Educação escolar e o mito da caverna de Sobral

Henrique Autran Dourado

Sobral, a 230 km de Fortaleza, no Ceará, com 210 mil habitantes, tem sido alvo de várias publicações e estudos, como a tese de doutorado de Ana Calil (PUC-SP). Mas o que faz a cidade despertar tanto interesse? Segundo Patrick Cassimiro e Gustavo Heidrich, em 2001 a cidade tinha 50% de alunos analfabetos do 3º ao 5º ano. Em 2015 as notas haviam dado um salto: média entre 4,0 e 8,8 nos primeiros anos. Uma escola municipal, a “Emílio Sendim”, chegou a uma média de 9,8! (em “O que explica o fenômeno de Sobral” – Nova Escola, com base no IDEB).

Lá, 95% dos alunos mostraram “competência na leitura e interpretação de textos”, 38% acima dos 57% nacionais. A preparação de professores focou quatro pontos: Formação, Avaliação, Meritocracia e Seleção. No primeiro, Formação, 16 horas/mês de capacitação dos mais de 2.000 docentes da cidade. Em Avaliação, provas semestrais de português, matemática, redação e ciências, aplicadas por especialistas externos, davam rumo às metas e incluíam prêmios e gratificações para os docentes. Na Meritocracia, um programa de metas que premiou com até R$ 2.800 os professores e outro tanto diretores e coordenadores; por fim, o item Seleção vedou a indicação política de diretores: a escolha dura três meses, entre provas, entrevistas, cursos e prova de títulos. Os aprovados têm autonomia para escolher sua equipe.

Publicado em 10 de maio de 2019 com amparo da SBPC pela Revista Eletrônica de Jornalismo Científico, “Sobral, um caso de sucesso educacional no semiárido nordestino”, sustenta que, apesar de localizados em uma das regiões mais pobres do pais, os alunos de Sobral têm excelentes índices nas “provas padronizadas de língua portuguesa e matemática (Prova Brasil)” e baixíssimos números de repetência – a performance dos alunos da cidade seria uma “enorme exceção” no contexto da educação no Brasil. Com trajetória apenas comparável à de Sobral, 13 municípios estão no Ceará, dez em Minas Gerais e sete em São Paulo! Internacionalmente, a cidade é considerada um exemplo de que a escola “pode fazer a diferença” (Tomlinson, 2013).

O Comciência ressalta que Sobral ocupa a primeira posição em nível brasileiro, reserva espaço especial para a língua portuguesa e se destaca mesmo se comparada a municípios de renda muito mais alta. A prática da redação e da leitura são elementos primordiais não apenas para a formação do indivíduo – é por meio do raciocínio e da compreensão de textos que lógica e percepção encontram campo fértil para seu pleno desenvolvimento. Meu pai, em uma de suas tiradas, disse: “se todo mundo lesse Machado de Assis, menos pessoas morreriam nas mesas de cirurgia e menos viadutos cairiam” (em 1971, auge da ditadura Médici, acontecera o desabamento do viaduto Paulo de Frontin, no Rio, citado na letra de Aldir Blanc para o sucesso de Elis Regina: “Caía / a tarde feito um viaduto” – poesia repleta de simbologias e referências, inclusive a Clarice Herzog, viúva do jornalista preso e assassinado).

Analisado nacional e internacionalmente, o sucesso de Sobral é creditado às políticas educacionais e às lideranças políticas (Becskeházy, 2018; Pontes, 2016; Sumiya, 2015; Maia, 2006; Inep, 2005). Diversas teses e publicações científicas apontam para o plano de alfabetização de 2001, que chegou ao ápice com o novo currículo escolar do município, em 2015. Do ponto de vista político, em 1997 o governo decidiu “vencer práticas arraigadas pela cultura de gestão pública baseada no patrimonialismo, clientelismo e coronelismo”. Os alunos são alfabetizados no 1º ano do ensino fundamental e, a partir daí, passam a ler para aprender. “O primeiro segredo de Sobral foi acertar no processo de alfabetização e monitorar seu resultado continuamente” (Oliveira, 2015).

O Comciência destaca a evolução da leitura entre os estudantes de Sobral: de 60,7% dos alunos incapazes de ler simples palavras em 2001 para 90% deles lendo textos, em 2014. As novas estratégias foram dirigidas e focadas em um objetivo bem definido e acompanhado, favorecido pela continuidade do processo, sem sobressaltos nas mudanças de gestão municipal que pudessem interromper o avanço educacional.

Nos anos 1990 um banco francês resolveu fazer uma experiência. Em São Raimundo Nonato, no Piauí, a 576 km da capital, Teresina, seria criado um projeto-modelo experimental de educação. Em pleno agreste, calor medonho, seria criada uma espécie de imensa bolha física, com ar-condicionado, onde alunos teriam uma educação de excelência em todas as disciplinas, incluindo literatura, música e artes plásticas, com professores de ponta. Fui sondado para coordenar o setor de ensino musical, posição que significaria muitas complicações na minha vida e de meus filhos; não valeria a pena, a despeito do salário irrecusável.

Não sei no que deu, mas parece que o projeto do banco morreu na praia – ou, melhor, a centenas de quilômetros dela. O plano foi pensado para a cidade porque, apesar dos seus parcos 35 mil habitantes (IBGE), lá estão unidades do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, a Universidade Estadual do Piauí e a Universidade Federal do Vale do São Francisco. Portanto, uma grande concentração de cérebros voltados ao ensino.

São investidas diferentes em um mesmo problema: a educação escolar no Brasil. Se não dá mais para saber em que consistia o projeto experimental francês para São Raimundo, há muito o que aproveitar da vitória de Sobral, um Mito da Caverna de Platão no agreste.

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