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    O peso de uma escolha

    Aqui, Ali, Acolá

    José Ortiz de Camargo Neto *

    Tenho pensado muito no que teria acontecido se, naquele julgamento de fachada em Jerusalém, os presentes tivessem escolhido Cristo ao invés de Barrabás.

    Não se sabe ao certo quem compunha a turba que condenou Jesus. Naquele simulacro de justiça, feito às ocultas, na madrugada, o povo de Jerusalém estava recolhido em suas casas, dormindo a sono solto.

    Estivesse acordado, possivelmente teria protestado contra a prisão de Cristo e jamais escolheria Barrabás, pois, pouco tempo antes, havia estendido ramos à passagem de Jesus, saudando-o como O Filho de Davi e Rei de Israel.

    Sabe-se que quem gritou Barrabás foi um grupo reunido pelos ocupantes do Sinédrio, sobretudo os falsos sacerdotes que há muito tempo não provinham da linhagem sacerdotal de Israel, mas eram prepostos corruptos nomeados por Roma ou pelo rei monstruoso Herodes, que matou a própria esposa e três filhos por medo de perder o poder. Convém lembrar que Herodes tampouco era da linhagem real israelita.

    Talvez, na multidão que condenou Jesus houvesse também muitos visitantes de Jerusalém que tinham vindo para a Páscoa e, por não conhecerem o Divino Mestre, foram iludidos pelos pseudosacerdotes.

    Os quatro evangelistas (Mateus, Marcos, Lucas e João) descrevem a multidão no julgamento de Jesus, deixando claro que ela não agiu por iniciativa própria, mas foi induzida e incitada pelas lideranças religiosas da época (os principais sacerdotes e os anciãos).

    Barrabás era um zelote assassino, um homem que pretendia resolver os problemas sociais e políticos por meio da força e da violência. A multidão desavisada e iludida, preferiu o braço armado à mensagem da paz.

    O preço dessa escolha guiada, teve trágicas consequências, até para o povo inocente, décadas depois. No ano 66 d.C. — exatamente 33 anos após a crucificação —, os zelotes lideraram uma grande rebelião contra o Império Romano.

    O radicalismo cegou as facções rebeldes e três partidos de zelotes guerrearam entre si dentro das muralhas, chegando ao ponto de queimar e destruir os estoques de alimentos uns dos outros. O general romano Tito precisou apenas esperar.

    Após dois anos de um cerco implacável, quando a fome já devastava Jerusalém, os romanos finalmente atacaram e a destruição foi total. O templo e a cidade vieram abaixo. O historiador Flávio Josefo estimou o número de mortos em 1,1 milhão, enquanto historiadores modernos sugerem cerca de 100 mil vítimas fatais.

    Além disso, 97 mil judeus foram escravizados e vendidos por Roma; muitos terminaram nas minas de prata, onde a expectativa de vida não passava de dois anos.

    O que teria acontecido se verdadeiros sacerdotes e verdadeiro rei, liderando o povo, tivessem escolhido ao invés do guerrilheiro, o Mensageiro da Paz?

    O que aconteceu naquele tempo, continua ainda em nosso tempo. Quantos Barrabás não vimos ascender ao poder sob o delírio das multidões? Hitler e Stalin são apenas alguns trágicos exemplos.

    A esperança é que finalmente o ser humano adote o caminho da paz e do consenso para resolver suas dificuldades. O caminho de Cristo e não o de Barrabás.

    Até breve.

    * Jornalista e escritor tatuiano.