Reflexões sobre um ano atípico

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Henrique Autran Dourado

Ao se fecharem as cortinas deste ano turbulento, é bom nos prepararmos para a descoberta de novos e melhores horizontes. Hoje, veio-me à memória uma cena passada, mas que me caiu à mente como se fosse presente. Passo a descrevê-la. Já viajei de avião incontáveis vezes, do e para o exterior e percursos internos pelo país. Nunca tive qualquer medo nas minhas viagens (talvez o tenha perdido, quem sabe?). O medo de voar nada mais é do que o temor de se sentir um Ícaro e seu invento fracassado, porque todos sabemos que os riscos, hoje, de se erguer no alto em aparelho mais pesado do que o ar são ínfimos, estatisticamente. Houve uma certa vez, porém, que um fato especial me provocou algo diferente, uma brevíssima sensação de “close call” (em aviação, em inglês, escapada de um acidente).

Isso foi há muitos anos, em um voo SP-Rio que não existe mais, em um pequeno Bandeirante de 20 lugares, modelo que hoje parece aposentado. A turbulência era tão forte, trancados naquela pequena nave, que parecíamos estar em um daqueles terríveis aparelhos de parque de diversões. Senhoras dedilhando novenas nas contas de seus terços, senhores com expressões tensas e suores nos rostos, mas como de costume eu me sentia seguro. Até que olhei para trás e vi as duas aeromoças sentadas em banquetas escamoteáveis em frente ao banheiro, cintos de segurança duplos, os olhos bem maquiados, olhar fixo em algum ponto na parede. E tinham as mãos dadas, como se orassem em comunhão de pânico.

Nessa hora, senti o medo tentando se apossar de mim, mas, como pai de uma família apavorada, precisaria estar sob controle, fosse o que viesse, suportando os violentos sacolejos. Agora, ao virarmos a última página de 2020, é um pouco como me sinto. Tivemos um ano terrível, com a chegada da Covid-19 ao país, mas, em tempo recorde, ao vislumbrarmos o novo ano se aproximando, já enxergamos a luz das vacinas que brevemente irão nos redimir; se não houver um freio sólido da doença já em alguns meses, ele será consolidado nos seguintes. O tempo universal é eterno, portanto não medido por relógios ou calendários, está muito além e existe apesar de nós. (Hora de dizer “nada como a tintura do tempo” para citar desta vez um ditado, britânico: “nothing like time’s tinturing”).

Não me sinto hoje como naquele Bandeirantes soçobrando qual um barco à deriva com seus passageiros, ou como as noviças comissárias de bordo de mãos dadas e menos ainda aqueles que se apegaram às novenas com os olhos fechados na hora do perigo, esperando o átimo mortal chegar. Não que aqueles passageiros que observei não pudessem ter motivações pessoais mais fortes, sabe-se lá, mas lembro-me daquela experiência como uma “alegoria real”, pensando que é preciso estarmos firmes e otimistas para os novos tempos que se aproximam: “É preciso estar atento e forte / não temos tempo de temer a morte” (Caetano, em “Divino Maravilhoso”). Mais ainda: “ed io soi uno / m’aparecchiava para sostener la guerra”, disse Dante, no Canto I do Inferno, na “Divina Comédia”: “e eu sou um, me preparava para empreender a guerra”.

Não será um combate insano contra inimigos imaginários, como o do fidalgo Don Quixote e seu fiel escudeiro contra moinhos, será uma luta bem real, com grandes avanços e conquistas nas mãos, “com lenço e com documento”, a ciência mundial acelerando recordes de sucessos, “tudo no bolso e nas mãos”, brinco com os versos de Caetano. Não há lugar para desespero, como em minha crônica verídica sobre “O Rato de Boston”, em que o camundongo que caiu dentro da lixeira, após incontáveis tentativas de saltar da lata noite adentro em vãs tentativas de escapar, acabou sucumbindo ao desespero e se entregando ao destino. Era um ruído repetitivo, “flap, zip, pá”, salto, escorregada e tombo naquela noite insone, sem que eu soubesse de onde ouvia a louca percussão em “ostinato”.

Seremos mais fortes neste ano de 2021, e agora mais bem aparelhados para novas batalhas e vitórias, novas lutas e conquistas, com a certeza de que iremos prosseguir e vencer. Quanto à crise econômica, pode ser este que chega o ano em que ela não nos dará trégua, mais do que já nos atormentou em 2020. Mas suportaremos as pedras do caminho e estenderemos a mão a quem pudermos da melhor forma, o quanto possível. Inspirados pelo vislumbre da derrocada final do vírus, como já aconteceu outras vezes no país em endemias, epidemias e pandemias, teremos nessa luz a bandeira da empreitada por melhores tempos e boa saúde, e um novo espírito de solidariedade e altruísmo.

Encerrar aqui com simples votos de felicidades, lugares-comuns de sempre, não seria minha função, como a tenho desempenhado. Pessoalmente, confesso que também faço desses votos desejos taquigráficos: um gesto social, reza a praxe da boa educação, mas tenho certeza de que com fé no espírito de Natal a distância de muitas pessoas queridas – e a ausência de outras – não vai nos arrebatar, o bem prevalecerá entre os homens. E que a palavra ódio, uma constante nos dias de hoje, esteja banida de nosso cotidiano, porque 2021 será período de felicidade pelas conquistas, pelos sucessos nas lutas e empreitadas. Dizia um cartão de Boas Festas que recebi há muitos, longos e duros anos: “Paz e felicidade para o ano que entra. Mas não a paz dos que se acomodam, não a felicidade dos traidores e vendidos”. A paz nos obriga à mente centrada em dias melhores, como os escravos hebreus no coro da ópera “Nabuco”, de Verdi: “vai, pensamento, sobre asas douradas”.