Dúvidas e certezas sobre o Conservatório de Tatuí

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A expressão “desmonte”, relacionada ao Conservatório Dramático e Musical “Dr. Carlos de Campos”, de Tatuí, está completando 15 anos a bem da verdade –, tendo surgido em 2006, quando a escola de música, teatro e luteria passou a ser administrada por uma organização social (OS).

Partem daí sucessivas dúvidas e algumas certezas. A principal inquietação, sempre reaquecida a cada mudança de OS a assumir a gestão do CDMCC, tem sido justamente se há interesse real, por parte do governo do estado de São Paulo, em “fechar” a instituição na cidade.

Em razão da intensidade de afirmações quanto a um eventual “desmonte” – e majoritariamente para negá-lo –, visitou Tatuí nesta terça-feira, 19, o atual secretário da Cultura e Economia Criativa de São Paulo, Sérgio Sá Leitão.

Recebido pelo prefeito Miguel Lopes Cardoso Júnior junto a outras várias autoridades locais e regionais, Sá Leitão esteve acompanhado da diretora executiva da atual gestora do CDMCC (a Sustenidos), Alessandra Fernandez Alves da Costa.

Basicamente, o secretário e a diretora reafirmaram o compromisso da SECEC com o “fortalecimento, aperfeiçoamento e ampliação das atividades do Conservatório de Tatuí”.

Sobre a demissão de funcionários da instituição – anunciada no dia 29 de setembro, em reunião promovida pela diretoria da OS com professores da escola -, Alessandra garantiu que não ocorreram cortes, e sim substituição de pessoal.

Em coletiva à imprensa, o secretário anunciou aumento de 6% no orçamento da instituição para 2022, passando dos R$ 26 milhões destinados em 2021 para quase R$ 27,7 milhões no ano que vem.

O secretário ainda argumentou que o CDMCC está passando por um processo de mudanças “para o aperfeiçoamento da instituição, sem realizar cortes e mantendo o mesmo número de postos de trabalho e alunos atendidos”.

O secretário e a direção da Sustenidos também comentaram sobre o novo modelo dos grupos artísticos e pedagógicos, que pretende valorizar os alunos bolsistas, sustentaram.

Também abordaram a reestruturação do Setor de Artes Cênicas, com a garantia de permanência dele e, ainda, antecipando a contratação de um gerente específico para a área.

A partir da visita, alguns temores são apaziguados, embora nem todas as questões venham a ser encerradas imediatamente, ainda carregando fortes expectativas.

A principal delas: o Conservatório de Tatuí, afinal, corre– ou já correu – risco de ser “desmontado”? Muito além de ponderar como resposta a visita do secretário, é coerente concluir que “não”!

E por quê? Em síntese, pela absoluta falta de ganho político em se fechar aquela que ainda é considerada a mais conceituada escola de música erudita da América Latina, e, nesta condição, tida como uma “grife” do próprio estado de São Paulo em meio ao “mundo da música internacional”.

Sucatear esse enorme patrimônio que extrapola soberbamente as fronteiras de Tatuí seria nada menos que um suicídio eleitoral para o PSDB, que administra o estado há décadas.

E isto mais ainda em ano pré-eleitoral e estando a escola em reduto como a Cidade Ternura, onde o partido historicamente leva a grande maioria dos votos nas eleições municipais “e” estaduais.

Quanto ao orçamento destinado ao CDMCC, sim, ele segue estagnado em torno dos R$ 25 milhões há cerca de uma década. Este fato, inclusive, serviu de base para discussão ocorrida na visita do secretário, quando se ponderou que, se esse valor estivesse sendo reajustado pelo INPC, por exemplo, já teria ultrapassado os R$ 48 milhões.

Contudo,é preciso lembrar, lamentavelmente, que o Brasil sacrifica a cultura sempre em primeiro lugar quando surgem as crises – e vivemos em uma praticamente durante quase todo esse período.

Isto precisa mudar? Mais do que nunca!- e no país como um todo, não só em São Paulo -, com profunda “revalorização” da cultura.

Neste sentido, inclusive, impõe-se grande desafio até mesmo para os gestores da escola captarem recursos vias leis de incentivo, dada a cultura estar sendo tão vilipendiada pelo atual extremismo a (mal) grassar no país, o que desestimula as empresas a vincularem seus nomes à arte – por mais insano isto seja!

Outro ponto vital nos questionamentos refere-se à dispensa de funcionários, a qual, embora normal em toda e qualquer instituição pública ou empresa privada, preocupa porque pode afetar pessoas ligadas à instituição há muitos anos e, ainda, influenciar a própria qualidade de ensino do CDMCC.

Quem tem ressaltado esta preocupação, inclusive, não é este jornal em particular, mas diversas autoridades locais, funcionários da escola e cidadãos interessados na cultura e na economia locais -lembrando ser o Conservatório também um grande empregador local.

Diante das afirmações de Sá Leitão e da diretora Alessandra, de que não haverá dispensas em termos quantitativos e ainda mais atenção terá a qualidade do ensino, é o caso de cautela no campo pessimista, com a sobreposição do chamado “benefício da dúvida”. Logo, certamente, o tempo desanuviará as incertezas, clareando os fatos.

Um ponto é inequívoco, contudo: o Conservatório de Tatuí não poderia ser adequado aos moldes do Projeto Guri (também gerido pela Sustenidos), que é um programa muito bem-sucedido do governo de São Paulo, porém, muitíssimo mais na área social que na cultural – ou mais especificamente na formação de músicos profissionais.

São instituições distintas, com objetivos prioritários diferentes e resultados – embora ambos positivos – claramente díspares no que diz respeito (reiterando)à formação de músicos de excelência.

Este particular, por exemplo, tem chamado mais a atenção de vários profissionais ligados à escola.

Um deles, em contato com O Progresso, reforçou a importância dos monitores no ensino prático, os quais possibilitam o treinamento dos alunos em todo o repertório clássico junto aos professores.

“Sem esse projeto, que existe há muito tempo, não haverá como alunos treinarem certas sinfonias de Beethoven, Mahler e outras. Ficarão no básico, e precisarão se mudar para São Paulo para fazerem uma pré-orquestra que execute esse repertório, como a Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo, da Emesp, também da secretaria”, sustenta o profissional.

“A outra opção é desistir da carreira de músico de orquestra mais cedo. Haverá uma lacuna. Será impossível tocar esse repertório só com alunos, e eles não mais sairão direto de Tatuí para orquestras profissionais”, conclui ele.

Há outra certeza, porém: com o avanço da vacinação e o consequente encaminhamento do fim da “pandemia” (não da Covid-19, ressaltemos!), logo será possível acompanhar com mais efetividade e justiça as mudanças impostas pela nova gestão do Conservatório.

Aí, sim, os alunos da escola (e pais dos pequenos estudantes) poderão vivenciar uma realidade didática “menos anormal” imposta pela pandemia, além de que haverá a oportunidade de o Conservatório, por meio de suas sempre extraordinárias produções, abrir-se novamente à comunidade – se assim realmente o pretende.

Finalmente, a visita do secretário Sá Leitão foi toda reportada pelo jornal O Progresso de Tatuí em sua edição de meio de semana (e pode ser acompanhada no portal de notícias, pelo www.oprogressodetatui.com.br).

Teve como destaque, naturalmente, o que mais importa à escola e, consequentemente, a Tatuí: a permanência da instituição como o maior patrimônio da cidade – a “Capital da Música”.

Alguns, no entanto, esperavam maior ênfase para o entrevero ocorrido entre o secretário estadual e o vereador tatuiano Eduardo Dade Sallum – oque também esteve presente na reportagem, porém, como algo complementar.

A opção por isto é simples: embora para a imprensa nacional seja muito mais “interessante” divulgar uma briga envolvendo uma grande autoridade do estado, para nossa cidade, é diferente: importa muito mais – mas muito mais mesmo!- pontuar a relevância do CDMCC para Tatuí.

Em outras palavras, não apenas jornalisticamente, mas sobretudo por “responsabilidade cidadã”, interessa sobre maneira contribuir para “arrumar a casa”, e não levantar poeira em barraco (que isto fique para as mediocridades salientes em boa parte das redes sociais).

E concluímos com a certeza maior, marcada pelo que significa o Conservatório para a Capital da Música:(nossa) maior justificativa para ser município de interesse turístico e orgulho por sediar esta extraordinária escola de músicos de excelência e ainda uma fabulosa casa de espetáculos, por meio do teatro “Procópio Ferreira”!

1 COMENTÁRIO

  1. Esta cidade está falida há anos. Só perdeu empresas e empregos. PSDB acaba com o Estado e a cidade.

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