
Da redação
Brian Pietro Telles Coelho, de 13 anos, estudante da rede estadual de ensino e pessoa com transtorno do espectro autista (TEA), lançou o livro “Blacknight”, obra contemplada pelo edital “Publicação de Livros”, promovido pelo Museu Histórico “Paulo Setúbal”, da prefeitura da estância turística de Tatuí.
Com o projeto “Autistas também têm o dom da escrita”, Brian apresenta uma narrativa “envolvente e sensível”, descreve a comunicação do Executivo.
A obra conta a história de Eddie, um adolescente que enfrenta o bullying e o isolamento escolar, até “mergulhar em um universo sombrio, onde precisa lidar com uma versão oposta de si mesmo”. Entre elementos de ação e fantasia, o livro aborda temas como identidade, autoconhecimento e superação.
“A profundidade da narrativa se revela em reflexões marcantes, como no trecho: ‘A maior luta que você enfrentará não será contra os outros, mas contra si mesmo!’. Mais do que ficção, a obra carrega traços da vivência do próprio autor”, aponta a comunicação.
Em sua biografia, Brian destaca a escrita como principal forma de expressão: “A escrita é minha forma de externar o que sinto”. Ele celebra a conquista como a realização de um sonho.
A trajetória do jovem escritor é marcada pelo incentivo familiar. Sua mãe, Agnes Natacha Telles Coelho, lembra que ele demonstrava desde pequeno o interesse pela escrita e a leitura.
“Aos sete anos, começou a fazer seus quadrinhos, criando seus personagens. Vendo isso, sempre o incentivamos, mesmo sem saber que ele era autista”, diz a mãe.
“Percebíamos que havia muitas coisas que não eram comuns para uma criança, mas ainda não entendíamos. O diagnóstico chegou quando ele estava com 11 anos e meio”, segue ela.
“Eu, como mãe, costumo dizer que não foi uma sentença, mas sim uma vírgula de respiro para sabermos como seguir a partir dali. Com muito custo, conseguimos comprar um computador, onde ele passou a escrever suas músicas e histórias”, acrescenta.
Ainda segundo a mãe, “esse livro ele escreveu em um único dia. Quando li, me emocionei muito, porque ali ele colocou a realidade de muitas pessoas que, por serem vistas como diferentes, acabam sofrendo”.
“Eu, como mãe de dois filhos dentro do espectro, sei das dificuldades e não romantizo o autismo, mas também sei o quanto eles são capazes. Lutamos todos os dias para que sejam vistos pela sociedade como pessoas capazes. O autismo não é fácil, mas é cheio de vitórias, e ver o sonho do meu filho sendo realizado é algo muito emocionante”, declara Agnes.
Na Escola Estadual PEI “Chico Pereira”, Brian contou com o apoio da professora da Sala de Recursos, Maria Cristina Manis, que acompanhou de perto o desenvolvimento dele.
“Eu já tinha visto alguns quadrinhos feitos por ele e percebia, nos atendimentos, sua facilidade na língua portuguesa. Um dia, ele me contou que tinha escrito um livro, e eu pedi para ver. Quando li, confesso que não acreditei que ele tinha feito aquele conto”, garante a educadora.
“Cheguei a procurar na internet para entender de onde vinham aquelas ideias e fiquei ainda mais surpresa ao perceber que tudo tinha sido criado por ele, e que muito do que estava ali tinha relação com a própria vida dele. A escrita foi a maneira que ele encontrou de expressar o que não conseguia verbalizar”, observa Maria Cristina.
“A partir disso, fui me aproximando mais, fizemos revisões, organizamos o livro (número de páginas, índice) e, durante esse tempo, eu o ouvia e incentivava, porque sempre acreditei no potencial dele. Imprimi algumas cópias e fizemos uma apresentação na escola”, narra a professora.
“Com o apoio da equipe, surgiu a ideia de inscrevê-lo no edital. Tenho um carinho imenso por ele e por sua família, e essa conquista mostra para a sociedade que não existem limitações para quem tem dom, apoio e incentivo”, sustenta Maria Cristina.
A participação no edital surgiu a partir desse incentivo escolar e foi reconhecida pela relevância cultural e social do projeto, “ao valorizar a produção literária local e promover a inclusão”.
Na terça-feira da semana passada, 24 de março, Brian realizou a entrega oficial da obra, acompanhado dos familiares Cosme Coelho da Costa (pai), Agnes Natacha Telles Coelho (mãe) e Derek Lorenzo Telles Coelho (irmão).
A publicação foi recebida pelo secretário-adjunto da Cultura, Rogério Vianna, e pelo diretor de Museus e Memória, Cristiano Guimarães, marcando o momento para o lançamento do livro.
De acordo com o secretário-adjunto, a criação de uma vaga específica para alunos da rede de ensino no edital surgiu a partir da escuta de jovens durante um encontro literário realizado na Biblioteca Municipal “Brigadeiro Jordão”.
A iniciativa resultou na oportunidade que agora consolida Brian como o primeiro estudante a ter uma obra publicada por meio desse incentivo público.
O lançamento oficial de “Blacknight” acontecerá no dia 11, às 11h, na Praça da Matriz, integrando as ações de conscientização sobre o autismo no município.
“O momento marca não apenas a estreia literária do jovem autor, mas também a valorização da diversidade, da inclusão e do potencial de pessoas com TEA”, argumenta a comunicação da prefeitura.








