Queixo quebrado

CRÔNICA

Mouzar Benedito *

Vi um dia desses que existem em São Paulo lojas especializadas em mobilete, um tipo de motocicleta que antigamente não exigia carteira de habilitação, podia ser usada até por crianças. Era de pouca potência, como uma bicicleta motorizada.

Pensava que não existia mais isso, mas existe, só que nunca mais vi. Há muitos anos, meu amigo Zé Américo tinha uma dessas.

Ele morava numa chacrinha em São Luiz do Paraitinga, e foi na mobilete pro centro da cidade, bebeu umas e outras e voltou bêbado. Quer dizer, quase voltou.

Caiu da mobilete e quebrou o maxilar inferior, ficou com o queixo caído, e foi direto pro hospital.

Os médicos amarraram os dentes de baixo nos de cima, com fios metálicos, para só retirar depois que os ossos se emendassem de novo. Assim, não tinha como abrir a boca, e isso ia durar muito tempo, ficaria com a boca amarrada durante alguns meses.

Por sorte, ele tinha uma falha num dente superior, por onde podia passar um canudinho grosso, pra se alimentar com líquidos. Mas não se apertava.

Tudo que queria comer, ele batia no liquidificador, com leite, e tomava pelo canudinho. Segundo dizia, conseguia distinguir todos os sabores. Bebia até arroz com feijão e alguma mistura, tudo batido com leite.

Ele ficou hospedado uns dias na casa da minha namorada, em São Paulo, e a gente comprou logo um monte de canudinhos e de coisas que achávamos que combinava melhor com leite, principalmente frutas, mas ele não ligava, comia de tudo, quer dizer bebia.

Até macarrão era batido com leite. Vimos o Zé comendo, quer dizer, bebendo carne com leite, nhoque com leite, empadinha com leite…

Mas era gozado ele chegar num bar, pedir uma coisa qualquer, falando sem abrir a boca, e mandar bater com um pouco de leite, no liquidificador. Os garçons estranhavam. Num deles eu estava junto. Falou ao balconista, com a voz estranha por não abrir a boca:

— Me dá um quibe desses.

O sujeito trouxe o quibe num pratinho e ele falou:

— Bate com leite no liquidificador…

O balconista achou que ele estava com gozação e exigiu pagamento antecipado.

Depois que ele pagou, o garçom pôs o quibe no liquidificador, despejou um pouco de leite e perguntou:

─ Ponho açúcar?

Caímos na risada. E eu ria mais ainda vendo o Zé rindo de boca fechada.

* Escritor, geógrafo e contador de causos.


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