Mais
    Início Colunas Editorial A importância da arte a quem ainda é humano

    A importância da arte a quem ainda é humano

    A insistência da humanidade em produzir, preservar e discutir arte há milênios sugere algo óbvio e, ao mesmo tempo, difícil de formular em linguagem “técnica”: sem arte, algo essencial em nós se atrofia.

    As perguntas que Filipe Salles – professor da Unicamp, pesquisador e autor do livro “Harmonia Mundi: Uma Visão Integradora da Arte e da Ciência” – apresenta em recente artigo – “para que serve a arte?”, “por que ela nos conforta e emociona?”, “por que alguns se sacrificam por ela?” – apontam para o tamanho do desafio.

    Ele lembra que, apesar de todo o avanço científico, seguimos sem uma resposta categórica. Há respostas parciais, situadas em épocas, culturas e disciplinas; não há uma lei geral. Esse impasse, longe de diminuir a arte, é precisamente o que torna urgente defendê-la como um dos pilares da própria humanidade do ser humano.

    Ao revisar as explicações clássicas, Salles mostra seus limites. A tese da arte como mera necessidade social de “coerência cultural” falha porque até sociedades pequenas e pouco complexas desenvolveram práticas artísticas sofisticadas.

    A ideia de que a arte nasce só da “livre expressão individual” também não basta: todos somos capazes de nos expressar, mas nem todo gesto expressivo se torna arte; e nem todo artista tem o mesmo peso histórico.

    Ao mesmo tempo, espécies com altíssimo grau de organização social – formigas, abelhas – não produzem nada que reconheçamos como arte. Ou seja: não basta socializar, comunicar ou manter tradições para explicar o fenômeno artístico.

    Nesse ponto, o autor toca em um nervo exposto: há correntes contemporâneas que sustentam que a arte “não serve para nada”. A crítica de Salles é correta: afirmar que algo que mobiliza recursos, tempo, emoções, sentidos e instituições em todas as culturas não serve para nada é, no mínimo, uma contradição lógica.

    Essa alegação diz mais sobre o estreitamento de certos critérios de utilidade do que sobre a arte em si. Se só reconhecemos como “útil” o que tem efeito imediato, mensurável e econômico, tudo o que diz respeito à dimensão simbólica, ética ou afetiva da vida tende a ser desqualificado – e, com isso, abre-se espaço para uma sociedade tecnicamente sofisticada e emocionalmente empobrecida.

    A contribuição maior do artigo está em apontar que o problema talvez não esteja na arte, mas no modo como tentamos enquadrá-la. O método científico clássico – observação, hipóteses, experimentação, replicação, formulação de leis – foi extraordinariamente bem-sucedido para descrever fenômenos físicos.

    Porém, como lembra Salles, ele encontra barreiras quando tenta capturar experiências estéticas e espirituais: não há “experimentos de laboratório” capazes de reduzir a experiência de ouvir uma sinfonia, ver um quadro ou ler um poema a uma lei geral que possa ser testada e repetida nas mesmas condições.

    As neurociências avançaram ao mapear correlações entre estímulos artísticos e padrões de ativação neural, mas, como o próprio autor sublinha, esse tipo de abordagem deixa lacunas inevitáveis.

    Saber quais áreas do cérebro “acendem” diante de uma obra não explica por que uma música arranca lágrimas de uma pessoa e indiferença de outra, nem por que determinadas formas ou narrativas atravessam séculos.

    Salles sugere que, para compreender a arte, talvez seja necessário admitir um “sistema psíquico” que interage com o físico – uma dimensão subjetiva, autônoma e interdependente, que não se esgota em descargas elétricas.

    Em outras palavras: se quisermos uma ciência que explique a arte, precisaremos de uma ciência que leve a sério a experiência interior. Esse argumento tem implicações diretas para o debate público.

    Quando tratarmos a arte apenas como entretenimento, ornamento ou “luxo”, negligenciamos sua função profunda: articular essa zona de interseção entre mente e matéria, entre o que sentimos e o que conseguimos nomear.

    A arte organiza emoções, dá forma ao indizível, permite que traumas coletivos sejam simbolizados em vez de apenas repetidos. Ela cria espaço para que cada um reconheça a sua própria interioridade – e a interioridade dos outros – em tempos em que tudo conspira para nos reduzir a perfis, métricas e comportamentos previsíveis.

    É diante disso que a defesa da arte como meio de sustentar a humanidade do ser humano deixa de ser retórica e passa a ser política. Defendendo que a arte merece lugar central em escolas, praças, políticas públicas e debates, estamos, de fato, atuando pela possibilidade de um tipo de sensibilidade que o método e o mercado, sozinhos, não produzem.

    Sem arte, a técnica tende a se tornar indiferente ao que nos faz sofrer ou florescer; a vida social pode até funcionar, mas corre o risco de se tornar vazia de propósitos.

    Neste sentido, vale registrar, as experiências concretas de cidades como Tatuí ajudam a materializar esse raciocínio. Investindo de maneira consistente em literatura, música e memória, o município faz mais que “fomentar cultura”: oferece à população mecanismos simbólicos para se reconhecer, narrar sua história e elaborar os próprios conflitos.

    A Semana Paulo Setúbal, os concursos Paulo Setúbal, os editais de publicação de livros e de composição musical, a restauração de monumentos como “O Condutor” e o incentivo a jovens autores – inclusive, estudantes com TEA – são exemplos de como arte, educação e cidadania podem se articular.

    Nessas iniciativas, a função da arte fica evidente: não é apenas decorar o espaço urbano ou preencher o horário escolar, mas criar vínculos, abrir perspectivas, ampliar repertórios e oferecer horizontes de identificação.

    Quando um aluno escreve seu primeiro conto para o concurso, quando um grupo visita o museu e se descobre na história local, quando uma obra pública é restaurada e devolvida à cidade, confirma-se, na prática, o que o artigo de Filipe Salles sustenta em termos teóricos: a arte atua sobre o “sistema psíquico” coletivo, operando transformações que não cabem em tabelas, mas se traduzem em autoestima, senso de pertencimento e capacidade de imaginar futuros.

    Valorizar a arte, portanto, não é apenas defender artistas ou instituições culturais: é proteger uma camada de humanidade que nenhuma tecnologia substitui.

    Aprofundar os argumentos de Salles é, portanto, uma forma de afirmar um compromisso: se a ciência tradicional não consegue, sozinha, responder para que serve a arte, isso não diminui sua importância; apenas indica que a própria ciência precisa se abrir a novos paradigmas, capazes de incluir a subjetividade na compreensão da realidade.

    Até lá, uma evidência permanece: onde quer que a arte é sufocada, a brutalidade aumenta. Onde ela é estimulada, a possibilidade de empatia, reflexão e transformação se amplia.