‘Royal flush’ definitivo

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Às vezes, quando um personagem importante da cidade morre, fico pensando que Tatuí nunca mais será a mesma, pois alguns são insubstituíveis. Mas nunca mais voltará a ser a cidade de poucos anos atrás, menor e meio isolada do resto do mundo.

Os meios de transporte e de comunicação têm sofrido grandes mudanças com as novas tecnologias, encurtando distâncias, reduzindo o tempo de viagens, assim como tornando instantâneas as comunicações. Coisas do mundo globalizado.

Claro que, com isto, a cidade perdeu sua identidade. Hoje, é igual a todas as demais, com as pessoas sendo massificadas em torno do que a mídia decide. Dessa forma, Tatuí perdeu muito de suas características, da maneira de viver de seus habitantes, ainda mais com a chegada de inúmeros moradores vindos de outras partes do país. Não há mais aquele tatuiano típico.

Pois bem, por isso eu acho que cada vez que um dos tatuianos típicos, daqueles que marcaram a cidade, um pouco de sua história e de seu modo de viver desaparecem.

Estes dias faleceu o Carlos Vieira, conhecido como Carlão. Foi um personagem que esteve presente na noite tatuiana durante mais de meio século. Proprietário durante muito tempo da fábrica de refrigerantes Vieira, marca conhecida na cidade e na região, Carlão sempre teve boas condições financeiras, o que lhe permitiu viver grandes noitadas em um tempo em que a vida noturna tatuiana era algo notável.

Clubes, restaurantes e bares que amanheciam abertos quase todas as noites, não apenas no entorno da Praça da Matriz, mas em diversos pontos da área urbana. Isso sem contar, é claro, das antigas casas de raparigas, que movimentavam de uma forma diferente a noite tatuiana.

Certo dia, Carlão sentiu-se indisposto, com problemas cardíacos. Consultando-se com um médico, com os nervos à flor da pele, recebeu um conselho para que se acalmasse, que procurasse algo que lhe acalmasse os nervos, que gostasse de fazer, para evitar ficar ansioso.

Perguntou ao médico se distrair-se com jogos de baralho, coisa que apreciava, poderia fazer bem ao seu sistema nervoso. A resposta do médico foi afirmativa, lembrando que deveria ser moderado nisso. Jogar socialmente. Ah, foi quase igual dizer a um alcoólatra que pode beber socialmente.

Inúmeros eram os clubes que tinham salas de jogo. Clube Recreativo, Tatuhyense, Tatuí Club, Princesa Isabel, Sociedade Italiana, além de outros pequenos e uns clandestinos. Carlão passou a frequentar – como se fosse mesmo um remédio – os clubes de jogo em toda a cidade. Tornou-se um personagem mais conhecido do que já havia sido.

O tempo foi passando, as noites se esticavam, e as coisas nem sempre corriam bem para sua fábrica de bebidas e, assim, acabou vendendo-a à irmã Benedita, que prosseguiu fabricando os refrigerantes da marca Vieira – marca que é um sucesso, diga-se de passagem.

Nas salas de jogo, sua presença era constante. Bom de conversa e amigo dos amigos, todos gostavam de sua companhia. Era impossível deixar de notar sua presença, pois gostava de vestir-se bem, apresentando-se sempre elegante. Nos últimos anos, apegou-se a um cãozinho exageradamente. Conseguiu sobreviver ao câncer, mas entristeceu-se demais quando seu cãozinho morreu e entrou em depressão. Isso apressou sua morte, já cansado das agruras da vida. Contam seus amigos que ele levou para a sepultura uma foto desse seu animal querido.

Aqui, cabe um fato interessante. Os jogos mais comuns nos clubes que frequentou eram a caxeta e o pôquer. O truco, por ser muito barulhento, não convém aos salões de jogos que entram noite a dentro. A caxeta é jogada com dois baralhos misturados, incluindo os quatro coringas, e cada jogador recebe nove cartas. Ganha quem formar três trincas. Há, porém, a possibilidade de bater com dez cartas, se formar três trincas e uma quadra, mesmo que inclua, aí, o coringa.

Como brincadeira, diz-se que uma pessoa, quando morre, “bateu com as dez”, mas morrer não é brincadeira e Carlão, como jogador, só pretendia bater com as dez no jogo.

Pois bem, como jogador aficionado pelo baralho e que não desejava “bater com as dez”, seus amigos colocaram aos seus pés, no caixão, uma sequência de cartas do naipe de ouros, cartas 10, valete, dama, rei e ás, que no pôquer se chama “royal flush” e é imbatível.

Essa homenagem dos amigos não vai compensar a sua ausência, assim como muitos outros tatuianos que em vida marcaram a história da cidade, talvez de uma maneira que nunca mais aconteça, pois as antigas famílias tatuianas, que tinham uma espécie de compromisso com tudo que se referia à “Família Tatuí”, são hoje minoria.

Tem dúvidas sobre isso? Diga para você mesmo: você conhece e sabe quem são seus vizinhos? Antigamente, todos se conheciam.