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    Cultura e turismo com seu (merecido) espaço próprio

    Em um país onde a cultura tantas vezes precisa disputar atenção e recursos com questões (aparentemente) mais visíveis, reconhecer sua importância também significa dar a ela condições concretas para existir, planejar-se e crescer.

    Em Tatuí, essa discussão ganha especial relevância: a cidade acaba de conquistar o título de estância turística e celebra, em 2026, seus 200 anos de história.

    Neste momento, portanto, a proposta de separar a atual Secretaria Municipal de Esporte, Cultura, Turismo e Lazer em duas pastas merece franco apoio.

    O projeto de lei 15/2026, encaminhado pelo Executivo à Câmara Municipal, propõe a criação da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo e a redefinição das atribuições da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer.

    A proposta parte de uma constatação pertinente: quatro áreas de grande amplitude, cada qual com políticas, equipamentos, programas e interlocutores próprios, estão hoje reunidas em uma única secretaria. Dar a elas estruturas administrativas mais específicas pode favorecer o planejamento e permitir que cada setor receba a atenção necessária.

    A cultura não é um complemento decorativo da vida pública. Está presente na formação das pessoas, na preservação da memória, na educação, na produção artística, na identidade das comunidades e na possibilidade de diferentes grupos expressarem suas experiências.

    Ainda assim, no Brasil, é comum que as políticas culturais sejam tratadas como secundárias, sujeitas a interrupções, falta de recursos e decisões de curto prazo.

    A criação de uma secretaria própria para cultura e turismo não resolve, por si só, esse histórico, mas pode ajudar a enfrentá-lo: torna mais explícita a responsabilidade administrativa e oferece um espaço institucional dedicado à formulação e à continuidade das políticas.

    Para Tatuí, essa necessidade é particularmente evidente. A música integra profundamente a identidade do município, reconhecido como Capital da Música.

    A cidade também possui uma história literária ligada a Paulo Setúbal, manifestações artísticas diversas, patrimônio material e imaterial, equipamentos culturais e tradições que atravessam gerações.

    Esse conjunto não se preserva sozinho. Precisa de políticas de formação, fomento, acesso, conservação e divulgação — e de uma estrutura capaz de coordená-las.

    A proposta prevê que a nova pasta formule e execute políticas culturais e turísticas, acompanhe o Plano Municipal de Cultura e o Plano Diretor de Turismo, cuide da preservação do patrimônio e dos acervos, fomente as artes, a música, a economia criativa e as manifestações tradicionais, além de coordenar ações em articulação com conselhos municipais e demais órgãos competentes.

    São atribuições amplas, que exigem planejamento contínuo e diálogo com artistas, produtores, instituições, empreendedores e a população.

    A recém-conquistada condição de estância turística amplia essa responsabilidade. O título é um reconhecimento importante, mas também traz expectativas e deveres.

    Para que Tatuí consolide sua posição, não basta divulgar seus atrativos ou realizar eventos: é preciso organizar a oferta turística, qualificar os serviços, acolher visitantes e preservar aquilo que torna a cidade singular.

    Cultura e turismo têm uma relação direta. A música, a história, a gastronomia, as festas e o patrimônio podem compor oportunidades que movimentam a economia e, ao mesmo tempo, fortalecem a identidade local.

    Essa conexão não deve, porém, reduzir a cultura a um instrumento de atração de visitantes. Seu valor não depende apenas do retorno econômico ou do número de pessoas que participam de uma atividade.

    A cultura também é direito, criação, memória e participação cidadã. Uma secretaria que reúna cultura e turismo precisará preservar esse equilíbrio: promover a cidade e seus atrativos, sem deixar em segundo plano a produção cultural cotidiana e o acesso dos próprios moradores.

    A separação também pode beneficiar o esporte e o lazer, áreas que igualmente demandam políticas públicas permanentes. Com uma pasta voltada a essas atividades, será possível dedicar atenção específica à prática esportiva, à recreação, aos espaços públicos e à participação de pessoas de diferentes idades.

    Reconhecer a importância de cultura e turismo não significa diminuir o esporte e o lazer. Significa admitir que todos esses campos são relevantes demais para depender de uma estrutura excessivamente concentrada.

    A justificativa do projeto indica cautela na reorganização. A mudança prevê a passagem de 14 para 15 secretários municipais, sem ampliar automaticamente os demais cargos e referências existentes.

    Também estabelece regras para a transição de servidores, bens, equipamentos, acervos, contratos e programas, de modo a preservar a continuidade dos serviços.

    Os efeitos administrativos, funcionais e orçamentários da nova estrutura estão previstos para 1º de janeiro de 2027, permitindo a compatibilização com o orçamento do próximo exercício.

    Outro ponto importante, a partir da esperada alteração, é o de se manter a articulação entre as áreas. Cultura, turismo, esporte e lazer podem ter secretarias distintas, mas continuam se encontrando em eventos, espaços públicos, programas comunitários e ações de desenvolvimento.

    Separar órgãos administrativos não deve criar barreiras entre equipes; deve permitir que cada uma se especialize e, ao mesmo tempo, coopere com as demais.

    No ano em que Tatuí celebra seu bicentenário, discutir a organização das políticas públicas é parte da própria reflexão sobre o futuro da cidade. Os 200 anos não são apenas uma ocasião para relembrar conquistas e personagens: são também uma oportunidade para decidir que lugar terão, daqui em diante, a cultura, o turismo, o esporte e o lazer na vida do município.

    Por essas razões, deve-se apoiar a proposta de criação das Secretarias Municipais de Cultura e Turismo e de Esporte e Lazer. Tatuí precisa de uma estrutura compatível com a importância de suas áreas culturais e com as responsabilidades que acompanham o título de estância turística.

    O projeto é um passo promissor — desde que se converta em políticas consistentes, investimento, continuidade e mais oportunidades para a população.

    Uma cidade que celebra sua história deve também cuidar das condições que permitem à cultura continuar sendo criada, compartilhada e transmitida. Aos 200 anos, Tatuí tem razões de sobra para reconhecer que esse trabalho merece espaço próprio.