O que vocês fizeram naquele 6 de janeiro?

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Henrique Autran Dourado

O que teria acontecido nos EUA naquele dia de 2021? Um fenômeno de massas desencadeado de forma nunca vista no país enquanto república democrática! O que levou as pessoas ao descontrole, àquele ponto? São perguntas que historiadores e cientistas sociais ainda não conseguiram responder a contento – afinal, fenômenos de massa não são palpáveis, geralmente nem é possível contabilizá-los pela absoluta falta de meios. Porém, um caso isolado pode servir de amostra exemplar do todo pela parte, peças que refletem como pequenos espelhos o quadro geral do acontecido.

Uma amostra poderia ser Dawn Bancroft, pacata eleitora republicana da Pensilvânia, proprietária de um estabelecimento de “fitness” que por impulso resolveu viajar até Washington, D. C., capital do país, seguindo afoita o brado de Donald Trump, derrotado nas eleições presidenciais americanas: “lutem com todas as suas forças!” Junto com uma amiga, chegou à Constitution Ave., e tendo a pressão da massa ensandecida como elemento contaminador de seus instintos mais reprimidos, com ela atravessou uma vidraça espatifada e invadiu o Capitólio, sede das casas legislativas do país. Segundo o The Economist (7/01/22), elas estavam “à caça” de Nancy Pelosi, então líder do partido Democrata e presidente da Câmara dos Representantes após a posse de Joe Biden, “para meter uma bala na cabeça dela, mas não a encontramos”. Saldo: cinco mortos e mais de cem policiais feridos.

Disse o jornal que, diante do juiz Emmert Sullivan, Bancroft reconheceu sua culpa na invasão. O magistrado suscitou uma questão estarrecedora: o que faz gente de bem, que nunca teve problemas com a lei, de repente transformar-se em terrorista? (Lembra o título da obra “Pergunta sem Resposta” – “Unanswered Question” -, do norte-americano Charles Ives composta em 1908). Todas as atitudes coletivas podem ser bem analisadas, mas nunca esclarecidas; no campo psíquico podem ser investigadas à luz de Carl Jung (1875-1961), ligado a Freud, que via dois segmentos no inconsciente: o pessoal e o coletivo. Este último seria o “conjunto de imagens primordiais, representações coletivas que são heranças de geração e que constitui os traços coletivos verificados no interior do psiquismo de cada indivíduo (…), imagens a que deu o nome de arquétipos (…), que não são jamais conscientes e não proveem de uma experiência pessoal do indivíduo”. Esses arquétipos são sempre inconscientes, “exprimem-se por símbolos que chegam ao consciente e podem invadir os sonhos ou se traduzir em mitos” (in “Apoio às Disciplinas”, USP).

A pergunta do juiz Sullivan no caso Bancroft continuará sem resposta, mas as explicações de Jung sobre o inconsciente coletivo esclarecem até para nós, leigos no assunto, onde se encontra o cerne da questão, e se não trazem respostas ao menos lançam uma luz clara sobre o inconsciente coletivo no comportamento das massas: “esses arquétipos chegam ao consciente e podem invadir os sonhos ou se traduzir em mitos”. (O excelente dramaturgo e frasista Nélson Rodrigues, assumidamente de direita, proferiu uma lapidar: “a massa é ignara”).

O inconsciente coletivo pode levar a grandes convulsões, distúrbios de massa como o linchamento de Benito Mussolini e sua amante Clara Petacci, que terminaram pendurados pela turba de cabeça para baixo em uma viga de um posto de gasolina, como fossem bois abatidos em um açougue. Na famosa música “Devoção ao Demônio” (“Sympathy for the Devil”), dos Rolling Stones – que Mick Jagger diz ser um “samba” influenciado pelo candomblé da Bahia, onde o grupo ficou por semanas -, ilustraram com o demônio esses arquétipos humanos: “Eu estava lá, em São Petersburgo / quando vi que era hora para mudança / Matei o Czar e seus ministros / Anastasia gritou em vão / (…) Eu gritei: quem matou os Kennedys? / Quando afinal fomos eu e vocês”.

O inconsciente coletivo potencializa forças, destila o ódio nas veias ou, como me disse um velho russo: faz a urina subir à cabeça. E há sempre o fanatismo e a ocasião para acionar o detonador no momento propício para agir: elas precisam ouvir algo como uma voz ecoando na revolta trancada na profundeza de suas mentes: “lutem com todas as suas forças!”, brado de Trump, estopim que incendiou as supostas fraudes nas urnas de votação – foi o estímulo que apontou evidências inexistentes de manipulação, tentativa frustrada de alcançar a vitória “na marra”. O que queria o então presidente, conclamando aquela invasão ensandecida e abilolada, sabendo que poderia desencadear um morticínio sem proporções? Outra vez uma incógnita, pois os desígnios de extremistas descontrolados são impenetráveis. Sabe-se também que é necessária uma liderança com energia suficiente para fazer emergir, tal como o monstro do lago Ness, o intangível, o quase sobrenatural, que satisfaça sua volúpia e abra espaço para seus sonhos e pesadelos: é fundamental criar o caos, grande aliado no erguimento de um Estado de fanáticos.

CNN, 10/12/2021: “Eleitores que acham que Trump venceu são os mais entusiasmados para votar em 2022” (para o Senado). “Por uma vantagem de 74% contra 25%, republicanos e independentes com tendência republicana dizem que Joe Biden não obteve votos suficientes para vencer a eleição de 2020 legitimamente”. A ocasião, a arma e os motivos – ainda que falsos – deverão estar presentes outra vez na eleição presidencial de 2024, e a decantada democracia americana será colocada de novo à prova, e servirá de exemplo para o mundo.

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