Amantes da Amazônia

Henrique Autran Dourado

Ilha do Diabo, Papillon, Santa Elena de Uairén, tudo cheira a selva: flora e fauna, cultura indígena, mistério, histórias embaladas em lendas e mitos como “O Mundo Perdido”, nas antigas Guianas, que inspirou Sir Conan Doyle, criador do Sherlock Holmes, caminhos fantásticos e maldições terríveis de El Dorado, onde o conquistador Luiz Daza teria capturado um chefe indígena equatoriano vestido com uma armadura de ouro. A Amazônia abraça nove países: Brasil, dono do maior quinhão, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana (ex-inglesa), Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela.

A chamada Amazônia Legal surgiu com a lei n° 1.806/1953, sancionada por Getúlio Vargas, revogada e substituída por Castello Branco pela de n° 5.173/1966, com fins estratégicos e para criar a Sudam (Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia). É dividida entre nove estados: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, e distribuída em mais de 5,2 milhões de km², ou 61% do território nacional, uma área que representa 60% do total da já bem devastada “rain forest” latino-americana, o que significa mais de 50% das florestas tropicais de todo o planeta. Possui apenas 23 milhões de habitantes, metade do estado de São Paulo.

Árvores e plantas da cultura amazônica adornam nossos parques e residências, como a vitória-régia, o timbó e o tambatajá, que deu título à música recolhida por Waldemar Henrique, tal qual” O Boto”, frequentemente cantada por todos os corais do Brasil – reza a lenda que para explicar a gravidez da filha a mãe diz que ela mergulhou no rio e lá estava o boto, daí… ”Foi boto, sinhá / que veio tentá / e a moça levou / Tajá-panema se pôs a chorar / quem tem filha moça / é bom vigiá” (folclore semelhante ao do “cabeça de cuia”, redemoinho do Parnaíba). Salve o uirapuru, pássaro lindo e garboso, ave que paira na copa mais alta da mais alta árvore, conta a lenda que um príncipe encantado, e canta maviosamente: Villa-Lobos dedicou-lhe uma obra magistral que leva o nome do pássaro e tem um curioso instrumento como coadjuvante: o violinofone, de som arranhado e desagradável, uma espécie de violino com uma corneta de gramofone acoplada. Segundo a lenda dos nossos tupis-guaranis, uma linda índia seduziu o pássaro, e, como em um conto de fadas, transformou-o no mais belo e forte cacique da floresta, e seu canto até hoje é de todos o mais admirado.

Para Alexander von Humboldt (1759-1869), cientista prussiano cortejado por ninguém menos do que Goethe, investigar terras opostas à Europa ajudaria a compreender melhor o Velho Mundo. Aportou na Venezuela em 1799, passou pelas Guianas mas, ao tentar entrar no Brasil via Pará, foi proibido pelo governador português; assim mesmo, prosseguiu viagem e pesquisas. O francês Jules Verne (1828-1905), autor de “Vinte Mil Léguas Submarinas”, escreveu “O Soberbo Orenoco”, acerca do rio do mesmo nome e o caudaloso Amazonas, incursões que também fizeram Alejo Carpentier, Joseph Conrad, Jean Mormand e diversos outros. E se desde aqueles tempos a Amazônia seduz, sua aura de magia é inspiradora. Os indígenas, nativos daquelas terras desde muito antes de espanhóis e portugueses por aqui chegarem, fazem parte de um mistério de inúmeras línguas, como na Cabeça do Cachorro, noroeste do Amazonas. Ali são abrigados 23 povos diferentes e os dialetos baniwa, tukano, nhengatu, werekena, wanano, kuebo e kuripako, além do espanhol e do português. O índio baniwa Luís da Silva, de São Gabriel da Cachoeira, fala nada menos do que 19 dialetos e idiomas. Ele se pergunta “E agora? Como é que a gente vai ficar? Sem nada, sem cultura, sem mito, sem história?” (revista Fapema, 11/08/09).

Em busca de respostas e para satisfazer sua paixão pela Amazônia, nomes como Marechal Rondon, irmãos Villas-Boas, Antônio Brand, Sidney Possuelo e Noel Nutels, entre muitos outros, conheceram as matas, conviveram com os nativos, aprenderam com eles e vislumbraram naquelas gentes um pouco de nossas origens mais remotas. Outros, como Chico Mendes, de Xapuri, ativista ícone da luta pela floresta e seus nativos, tiveram menos sorte: Mendes foi assassinado a tiros de escopeta em 1988 por Darci Alves, por ordem do pai deste, Darly Alves, “xerife” dos grileiros da região. A missionária e ambientalista norte-americana naturalizada brasileira Dorothy Stang, pouco antes de ser morta brutalmente com seis tiros em 2005, segundo testemunhas mostrou aos seus algozes uma Bíblia, dizendo “eis a minha arma!” – e sussurrou algumas bem-aventuranças. O ambientalista José Cláudio Ribeiro e sua esposa Maria moravam na região do Marabá, no Pará. Recebiam frequentes ameaças de morte e também foram vítimas de capangas dos chefões locais em 2011.

Em 5 de junho de 2022, o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico do The Guardian, Dom Phillips, desapareceram no vale do rio Javari, noroeste do Amazonas, segunda maior área indígena do país. Ambos eram amados pelos nativos, e os amavam. Mas prevaleceram os garimpeiros, os grileiros, o agronegócio, o tráfico de drogas e armas, os estupros, o desmatamento, tudo sob os tentáculos dos obcecados pela posse de terras e riquezas, poderosos com jagunços no cabresto e sob as vistas grossas das autoridades. Apesar da pressão mundial, pouco mais do que restos humanos e um barco foram encontrados. Partes dos corpos esquartejados foram reconhecidas pelos familiares, ensejando-lhes e aos amigos indígenas o direito de realizarem um funeral digno.

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