
Frente às eleições deste 4 de outubro, o Brasil não se reúne em torno de certezas: reúne-se, apesar das dúvidas. A psicanalista Camila Camaratta traduz com precisão, pelo artigo “Mal-estar cívico: quando a desconfiança nas instituições vai além da polarização”, esse sentimento difuso que ultrapassa a polarização ruidosa das redes sociais.
Sustenta ela que, no momento, o que mais aflige não é apenas a divergência de projetos, mas esse “mal-estar cívico” nascido da perda de confiança nas regras que deveriam valer para todos.
A psicanalista lembra que nenhuma vida coletiva é possível sem limites. E, mais importante, que aceitamos esses limites não por resignação, mas por confiança na reciprocidade.
“Quando a regra é reconhecida como comum, posso suportar que ela me limite. Quando começo a acreditar que ela limita a mim, mas não ao outro, a renúncia deixa de parecer civilizatória e passa a ser vivida como injustiça.” Essa frase explica muito sobre o sentimento coletivo na atualidade.
Os dados apresentados no artigo tornam esse sentimento mensurável. O Índice de Confiança Social 2026, da Ipsos-Ipec, registra um patamar baixo de confiança nas instituições.
Ao mesmo tempo, pesquisa do Datafolha revela uma contradição aparente: 71% dos brasileiros reconhecem que o Supremo Tribunal Federal é essencial para proteger a democracia, enquanto 76% afirmam que seus ministros têm poder demais.
Porém, não há contradição real. O que existe é um diagnóstico preciso de desconfiança: reconhece-se a importância da instituição, mas questiona-se a extensão do poder de seus ocupantes.
Esse paradoxo se repete em relação ao Legislativo e ao Executivo. Cobramos atitudes, mas duvidamos da disposição de quem governa e legisla em se submeter às mesmas regras que impõem ao cidadão comum.
Aí, por consequência, quando a reciprocidade se rompe, o resultado é o desamparo. A sensação de que o jogo não é justo corrói a base sobre a qual a democracia foi erguida.
Ainda mais pertinente é a distinção proposta por Camaratta entre a instituição e quem a ocupa. “Uma instituição não é quem temporariamente a ocupa.” A frase é uma bússola. Ela autoriza — e obriga — a criticar presidente, ministros, deputados e demais autoridades sem que isso signifique atacar a própria ideia de Judiciário, de parlamento ou de governo. Questionar a atuação de pessoas não equivale a destruir os pilares que protege a todos da “tirania” e do “arbítrio”.
É nesse ponto que o debate eleitoral precisa ser reposicionado. Diante do descontentamento generalizado, de angústia com a segurança pública, de frustração com a saúde, a educação e a economia, a tentação autoritária abre suas asinhas de abutre.
Promessas de “mão forte”, soluções rápidas e definitivas, de extermínio da corrupção por decreto, silenciamento dos adversários em nome da ordem, sempre soam sedutoras quando o mal-estar cívico atinge seu pico.
Mas, é aqui que precisamos lembrar, com toda a clareza que o momento exige, daquela máxima que deveria ser o pilar inegociável da vida republicana: “não se pode cogitar matar o doente para acabar com a doença”.
A metáfora é dura, mas necessária. A democracia é o paciente ferido que caminha tortuoso, às vezes lento demais, às vezes confuso, sujeito a febres e infecções.
No entanto, a alternativa à sua cura — que é o aprimoramento constante, a vigilância cidadã, a cobrança institucional e a paciência com os ritos do debate — jamais pode ser a extinção.
E a experiência histórica brasileira e mundial ensina, sem exceção, que o regime que nasce do enterro da democracia não é um cirurgião salvador: é um carrasco que, primeiro, silencia as vozes, depois prende os corpos e, por fim, apaga as memórias.
É compreensível que a indignação leve ao desejo do fim do que “está aí”. O que não é racional é acreditar que o fim das instituições resolverá os problemas que elas, hoje, carregam.
A democracia não é um sistema perfeito, mas segue como o único que permite corrigir seus próprios erros sem derramar sangue. É o único regime em que o cidadão pode questionar o juiz, fiscalizar o político, protestar contra o governante e, ao fim de um ciclo, substituí-los nas urnas — sem que seja preciso recorrer a quartéis, milícias ou golpes.
O desafio das eleições de 2026, portanto, não se resume a escolher entre candidatos ou programas. É um desafio mais profundo: decidir se continuaremos a apostar em remédios amargos para salvar a democracia — que exige paciência, participação e cobrança — ou se embarcaremos nas falsas promessas da cirurgia radical, que sempre termina com o paciente morto e a doença, intacta.
A lição que o artigo de Camaratta deixa é a seguinte: “a polarização não é a doença”, senão um “sintoma”. A doença é a perda de confiança nas regras comuns. E o único tratamento eficaz para ela é a reafirmação da democracia, com todas as suas imperfeições, todos os seus ruídos e toda a sua lenta, dolorosa e indispensável capacidade de autocorreção.
Neste domingo, ao depositar seu voto, lembre-se: mais importante do que qualquer bandeira, qualquer projeto ou qualquer personalidade, é a decisão de não abrir mão da democracia.
Porque, sem ela, não haverá saúde, educação, segurança ou economia que valha a pena. Sem ela, não haverá sequer a liberdade de reclamar do remédio que não curou — e de exigir outro, na eleição seguinte.
Que a escolha das urnas seja, antes de tudo, uma escolha pela permanência da única forma de governo que nos permite continuar escolhendo.
Finalmente, quem concorda ser a liberdade (“de fato”) não negociável, precisa, com profundo e dedicado afinco, ponderar que mais importante que as eleições de 2026 seriam as de 2030, com a explícita mensagem, pelo voto de cada um, de que esse futuro pleito deve ser “sagrado”!








