Terraplanismo e aquaplanagem

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Henrique Autran Dourado

O terraplanismo, ou “terra chata” – que duplo sentido! – originou-se da crença de que o mundo era plano, em forma de disco ou quadrado. A concepção é bastante velha, desde a Grécia dos anos 300 a.C. e das eras do bronze e do ferro, e persistiu até o período helenístico (31 a.C.), e em países como a China, até o século 17!Na contramão, a ideia de uma Terra redonda era revolucionária, passou por Pitágoras (6 a.C.) e os pré-socráticos, que imaginavam um planeta esférico.

Todos os argumentos eram 100% empíricos, tanto do lado dos chatos da terra chata quanto dos que tinham suas ideias voltadas para a esférica, embora esses últimos buscassem alguma consistência e lógica em suposições e ilações para suas teorias. O primeiro grupo, da terra plana, baseava-se apenas em suas crenças, e empregava conceitos absolutamente pseudocientíficos. Não por coincidência, o terraplanismo, nos dias de hoje, é um modismo relacionado a teorias da conspiração e coisas do gênero. Entre os grupos que passaram a cultivar essas ideias pseudocientíficas, estão a International Flat Earth Research Society (IFERS), criada por Samuel Shenton em 1956 no Reino Unido.A partir de 1972, passou a ser dirigida pelo norte-americano Charles Johnson, que afirmou: “a ideia de uma Terra que gira é uma conspiração de erros que Moisés, Colombo e mesmo Roosevelt combateram” (revista Science Digest, 1980).

Antes disso poetas como John Lennon, em “Because” (1960), confirmavam em trovas, poesias e letras sua contradita: “Porque o mundo é redondo / ele me liga…” (Parece que os poetas sempre souberam do formato real da Terra, talvez por sua visão de alcance infinito em divagações). Antes disso, em 1957,a bordo do Sputnik II, uma simpática cachorrinha russa, a terrier Laika, orbitara ao redor da Terra e deveria ter constatado o formato esférico. Deveria, pois apesar de todas as precauções da época morreu durante a experiência.

Em 1961, o piloto soviético Yuri Gagarin lançou-se primeiro homem no espaço sideral e pôde ver a terra linda, azul e redonda, assim como depois seu rival norte-americano, Alan Shepard, Jr. Apesar dos inúmeros voos, fotos, filmes e relatos, os terraplanistas teciam liames com as teorias da conspiração mais absurdas – o mundo estava em uma guerra fria e em corrida espacial e valia de tudo enxergar com maldade as conquistas do inimigo. Se um lado enxergava dúvidas nas conquistas soviéticas, o outro questionava as filmagens da descida de Neil Armstrong na lua, em 1969.

No Brasil, a LHT Higs, conhecida entre nós como Brasil Paralelo, foi fundada em 2016 em Porto Alegre sob a orientação de Olavo de Carvalho, Ernesto Araújo e Flávio Bolsonaro – este último filho do atual presidente da República. Olavo, “astrólogo” e sem qualquer formação acadêmica, reside em Richmond, EUA, e sobrevive à custa de doações on-line feitas por seus “discípulos” a troco de tele aulas que incluem o movimento antivacina, teorias da terra plana e um ingênuo negacionismo da ciência e suas conquistas. Sempre adepto de teorias da conspiração, Olavo inocula em seus pupilos o veneno de uma pretendida nova extrema-direita. Além do filho do presidente, encontra-se entre os seguidores de Carvalho o já citado ministro Ernesto Araújo, cuja péssima atuação sofreu duras críticas dos brasileiros bem informados e da diplomacia estrangeira. Era homem forte da chamada ala ideológica do Planalto,“inamovível” até sua exoneração, em março de 2021.

A esta altura, chegando o final do texto, o leitor deve estar se perguntando o porquê da aquaplanagem do título. Confesso que a palavra ultrapassou-me a mente sem pedir licença, antes de terraplanismo. Um freudiano talvez aponte aí um “lapsus linguæ”, uma troça que o cérebro às vezes deixa escapar, um desvio involuntário do que deveria ter sido enunciado. Ou seja, escapou sem querer querendo, diria aquele personagem cômico mexicano, e não deixa de fazer sentido. Aquaplanagem, segundo o Houaiss (acp 3): “Perda de controle ou equilíbrio de um veículo, causada pela falta de aderência dos pneus à pista molhada”.

Ato falho, é expressão conhecida dos psicanalistas e estudiosos, e acontece no discurso (fala) ou pensamento segundo a ideia de que não surgem por acaso, e sim por intervenção do inconsciente. Popularmente, então, a aquaplanagem, que leva os desavisados do volante a acidentes de grandes proporções, surgiu-me enquanto pensava na gravíssima situação por que passa o Brasil de hoje. Nem um pouco por acaso, então.