Torneio projeta cururu para todo o Estado

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Fabio Villa Nova





AI Conservatório / Kazuo Watanabe

Rápido nas respostas, Buenão afirmou que repentes são resultados de ‘dom divino’

 

Reconhecido e consagrado entre os cururueiros de Tatuí e região, o “Torneio Estadual de Cururu” deve ser replicado em outros municípios paulistas. A iniciativa que visa resgatar e fortalecer a expressão tipicamente caipira tem grandes chances de se tornar “produto de exportação”.

A semente da proposta foi plantada durante a quinta edição do evento, a partir de conversas entre o coordenador do certame, Jaime Pinheiro, e prefeitos de diversos municípios.

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“Eles estão querendo levar para as cidades deles uma apresentação”, comentou Pinheiro, que é artista plástico, professor e cenógrafo.

Os frutos podem ser colhidos já no ano que vem, quando um grupo de cururueiros locais poderá realizar apresentações em cidades que tentam retomar o cururu. Entretanto, o projeto depende de entendimento entre os organizadores locais (do Conservatório) e os gestores municipais.

De acordo com Pinheiro, a intenção é que o projeto faça parte de um processo de divulgação do cururu. “Em alguns lugares em que ele (o gênero musical) não existe mais, os cururueiros se tornarão uma atração artística”, comentou.

A primeira conversa nesse sentido aconteceu entre a equipe do Conservatório e o prefeito de Nova Europa, Osvaldo Aparecido Rodrigues, conhecido como “Mosquito”. Ele viajou 272 quilômetros para vir à “Capital da Música” e acompanhar o torneio.

Segundo a assessoria de comunicação da escola de música, durante eliminatórias, realizadas na sexta-feira, 15, e no sábado, 16, Mosquito manifestou o desejo de levar o evento para a região de Araraquara.

“Não digo que vamos replicar, mas divulgar o movimento. Aqui (em Tatuí), nós temos o privilegio de conviver com a tradição enraizada. No caso, tem o cantador na comunidade, torcida e a convivência das pessoas com eles. Por isso, todo o movimento se torna bem mais rico”, disse o coordenador.

Pelo quarto ano no “comando” do evento, Pinheiro afirmou que o torneio ajuda não só a premiar os participantes, mas a manter vivo o cururu. Também possibilita a identificação de “polos do gênero” no município e no interior do Estado, contribuindo, na mesma proporção, para o fortalecimento dele.

“É um conjunto de benefícios. Temos tido contribuição de várias pessoas da cidade que trabalham, convivem e frequentam o cururu. Isso estava muito disperso”, considerou.

Neste ano – como nos anteriores –, as ajudas vieram de Dito Avião, Rubinho Veio, Walter Ceciliato e Aurélio Serrão Correa, o “Helinho Beijo-Frio”, entre outros. “São pessoas que nos acompanham e orientam”, citou o coordenador.

Estudioso do “universo caipira”, Pinheiro projetou para este ano modificações na estrutura que aproximaram o público dos cururueiros. “No meu raciocínio, estou tentando assimilar um bairro, a convivência bairrista”, explicou.

O trabalho incluiu instalação de barracas de comes e bebes e de venda de produtos típicos na área da antiga “quadrinha”. O ambiente simulou uma “quermesse” de forma a transformar-se no espaço que os cururueiros – e quem gosta da disputa dos repentistas – estão acostumados a frequentar.

Participaram da “quermesse” três expressões locais: o Alambique dos Ramos, a Paróquia-Santuário Nossa Senhora da Conceição e a Associação de Turismo Rural.

“Como em todo evento de cururu, existe a participação da comunidade que vai sempre atraída por comida. Por essa razão, trouxemos a pinga, porque não podemos privar quem está acostumado a conviver nesses espaços, e outros produtos do folclore, como o artesanato caipira”, explicou.

A recriação do “habitat” do cururueiro esteve presente também no cenário criado por Pinheiro. As duplas enfrentaram-se no palco que trazia, ao fundo, a reprodução de uma venda. “Esse (a venda) foi, durante muitos séculos, locais de encontro das pessoas. Inclusive, era nelas que o pessoal trocava informações, contava novidades e cantava”, disse Pinheiro.

Segundo ele, as vendas desempenhavam papel de centros de convivência. Representavam a segunda casa dos cururueiros e o “verdadeiro palco” das disputas entre eles. “É quase que uma simulação do espaço natural de nascimento do cururu”, sintetizou.

Se houve “evolução” no ambiente de disputa, o mesmo ocorreu com os participantes. Pinheiro disse que a organização tem notado “uma coisa interessante”. “Este ano, os cururueiros que já competiram em edições dos anos anteriores – em mais de uma, pelo menos –, estiveram mais diversificados”.

Também conforme ele, as duplas têm sido reconhecidas na região e realizado apresentações a convite de entidades e outros municípios. “Eles estão pegando muitas apresentações e shows. Está havendo demanda”, comemorou.

Essa procura por apresentações é avaliada por Helinho Beijo-Frio como consequência da valorização do cururu. De acordo com ele, até então, o gênero ficava restrito “aos grupos de praticantes, aos familiares e conhecidos deles”.

O radialista é uma das personalidades que ajudam a propagar o cururu em Tatuí. Ele mantém programa dominical no rádio, no qual há duelos de repentistas.

“Estamos sempre trabalhando nisso, mas o Conservatório é quem foi o responsável pela projeção do cururu. Já o trouxe, na época do professor José Coelho de Almeida (diretor entres os anos de 1968 e 1982), mas, agora, na era de Henrique Autran Dourado (atual diretor executivo), o retomou”, disse.

Mais que evidenciar o cururu, Helinho Beijo-Frio disse que o torneio estadual tem se revelado fonte de renovação. De acordo com ele, nos últimos anos, está havendo um “interesse maior da nova geração para aprender o cururu”.

O atual diretor do Conservatório destacou que o cururu já está consagrado no município. Dourado acompanhou a final da quinta edição e afirmou que o evento “sempre será aperfeiçoado pela organização”.

“Vamos planejar melhorias para o ano que vem, coisa que já conseguimos neste ano. Mas, queremos torná-lo eterno, independentemente de qualquer pessoa que esteja aqui”, disse ele, que é idealizador do torneio de repentistas.

Dourado disse que o cururu deverá ser levado a outros municípios e confirmou que há conversas entre representantes de cidades do Estado e a organização.

“O torneio é uma coisa que transcende. Vai além do próprio Conservatório. Acho que isso é mostra que estamos tendo repercussão da nossa ação. Espero que surjam outras tantas iniciativas e que possamos dar um empurrão no cururu de um jeito que ele não morra. Eu não estou há tanto tempo em Tatuí, mas, certamente, o cururu não vai morrer”, complementou.

Para o ano que vem, os planos da direção são de tornar o evento “mais sustentável”. Dourado disse que, além do uso de bambus (para ornamentação do ambiente), como acontece no Centro Cultural de Pardinho, o Conservatório deverá fazer uso de “energia e soluções alternativas”.

A intenção é inovar e agregar maior público para fortalecer ainda mais a chamada “música da terra”. “Nós temos de fazer música, seja ela clássica ou popular, pensando nas nossas origens. Isso é o que importa”, disse Dourado.

Na opinião dele, a importância do evento vai além de melhorar as condições de apresentações: passa pelo incentivo às novas gerações. “O principal é motivar a juventude, os adolescentes, para que eles aprendam a gostar do cururu, da música de raiz, de modo que ela permaneça”.

Considerando todos esses aspectos, o professor-doutor Alberto Ikeda, que compôs o corpo de jurados, afirmou que o certame é, sem dúvida, o maior incentivo ao cururu. Disse, ainda, que ele já se firmou na região.

“Na medida em que há um reconhecimento de uma instituição muito importante como o Conservatório, com aporte, inclusive, de recursos financeiros da iniciativa privada e do governo do Estado, isso dá muita credibilidade. Então, ele reconhece a expressão dos cururueiros como algo muito importante para o Estado e, até mesmo, para o país de modo geral”, analisou.

Ikeda avaliou as duplas juntamente com Carlos Cavalheiro e Sérgio Santa Rosa. Os três foram unânimes em dizer que a escolha tem se tornado mais difícil nos últimos anos. “A maioria dos cururueiros já passou pelo concurso. Sempre tem um aprimoramento, sobretudo, quando chega a final”, contaram.

A dificuldade na escolha é tamanha que a diferença de pontos entre os vencedores deste ano, os bicampeões Buenão e Esmeraldinho (de Tatuí), para os vice-campeões Manezinho e Zé Antônio (das cidades de Iperó e Conchas) foi de “centésimos”.

“A diferença foi pequena, mas, aí, na discussão, decidimos que esse seria o resultado mais adequado”, argumentou Ikeda.

O jurado considerou que a “evolução dos participantes” acompanha as novas regras do torneio. Segundo ele, de um ano para outro, a organização faz pequenas alterações no regulamento, de modo a aperfeiçoar o duelo.

A decisão dos jurados, segundo o bicampeão Buenão, é sempre acatada pelos participantes. O repentista disse que os apontamentos da comissão julgadora são considerados pelos participantes e que a segunda vitória dele na competição – na segunda participação – foi fruto de “muito esforço”.

“O cururueiro busca inspiração na hora. Isso é um dom. A gente olha para o povo e faz o verso. Vai da reação do público e da rapidez para dar a resposta”, afirmou.

A “boa memória” também é requisito fundamental para quem quer se aventurar no repente, na avaliação de Esmeraldinho. Considerado novato no cururu, ele já conta com reconhecimento da comunidade e declarou que, para ele, o prêmio é um incentivo para o movimento manter-se sempre em evidência.


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