora.

Abraham Weintraub, ministro deste governo por pouco mais de um ano (abril de 2019 a junho de 2020), é daquelas figuras polêmicas que ressurgem aqui e ali na política brasileira. Na pasta da Educação deixou a desejar: Grafa “suspenção”, “impressionante” e “paralização”; trocou “asseclas” (do PT) por “acepipes” – talvez um tira-gosto para suas farpas. E não distingue “onde” de “aonde”.

Não tem papas na língua para atacar, como fez com o presidente da França Emmanuel Macron, nem com o povo chinês, nosso maior parceiro comercial. Ironizou o sotaque de sino-brasileiros com o do Cebolinha, da Turma da Mônica, que troca as letras “r” por “l’”. De seus ataques não escaparam os nossos indígenas – logo ele, judeu, descendente de um povo perseguido, dado a arroubos xenofóbicos contra nativos brasileiros e parceiros orientais!

Mas foi em uma reunião ministerial, em 22 de maio, exibindo grande verve, que Weintraub cometeu suas derradeiras diatribes. Apontando para o lado oposto da Praça dos Três Poderes (a Suprema Corte), disse “eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia, começando pelo STF” (G1). O vídeo ficou em posse do decano do Supremo, Celso de Mello, e foi tornado público com alguns cortes de trechos constrangedores a nações amigas.

Encurralado por tantos lados e vendo-se em trapalhadas legais, Weintraub anunciou que sairia imediatamente do país, manobra de invulgar habilidade: no dia 20 de junho já chegava em Miami. E como burlou os critérios extremamente rígidos dos EUA para ingresso de brasileiros no país? (Até dos viajantes de países “liberados” exigem isolamento sanitário por duas semanas!) Simples: usou sua condição de ministro com passaporte diplomático – isento, portanto, de todos os embargos da Imigração. Desceu em Miami livre, leve e solto.

O truque foi ter sua exoneração do cargo retificada após a chegada em Miami. A data do decreto original vigorou até sua entrada nos EUA, mas por pouco tempo: no dia 23, em edição extra (nº 118, seç. II, pág. 1), novo decreto presidencial retificou o ato, fazendo retroagir a exoneração para “a partir de 19 de junho de 2020”.

Divulgou-se que Weintraub assumiria uma cadeira na diretoria executiva do Banco Mundial – cargo para cuja investidura não se é nomeado, mas eleito, confirmando indicação do país, e só dali a três meses. Para Lucas Furtado, subprocurador do TCU, a alteração na data “confirma fraude” (Estadão, 23/06). Desde logo houve reações, de intelectuais brasileiros e nações estrangeiras à Associação de Funcionários do Banco Mundial.

Sim, já houve escapadas mirabolantes na história. Mas nenhuma fuga logrou o final perfeito. Nem as do devoto Bach.

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