Fábrica São Martinho de Tatuí vai ser submetida a inventário inédito

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São Martinho pode ser reconhecido como patrimônio histórico nacional (Foto: Arquivo O Progresso)
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Da reportagem

Como parte do processo de estudo para o tombamento federal da fábrica São Martinho, uma comissão formada por técnicos e especialistas encabeçará uma metodologia de pesquisa inédita em Tatuí.

O método, chamado “inventário participativo”, é baseado em um processo de escuta das pessoas e grupos sociais que, de alguma forma, tiveram envolvimento com o complexo fabril e servirá para endossar o pedido de reconhecimento da fábrica São Martinho como patrimônio histórico nacional.

O processo, para um possível tombamento federal do conjunto arquitetônico, está em andamento no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). O órgão aceitou dar início à análise do procedimento por meio de requerimento do vereador Eduardo Dade Sallum (PT) – representante do Movimento Popular Práxis.

O parlamentar apresentou o pedido na Câmara Municipal no dia 23 de abril de 2018. Depois de aprovado pelo legislativo local, o pedido foi protocolado e submetido à análise do Iphan de São Paulo e, em junho de 2019, o órgão abriu o processo de tombamento número 1874-T-19.

Para dar continuidade à análise, em maio do ano passado, o superintendente substituto do Iphan de São Paulo, Ronaldo Cunha Ruiz, enviou um ofício ao vereador solicitando novos documentos.

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O órgão pediu cópia do projeto original do imóvel, com informações sobre o idealizador e época em que foi elaborado e implantado; plantas da localização na malha urbana; plantas de reformas; além de histórico, reportagens, fotos, entre outros materiais que comprovem a importância do complexo.

O levantamento dos documentos está sendo feito pela Práxis em parceria com a arquiteta Maíra de Camargo Barros, que é integrante do Condephat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Artístico de Tatuí) e está escrevendo um livro sobre o histórico arquitetônico do complexo fabril (reportagem nesta edição).

“Precisamos reunir os documentos requisitados pelo Iphan e convidamos a Maíra. Ela estuda as instalações e o histórico da fábrica há mais de dez anos e reúne um vasto material de pesquisa que vai nos auxiliar muito neste processo até conseguirmos o tombamento”, afirmou Sallum.

Conforme a arquiteta, para que o complexo possa ser considerado patrimônio nacional, o Iphan exige que o bem a ser tombado preencha diversos requisitos, seguindo etapas até a aprovação.

“Nós dissemos ao Iphan que a fábrica era importante para a cidade; agora, eles querem que a gente comprove isso. Esta etapa serve para mostrarmos o histórico e a importância da fábrica. É uma das fases do processo de análise”, explicou Maíra.

Segundo Sallum, além dos documentos solicitados pelo Iphan, o município criará uma comissão que ficará responsável pela elaboração e desenvolvimento do inédito inventário participativo. “Ferramenta que reforçará a importância do tombamento federal do complexo”, acentuou.

A comissão responsável pelo desenvolvimento do inventário será formada por Maíra e pelo vereador, além de integrantes da Práxis, movimentos sindicais e estudantis, historiadores, especialistas, técnicos em preservação de patrimônio histórico, arquitetos e urbanistas, entre outros membros da sociedade.

A iniciativa ainda será desenvolvida por meio do laboratório popular de urbanismo e sustentabilidade da Práxis, responsável por organizar a dinâmica do processo de forma participativa.

A O Progresso, Maíra e o parlamentar destacaram que a ideia de desenvolver o novo método de pesquisa na cidade é uma indicação de Sônia Rampim, coordenadora de educação patrimonial do Iphan, em Brasília.

A profissional mora na capital federal, mas é tatuiana e esteve na cidade no dia 9 de janeiro, durante o período de férias dela, para visitar o complexo.

Sônia esteve no edifício principal da fábrica, na casa da família proprietária (Casarão dos Guedes) e no antigo conjunto de moradias dos trabalhadores.

A visita foi acompanhada pelo secretário do Esporte, Cultura, Turismo, Lazer e Juventude, Cassiano Sinisgalli, pelo vereador proponente do tombamento e pela arquiteta Maíra, além de turismólogos da SECTLJ.

“Eu estava de férias na cidade e liguei na secretaria pedindo para conhecer o espaço, não por eu ser do Iphan, mas pela minha afetividade com Tatuí. Sou tatuiana e tenho bastante interesse por Tatuí”, declarou a coordenadora.

O inventário participativo proposto para o município é uma das ferramentas educativas coordenadas por Sônia, no Iphan, como uma forma de “a própria comunidade se organizar, identificar e ser protagonista no apontamento sobre o patrimônio”.

A coordenadora salientou que o método não é um processo técnico oficial de tombamento, “mas um processo que envolve as pessoas afetivamente, para que elas coloquem os significados e qual a valoração afetiva que esses bens culturais têm para elas”.

Sallum disse que a pesquisa é “uma coisa revolucionária para o Brasil”. “Só houve algo parecido com isso no Centro Histórico de Iguape. É uma coisa que tornaria o tombamento da fábrica São Martinho algo ímpar no país”, acrescentou.

Maíra classificou o inventário como uma forma de elencar os bens culturais e o patrimônio cultural do conjunto fabril em diferentes visões, por ouvir e reunir memórias afetivas de pessoas que fizeram parte da história do lugar.

“Vamos ter diversos pontos de vista e descobrir novos valores sobre o patrimônio. Por exemplo, para mim, enquanto arquiteta, o prédio tem valor histórico lógico. Mas, às vezes, uma pessoa que trabalhou ali, nos teares, vai ter outra visão sobre o que é importante”, exemplificou a arquiteta.

“Sempre tem coisas novas que, às vezes, a gente nem sabe que existe, e aplicar essa metodologia com a população é identificar quais são todos esses valores que a fábrica tem. É mostrar além do daquilo que vemos por fora”, completou.

Segundo Maíra, não há data específica para o início do inventário no município já que, no momento, ela e a Práxis estão trabalhando para reunir os documentos solicitados pelo Iphan. Contudo, disse ter intenção de começar a desenvolver a pesquisa ainda em março.

A arquiteta antecipou ter planejado junto com Sônia, de modo ainda informal, uma série de capacitações sobre o método, com encontros virtuais ou presenciais, voltados às pessoas interessadas a ajudar na captação das informações por meio de grupos de escuta.

“Queremos capacitar pessoas da cidade, que tenham interesse em ajudar, para que elas saibam o que é um patrimônio, consigam fazer as entrevistas e façam o registro das informações colhidas”, detalhou Maíra.

Ela aponta que inventários participativos já foram realizados em outras oportunidades, de forma institucionalizada, sendo a maioria das vezes encabeçada pelo Iphan. Já em Tatuí, a ação será desenvolvida pela comunidade.

“Vamos fazer por amor mesmo. Ninguém está ganhando para fazer isso, não é uma coisa que a prefeitura resolveu fazer. Claro, a gente conta com o apoio de todo mundo, mas é uma iniciativa da população, e acho que este é o diferencial”, salientou Maíra.

“A Sônia é do Iphan, mas, neste projeto, ela ajudará apenas como uma tatuiana interessada no tombamento. Tivemos essa sorte”, observou Maíra, reforçando que a iniciativa será desenvolvida em Tatuí de forma desinstitucionalizada.

Para Sinisgalli, a aprovação do tombamento na instância nacional é quase certa, devido ao valor histórico do complexo fabril para o município e para o país. Ele também elencou a coordenadora do Iphan como aliada no processo.

“Ela é tatuiana, conhece a história da fábrica e tem memórias ligadas ao espaço, assim como a maioria dos cidadãos que aqui residem ou residiram. Nós tivemos sorte de ter a Sônia nos auxiliando no processo, pois o local também tem relevância para ela”, observou o secretário.

O complexo já é tombado pelo estado desde dezembro de 2007, por meio do processo 31.877/94, do Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) de São Paulo.

“A ideia é reforçar a preservação da unidade fabril. Ela faz arte da identidade do município, foi uma das primeiras fábricas têxteis do país e trouxe evolução para a cidade com novas usinas, entre outros investimentos que geraram emprego e renda”, comentou o secretário.

Ele ainda classificou o tombamento nacional como um “importante meio” para a preservação e “salvaguarda” do edifício principal da indústria têxtil, do Casarão dos Guedes e das casas construídas para abrigar os operários.

“Já temos a preservação assegurada pelo conselho estadual e fiscalizada pelo municipal, mas o tombamento pelo Iphan trará reconhecimento, valorização e uma segurança ainda maior para a história do complexo”, completou.

A Companhia de Fiação e Tecelagem São Martinho foi inaugurada em 1881, tendo como fundador Manoel Guedes Pinto de Mello, em sociedade com a mãe, Maria Alves de Lima, e o irmão, João Guedes.

A fábrica, instalada à rua Coronel Aureliano de Camargo, na área central, é pioneira entre as indústrias têxteis no estado de São Paulo e ganhou destaque nacional na fabricação de tecidos, cuja manufatura incluía cobertores e toalhas.

O conjunto fabril soma 10 mil metros quadrados. O complexo era composto por fábrica, casarão de morada dos antigos proprietários (atualmente pertencente a um empresário), 25 casas para moradia dos operários, armazém e farmácia, além de quadra e área livre.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Gostaria que incluíssem uma pessoa para ser ouvida nesse processo. Como faço?

  2. Tudo que se fizer para preservar a Fábrica São Martinho de Tatuí vai me deixar feliz. Ela fez parte de minha infância. Parte de minha formação eu devo a ela. Ela me alimentou, a mim e a boa parte de meus familiares.
    T

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