Um gênio chamado Cartola, sem casaca e gravatinha

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Henrique Autran Dourado

Fundador da Estação Primeira da Mangueira, Cartola, aliás, Angenor de Oliveira (1908-1980), fez do verde-rosa de sua agremiação bandeira de vida, de seus sambas, paixões (“verde que te quero rosa / rosa que te quero verde”, cantou, parafraseando “de ouvido” García Lorca). Cartola nasceu no Catete, zona central do Rio, e foi criado um tanto nas Laranjeiras, onde aprendeu os primeiros acordes do pinho, que seu pai lhe ensinava. Mas a vida ali não lhe sorria. Cartola passou por dificuldades e resolveu adotar o Morro da Mangueira para viver. Dos terreiros de candomblé às rodas de samba, e de lá ecoando para o Rio inteiro e depois o Brasil, era com as mesmas mãos calejadas de pedreiro que compunha. Mas não se dobrava às facilidades que seu talento poderia lhe proporcionar, se fizesse sambinhas bobos para vender.

Cartola foi gravado por boa parte dos bons cantores do país, mas direito autoral na música só existia para os que pagavam jabaculês – um “por fora” para os disk-jockeys – a fim de multiplicar execuções nas rádios e as vendas. Abriu com sua esposa Zica o restaurante Zicartola, no centro, em 1963, e resistiu ao golpe de 1964. O lugar aos poucos havia se tornando, além de ponto de encontro de artistas e estudantes, reduto da intelligentsia carioca, a boemia intelectualizada, e lançou nomes como o portelense Paulinho da Viola, hoje consagrado.

Foi apenas aos 66 anos, em 1974, que Cartola gravou seu primeiro LP, cujo apelido lhe emprestava o título, e que trouxe uma das joias mais preciosas que temos, “As Rosas Não Falam”: “Bate outra vez / com esperanças o meu coração / pois já vai terminando o verão / enfim…” Suas letras refinadas traziam palavras simples, bom gosto a toda prova, ele um bamba no violão de “cordas de aço”, aliás título de outra de suas músicas. Cantor de primeira, compositor de belas harmonias e melodias riquíssimas, como poeta revelou-se mestre na bordadura de letras e no casamento da fina poesia com a música: “Queixo-me às rosas / mas que bobagem / simplesmente as rosas não falam / simplesmente as rosas exalam / o perfume que roubam de ti, ai…” Versos de rara beleza que qualquer poeta gostaria de ter escrito, e que toda mulher se deleitaria ao ouvir.

Há também expressões de alegria, como “a sorrir, eu pretendo levar a vida / pois chorando eu vi a mocidade perdida” (“O Sol Nascerá”, com Elton Medeiros). Essa alegria da comunidade mangueirense também surge em “Alvorada”, tendo como parceiros Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho: “Alvorada lá no morro /que beleza / ninguém chora / não há tristeza / (…) o sol colorindo é tão lindo / é tão lindo / e a natureza sorrindo / tingindo, tingindo”. (Que contraste com o “Pranto de Poeta”, em que ele pensa no morro que vai chorar após sua morte, em um samba que é o Cartola falando, e só ele, tristeza serena mencionada no final deste artigo.)

Nos meus tempos de EUA, às vezes recebia alguns discos de meus pais, talvez temerosos de um possível afastamento meu das raízes brasileiras, o que nunca aconteceu. Ouvia, além do Cartola, Luiz Gonzaga, Elizeth, e claro, tudo o que me encantava. E também aproveitava os LPs, indicador esquerdo manobrando a agulha do toca-discos e o direito no lápis, fazendo das músicas ditados melódicos em uma partitura. Transcrevia uma a uma como treinamento auditivo, começando pela mais fácil, “Ensaboa, Mulata”, gravada por Cartola com sua filha Creuza, de voz bem rústica, quase um canto de trabalho. Ele: “Ensaboa, mulata, ensaboa / ensaboa” (ela emenda no ato:) “tô ensaboando / estou lavando a minha roupa / lá em casa já estão me chamando, Dondon”.

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Letra e música que transcendem adjetivos como sublime estão na obra-prima “O Mundo É um Moinho”, em que o poeta não esconde a tristeza por a mulher amada tê-lo abandonado: “Ainda é cedo, amor / mal começaste a conhecer a vida / já anuncias a hora de partida / sem saber mesmo o rumo que irás tomar”. Termina com uma feliz comparação da vida com um moinho de vento, uma roda-gigante de poucos momentos altos e muitos baixos, de erros e sofrimentos, revelando seu rancor por ter sido largado: “Preste atenção, querida / de cada amor tu herdarás só o cinismo / quando notares estarás à beira de um abismo / abismo que cavaste com teus pés” (link no final). Letra e melodia, de igualmente incomparável beleza, seduziram grandes nomes de nossa música, que não hesitaram em registrar o lamento de Cartola: de Beth Carvalho a Ney Matogrosso, de Cazuza a Badi Assad, com seu violão mágico.

Cartola não se preocupava com a morte, apesar de apegado à Da. Zica e aos amigos, ao violão, à Mangueira e ao samba. Em “Pranto de Poeta”,  diz que morrer não é tão ruim quando há um morro inteiro e uma escola de samba para se lembrarem dele: “Em Mangueira / quando morre / um poeta / todos choram / vivo tranquilo em Mangueira porque / sei que alguém há de chorar quando eu morrer”. (Ao final da gravação, Cartola agradece a palinha do amigo Nelson Cavaquinho, já meio bêbado: “Obrigado, Nelson”. E ele: “Ovligado, Gardola”. A gravação dessas falas teve de ser refeita para que ficasse mais compreensível). Tanto era celebrada a reverência dos sambistas ao poeta que em seu velório, em homenagem, o amigo e sambista Nelson Sargento, deu palavra e ponto final do sofrimento dos presentes: “Cartola nunca existiu. Foi apenas um sonho que a gente sonhou”.

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