Vito Preto e a polícia mineira

Mouzar Benedito *

Comentei com amigos uma coisa que aconteceu quando eu tinha uns cinco ou seis anos de idade, mas não sai da minha memória até hoje. Um acontecimento que teve um lado ruim e um bom.

Era um hábito de qualquer polícia, quando prendia alguém por um motivo qualquer, dar-lhe uma surra cruel. Na minha terra acontecia pouco de alguém ser preso, quase não ocorria nenhum crime

As poucas prisões que ocorriam eram por causa de bebedeiras, brigas de bêbados, coisas desse tipo. Mas parece que a polícia se sentia no dever de bater nos presos.

Faço um intervalo aqui pra lembrar o samba “Firme e Forte”, cantado por Beth Carvalho, em que dois versos dela dizem assim: “Deixa correr frouxo, que esquentar não é legal / Se o Brás é tesoureiro a gente acerta no final”. Confiava no Brás, né?

Acho que o nome Brás foi dado a homens muito bons, generosos.
Digo isso porque o carcereiro da minha terra chamava-se Brás, e era muito bom com os raros presos ocasionais. Tratava todos muito bem e, segundo diziam, muitas vezes conseguia evitar a violência policial contra os presos. Por isso, acho que parecia com o Brás do samba cantado pela Beth Carvalho.

Quando alguém estava aprontando alguma coisa que podia dar em prisão, gritavam pra ele: “Aproveita enquanto o Brás é carcereiro!”.

Era um preto velho, filho ou neto de escravos, baixinho e já bem idoso, podia se aposentar logo.

Bom, agora a história que quero contar.

Um dia um homem apelidado Vito Preto tomou um pileque e acabou dormindo bêbado numa sarjeta. Foi pego pela polícia e levado pra delegacia, quando era folga do Brás, o bom carcereiro. Deram uma surra nele sem nenhum motivo. O cabo e os dois soldados, que eram o destacamento policial da cidade, foram covardes demais.

Acontece que alguém viu. E contou pra todo mundo. Um grupo de jovens se reuniu, foi até a cadeia, libertou o Vito Preto e colocou na cela o tal destacamento policial.

Em seguida, foram ao correio e mandaram um telegrama pra Secretaria da Segurança Pública de Minas Gerais: “O cabo e os soldados que vocês mandaram para cá, não servem para nós. Estão presos e vão ficar na cadeia até serem substituídos. Venham buscar”.

É ou não é um motivo pra ter orgulho dessa mocidade?

* Jornalista, escritor e contador de causos.


Livros do Mouzar Benedito pelas editoras Boitempo, Limiar e Terra Redonda.

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