Sonhando a saúde e as escolas, a frágil economia

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Henrique Autran Dourado

Domingo passado tive de dar um pulo no PA hospitalar, nada demais, coisa trivial. Na indefectível espera, economizando bateria de celular, observava. A porta que abre, a porta que fecha e o gentil recepcionista que oferece a cadeira de rodas para os que têm problemas e as recolhe dos que já lhe fizeram uso. Da cadeira à recepção, o papelzinho do protocolo (que alguém abasteceu na máquina), mais a espera até a triagem necessária, a mocinha atendendo com perguntas, tomada de pressão, oxigenação, temperatura, que venha o próximo. Finalmente, a espera da consulta, um casal de idosos se amparando, outro mais novo se deleitando na rede social, e outros que se pudessem estariam embalados por Morfeu em outras redes, dos bons devaneios. Veio meu atendimento, depois de outro e antes de mais outro (e de outro que se lhe seguiu). Processo reverso, a baixa na recepção, o adeus ao homem das cadeiras de rodas, home sweet home.

Por trás daquele pessoal na vanguarda do atendimento há funcionários da limpeza e da assepsia, de arrumação, e nos quartos lá em cima trabalho dobrado, nos casos de internação, sem falar nos aposentos das UTIs e na roda-viva do setor que cuida da pandemia, com pessoal e cuidados triplicados. A cada canto arredondado do piso do chão junto à parede, o que não se vê e talvez nem se imagine.

Há o pessoal de cirurgia, clínicos, os de laboratório e farmácia, os motoristas e seus assistentes de viagens; há um grande número de enfermeiras e enfermeiros que fizeram da luta profissão, servindo aos pacientes com abnegação e carinho, suportando o pior quase sempre com um sorriso (ou não, lembrando Chico: “se uma nunca tem sorriso / é pra melhor se reservar / e diz que espera o paraíso / e a hora de desabafar”. É a imensa malha da saúde a trabalhar pelos cidadãos – melhor chamá-la de rede mesmo, pela extensão e organicidade. Não se pode esquecer do galo de “Tecendo a Manhã”, do João Cabral: “ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe o grito que um galo antes / e o lance a outro / e de outros galos / que com muitos outros galos se cruzem / (…) / para que a manhã / desde uma teia tênue / se vá tecendo (…) / E se encorpando em tela / entre todos / se erguendo em tela, onde entrem todos / se entretendendo para todos / no toldo (a manhã) / que plana livre de armação”.

Outro universo, agora estamos em uma escola. As recepcionistas atendem as crianças, medem-lhes a temperatura, dão instruções sobre como se portarem, distanciamento, álcool em gel, máscaras, prestando máxima atenção no uso desses protetores. Internamente, as carteiras das salas já promovem as distâncias protocolares, inspetores observam e controlam. Para os que estão em casa, em revezamento, técnicos preparam as câmeras que filmarão as aulas. Amanhã troca de turma. Tudo funciona como um relógio para que as crianças e jovens não se decepcionem e retomem seus estudos escolares com vigor e saúde, rumo ao futuro.

Ambos os universos descritos acima, o da saúde, em pleno funcionamento em alguns lugares, e o da educação, especialmente, são quase miragens. O mundo da saúde que citei é uma exceção, há incontáveis cidades que sequer possuem uma UBS, pessoas infectadas pela Covid-19 são colocadas em filas de espera por uma vaga ou… Já o belo esquema escolar mal atingiria seu início, pois há municípios e lugarejos onde sequer há luz, esgoto encanado, e a informática é um sonho de uma dessas noites de verão. Talvez seja a realidade de vários países europeus, mas não do nosso. Não sonhemos com os pés lá fora.

Mas como promover as tão desejadas melhoras na economia sem libertar o povo da sombra do jugo do carrasco pandêmico? Sangrando os cofres públicos para rápido consumo sem explicar claramente de onde virão os recursos, em irresponsabilidade fiscal? Distribuir ao Zé Povino o suficiente para que uma família deguste sua ração direto de uma panela com as mãos por alguns dias?

Quem sabe deixar de comprar satélites absolutamente fora de prioridade e sem licitação, manter estrito rigor nas luxuosas compras das Forças Armadas, evitar maiores gastos públicos além dos rigorosamente necessários? Por que entronizar, em postos de comando como ministérios, oficiais de 4 estrelas absolutamente sem conhecimento na área, como acontece na Saúde, atravancando negociações externas e arrastando as internas seguindo birras políticas e preferências ideológicas, com claro prejuízo à nação? Derruba-se as bolsas com interferência direta na Petrobras, que, ao contrário do que parte da mídia propala, não é uma estatal direta, como uma autarquia, e sim uma empresa de capital aberto, da qual o governo é principal acionista – uma sociedade anônima. O mundo inteiro investe – ou investia – ali, e a despeito de falhas graves em todos os governos recentes, conseguia-se equilibrar as contas. Com as ações do mundo inteiro em frequente alta – EUA (Nasdaq), Reino Unido (FTSE) e Japão (Nikkei), o Brasil joga sozinho no vermelho, quase sempre. Certo, paliativos encobrem a incompetência brasileira na questão pandêmica, mas são passageiros quanto um auxílio chinfrim de duração como o amor de Vinicius: “que não seja imortal, posto que chama / mas que seja infinito, enquanto dure”. E depois?

Jogos claramente de campanha, buscando favorecer eleitores caminhoneiros. Aos outros, beneficiários de uma pequena mesada que mal lhes sacia a fome por três meses, e a fundamental exibição de poder: “eu tenho a força”. Como sairemos dessa?