
Aqui, Ali, Acolá
José Ortiz de Camargo Neto *
Houve um tempo em que Tatuí era conhecida nos arredores como “A Terra de Chico Sonho”. Por causa dessa fama, o povo das redondezas tinha um medo tremendo da gente tatuiana.
Pudera: Chico Sonho era um matador profissional a serviço da politicagem da época. Recebia para encomendar almas e, depois do serviço feito, usava a própria cadeia pública como esconderijo. Seus crimes correram o Estado; ele era, guardadas as devidas proporções, uma espécie de Lampião solitário do Sudeste.
Mas a figura do temido jagunço também despertava paixões platônicas. Lembro-me bem de dona Vicentina, grande amiga de minha mãe, que ia sempre lá em casa. As duas se sentavam na cozinha para tomar um café e conversar, e eu, menino com o ouvido afiado, ficava só registrando.
Dona Vicentina suspirava: — Que homem, Marina! Eu era apaixonada por ele! Usava capa, chapéu caído de lado, parecia um artista de cinema… Ai, como eu queria ter casado com aquele homem!
Essa aura de perigo que rondava os nascidos em Tatuí acabou virando uma espécie de “escudo protetor” involuntário. Meu pai, o Vicentinho, foi certa vez a um baile em Sorocaba acompanhado de seu primo, o saudoso Orestes.
No meio da festa, por um motivo qualquer que o tempo apagou, um grupo de sorocabanos começou a cercá-los, dispostos a cair de pau sobre eles. Sem demonstrar um pingo de hesitação, o primo de meu pai se levantou, estufou o peito e bradou: — Vamos lá, Vicentinho! Vamos mostrar para essa turma do que são capazes os tatuianos!
Foi um santo remédio. Ao ouvirem a palavra mágica, os sorocabanos empalideceram e saíram em disparada, gritando uns para os outros: — Sumam daqui! Corram que eles são da terra de Chico Sonho!
É aqui que entra a história do tatuiano mau.
Aproveitando-se da fama da cidade, Jaime — um tatuiano, resolveu testar a paciência dos vizinhos. Certo meio-dia, invadiu um movimentado restaurante no centro de Itapetininga.
Usava um chapéu de abas largas, capa esvoaçante, botas de cano alto com esporas barulhentas e trazia uma espada de esgrima presa à cintura. De um salto, trepou numa das mesas e, sapateando com força, berrou para o salão lotado:
— Sou tatuiano! Tem algum homem aqui que queira se bater comigo?!
E sapateou de novo, fazendo os pratos chacoalharem.
O silêncio foi absoluto. Dava para ouvir a respiração dos clientes. Alguns seguravam xícaras e talheres no ar, com as mãos tremendo. Ninguém ousava encarar o espalha-brasas.
Satisfeito com o terror que plantara, o falso valentão estufou o peito e provocou mais alto:
— O que foi? Não tem homem nesta cidade para encarar este tatuiano aqui? Sou de Tatuí, berço de cabra macho! — e deu mais um sapateado triunfal.
Foi então que, lá no fundo do restaurante, a cadeira de uma mesa de canto rangeu pesado.
Era o Chico Tonelada.
O homem era um armário de dois metros de altura, com braços que pareciam troncos de eucalipto — mais grossos que as coxas de Jaime — e uma fisionomia que faria o Mike Tyson pedir desculpas. Sem pressa, Chico levantou-se, caminhou a passos lentos até a mesa do valentão:
— Tá aqui o homem! Pode vir!
O silêncio congelou o ambiente. Jaime olhou para baixo, engoliu em seco e encarou aquele tanque de guerra em forma humana. Sentindo o suor frio escorrer pelas costas, ele abriu um sorriso amarelo, tirou o chapéu e disse, rindo nervosamente:
— Caramba… Não se pode nem brincar?
* Jornalista e escritor tatuiano.




