Ivan Camargo lança livro ‘Botão do Pânico’ no Museu ‘Paulo Setúbal’

Abertura de semana literária teve fala de juiz sobre Justiça Restaurativa

O diretor Rogério Vianna e o autor do livro, Ivan Camargo (foto: Giorge de Santi)
Da reportagem

Na segunda-feira, 1º de agosto, no Museu Histórico “Paulo Setúbal”, ocorreu o lançamento do livro de ficção “Botão do Pânico, de Ivan Camargo, editor do jornal O Progresso de Tatuí.

A publicação integra uma das ações do centenário do jornal, fundado em 30 de julho de 1922, e abriu a 80ª edição da tradicional semana municipal dedicada à literatura e à memória de Paulo Setúbal, o “imortal” escritor tatuiano que ocupou a cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras.

Estiveram presentes na solenidade: o prefeito Miguel Lopes Cardoso Júnior, o juiz da Vara de Infância e Juventude e do Juizado Especial Cível e Criminal, Marcelo Nalesso Salmaso; o diretor municipal de cultura e gestor do museu, Rogério Vianna; e Lívia Amara R. de Oliveira, gerente administrativa de O Progresso.

Também compareceram: os secretários municipais da Cultura, Esporte, Turismo e Lazer, Cassiano Sinisgalli; Miguel Ângelo de Campos, da Segurança Pública e Mobilidade Urbana; Elisângela da Costa Rosa Cecílio, da Educação; Elaine Leite de Camargo Miranda, dos Direitos Humanos, Família e Cidadania; o chefe de gabinete da prefeitura, Christian Pereira de Camargo; o assessor da Secretaria Municipal de Direitos Humanos, Família e Cidadania, Wilian Alexandre Nunes da Silva; o presidente do Conselho de Políticas Culturais; Davison Pinheiros; o comandante da Guarda Civil Municipal (GCM), Vanderlei dos Passos; o inspetor da GCM e coordenador da Patrulha da Paz, Marcos Arruda; a GCM Érica Vieira, idealizadora em Tatuí do dispositivo “Botão do Pânico”; além de convidados, artistas da cidade e familiares do escritor, entre os quais, Ana Maria de Camargo Del Fiol, mãe do autor e também proprietária do jornal O Progresso de Tatuí desde 1981.

Publicada a partir de recurso da Lei Aldir Blanc (edital de cultura 02/2021), a obra terá o valor da comercialização de todos os exemplares na noite de autógrafos revertido para o programa Patrulha da Paz, da GCM, que presta auxílio às mulheres vítimas de violência doméstica em Tatuí.

“Botão do Pânico” é composto por uma coletânea de contos de humor, cujo principal, que dá nome à publicação, remete justamente ao aumento expressivo de casos de agressão contra as mulheres observado durante o período da pandemia de Covid-19.

Para Camargo, participar da abertura da Semana Paulo Setúbal, cujo primeiro evento foi o lançamento do sexto livro dele, representou “responsabilidade redobrada”.

“A Semana Paulo Setúbal começou em 1943, a partir de uma proposta dentro de O Progresso, e chega à sua 80ª edição, mantendo-se como o principal evento de arte e cultura de Tatuí”, acentuou o jornalista. Camargo também destacou os cem anos do periódico, um dos jornais mais antigos em funcionamento no Brasil.

A publicação do livro, conforme lembrou Camargo, tanto marca o centenário de O Progresso quanto busca registrar um dos maiores problemas gerados pela pandemia: o aumento da violência doméstica contra as mulheres.

Contudo, ressalta Camargo, é um livro de contos de humor, não de reportagens. Assim, como evidencia o subtítulo, soma várias “histórias de amor com e sem dor”.

Patrulha da Paz

“Hoje, são 313 mulheres atendidas pela Patrulha da Paz. É um programa que traz mais segurança para as pessoas e que já foi apresentado para outras cidades, como Barueri, por exemplo, que tem mais habitantes e mais casos que aqui. Tatuí se tornou uma referência neste assunto”, enfatizou o prefeito Cardoso Júnior, no lançamento da publicação.

“Aonde o livro chegar, ele tratará de um assunto extremamente sério, de uma forma mais leve, que foi o jeito que Camargo encontrou para que se possa sensibilizar as pessoas da importância de um cuidar do outro e respeitar as adversidades”, apontou o prefeito.

Para Vianna, o feminicídio tem se tornado rotina nos noticiários em todo o mundo, pelo que afirma temer que se torne banal pela quantidade.

“A partir do momento em que se trabalha com um tema tão forte e intenso, como é o da violência doméstica, de um jeito leve e envolvente, isso tende a mudar o campo de visão”, afirmou.

Segundo ele, Camargo acertou em abordar o assunto com sutileza e bom humor. “Se tratarmos com a agressividade fatos vivenciados no dia a dia, muitas vezes, passariam despercebidos”, destacou Vianna.

De acordo ele, o uso do humor possibilita com que as pessoas tenham uma visão mais ampla sobre o tema, tirem conclusões mais aprofundadas e tomem atitudes mais plausíveis.

Juiz Salmaso fala sobre a Justiça Restaurativa (foto: Fábio Morgado Rotta)

O juiz Salmaso, que realizou uma palestra sobre a Justiça Restaurativa durante o evento, parabenizou a obra escrita por Camargo e enfatizou seu papel na divulgação do tema.

“É muito importante a contação de histórias, e aprendemos muito com elas, tanto que o ato de as contar está na base de todos os métodos restaurativos”, salientou Salmaso.

Conforme o juiz, quando se conta histórias, se atinge o coração dos cidadãos, que se reconhecem nelas e na humanidade uns dos outros. “Quando contamos aspectos de nós próprios, as armaduras, nossos rótulos e vestes, ficamos nus em nossos aspectos mais humanos”, descreveu Salmaso.

“O livro, além de ser uma obra literária belíssima, também contribui para difundir o trabalho realizado pela equipe do programa Patrulha da Paz”, completou Salmaso.

Para o inspetor Arruda, que também coordena a Patrulha da Paz, o livro ajuda a disseminar informações necessárias sobre os direitos da mulher, abordando um tema sensível que, muitas vezes, costuma ser acobertado por conta de medo e de insegurança.

“Toda contribuição para a divulgação do programa é importante. Só assim atingiremos mais camadas do povo. O Botão do Pânico é um projeto que tem feito sucesso por funcionar adequadamente. Nós, da GCM, agradecemos ao Ivan Camargo pela colaboração com a doação do valor arrecadado pela venda dos livros”, ressaltou Arruda.

De acordo com o inspetor, a equipe do programa almeja aperfeiçoar o atendimento, com a aquisições futuras de novos computadores e tablets. “O juiz Salmaso está nos auxiliando. Isso nos ajudará a colher mais informações sobre as famílias cadastradas, a fim de contribuir com nosso trabalho da melhor maneira possível”, expôs o juiz.

A Patrulha da Paz é resultado de parceria entre o Poder Judiciário e a prefeitura, que funciona por meio da GCM. A ação foi desenvolvida nos moldes preconizados pela lei Maria da Penha (11.340/2006) – uma das principais referências no enfrentamento à violência doméstica –, em vigor desde 7 de agosto de 2006.

Segundo Camargo, o atual momento é de se buscar conciliação e paz. “Se cada um estivesse fazendo sua parte da melhor maneira possível, estaríamos vivendo em um país melhor”, frisou.

“Particularmente, este assunto me sensibiliza demais e, em razão disto, ter oportunidade de escrever a respeito é mais que um privilégio: é uma obrigação!”, acrescentou o autor.

Camargo mencionou também o papel das delegacias de defesa da mulher: “Elas são vitais até para salvar vidas, inclusive, e surgiram com a redemocratização. É a obrigação de qualquer pessoa, minimamente consciente, pensar em como essas instituições têm um papel relevante no âmbito do suporte e humanização às vítimas de violência doméstica”.

Além desse tipo de crime, o jornalista aborda, no livro, a intolerância a quem tem opiniões diferentes e que cresceu nos últimos tempos no Brasil e no mundo.

“É preciso resgatar o respeito aos pontos de vista contrários, para que as pessoas possam entender que é possível interagir sem brigar”, acentuou Camargo.

Para ele, ter ideias distintas e dialogá-las são aspectos fundamentais para se viver bem e construir uma sociedade mais harmoniosa, sem extremismos. “As pessoas têm que debater, brincar, ter bom humor. Isso é sadio e só possível em uma democracia”, pontuou o jornalista.

De acordo com Camargo, a violência contra as mulheres, identificada por meio do volume crescente de boletins de ocorrência em 2020 e 2021 – que foi divulgado pelo jornal O Progresso de Tatuí -, caracteriza-se como uma das mais graves e permanentes sequelas da pandemia, não devendo ser esquecida com o tempo.

A guarda civil municipal Érica Vieira esteve na noite de autógrafos e contou sobre o surgimento do Botão do Pânico. Enquanto estudava na Faculdade de Tecnologia de Tatuí (Fatec), ela trabalhou na elaboração da ferramenta, que também faz parte do atendimento especializado às vítimas de violência doméstica.

“O Botão do Pânico foi desenvolvido com o propósito de atender uma demanda da GCM, de pessoas que tivessem a necessidade de usá-lo de maneira rápida”, explicou Érica.

A ferramenta é instalada no celular da vítima e, caso o agressor não mantenha a distância mínima garantida pela Lei Maria da Penha ou a pessoa se sinta ameaçada, ela pode acionar a GCM pelo aparelho móvel.

Para usar o aplicativo, a interessada deve fazer cadastro a partir de atendimento na Justiça Restaurativa. A GCM é responsável pela instalação do aplicativo no dispositivo da vítima e, com isso, a Patrulha da Paz passa a receber as eventuais chamadas de emergência.

A secretária Elisângela, que lidera a pasta de Educação, afirmou ter tido conhecimento dos problemas que a pandemia de Covid-19 trouxe para várias mulheres, e até alunas, das mais variadas idades.

“Em razão de ficarem reprimidas em casa, por causa do isolamento social, muitas mulheres sofreram violência doméstica, tanto física quanto psicológica”, relatou.

Segundo Elisângela, com o retorno das aulas, os alunos mencionaram, para os professores, o que os pais faziam com as mães.  “O livro veio na hora certa e com um assunto bastante pertinente para o atual momento”, pontuou.

Para a secretaria, a relação interpessoal dos cidadãos está complicada em razão da vida corrida e do estresse do cotidiano. “Muitos casais, por exemplo, se conheceram, de fato, durante o isolamento. Ao mesmo tempo, problemas sociais e financeiros, por exemplo, surgiram e as discussões aumentaram de patamar”, analisou.

De acordo com a secretária, essas situações sempre existiram, mas, com a pandemia, ficarem mais evidentes, chamando a atenção de grande parte da opinião pública.

“Nas escolas, após os relatos das crianças, os coordenadores têm chamado os pais para conversar e aconselhar. Os relatos dos alunos mexem muito com a gente. O diálogo é fundamental nesses casos”, completou Elisângela.

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