Reger, verbo intransitivo

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Mais visíveis aos olhos e línguas do público e dos músicos, construiu-se um folclore acerca de regentes, e quanto maior a exposição melhor alvo ele se torna. A história do cargo não é lá muito curta, mas a trajetória de seus protagonistas é bastante rápida.

No século 13, Elias Solomon, em “Tracatus de Musica” sugeria ao líder do coro comentar o erro de alguém sem que soubessem quem era o faltoso. No século 15 surgiu o “sol-fa”, uma partitura enrolada e dirigida por quem se achava mais competente. Ornithopachus, no final do século, recomendou ao cantor-líder a suavidade das mãos. No século 18, o alemão John Böhr sugeriu o dedo indicador ou um pedaço de madeira. Modernamente, as técnicas de direção, assim como aqueles sinais e gestos às vezes confusos, são absolutamente individuais, existindo apenas algumas poucas convenções comuns entre os grandes. Divergem em muitas coisas, até quanto ao uso da batuta, a varinha mágica. Enquanto Toscanini e Bernstein a manobravam com habilidade, Karajan e Kurt Masur optaram pela expressividade das mãos.

Alguns candidatos ao posto, ao largarem seus instrumentos para alçar voos mais altos na carreirada regência eram jocosamente chamados “batteurs de mesures”, ou “batedores de compassos” (franceses adoram criar expressões para todas as finalidades). Algo como o que os músicos do surreal filme “Ensaio de Orquestra”, do Felini, procuraram demonstrar. A história do regente pode ser vista do ponto de vista geométrico: começa com o líder de pé e os músicos sentados; depois, juntando-se a eles. Enfim, levanta-se, deixando-os sentados, caminho que levou bom tempo até se consolidar. Logo, o regente viu que não estava “elevado” o suficiente: teve de pedir um estrado – o pódio! – para melhor exercer seu poder autocrático. Na correlação de forças musical a ascensão do regente, e, ao revés, a queda do poder da orquestra ou coro foram inevitáveis. Ele era o dono da sabedoria –  e quando não, bastava-lhe um governante ou protetor poderoso.

Com o apogeu da ópera, o regente teve de descer ao fosso (incômoda clausura invisível à plateia) do palco sobre o qual a cena se desenrola. O regente, a cabeça um pouco mais acima no nível do fosso, passou a ter de usar gestos espalhafatosos para ser percebido pelo público. A consolidação da “geometria orquestral” de hoje é recente, pois até 1905, na Gewandhaus de Leipzig, os músicos ainda tocavam em pé! As orquestras atuais, salvo alguns detalhes, parece terem sido congeladas em algum lugar do passado, perdendo a constante mutação anterior. Daqui para a frente, qualquer mudança maior, se acontecer, deve demorar muitos, longos anos.

A simpatia dos músicos reserva aos regentes poucas unanimidades, ungindo só os mais prediletos. Franz Strauss, trompista e pai do Richard Strauss de “Assim Falou Zaratustra” (obra popularizada no filme 2001, “Odisseia no Espaço”), era conhecido por sua ojeriza à batuta. Certa vez, aproximou-se de um maestro convidado e disse-lhe que desde o momento em que ele entrara no palco, e antes mesmo de subir ao pódio, pelos passos sabiam quem iria mandar: ele ou os músicos. Orquestra é como um potro bravio: no pisar do peão no estribo já se sabe quem vai levar quem.

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Entre os motivos mais comuns de desavenças entre músicos e regentes estão os tempos – “tempi”, em italiano. Acostumados com certo andamento, instrumentistas volta e meia têm alguma rusga com o chefe. (O “spalla” do Municipal do Rio contou uma nota de jornal há muitos anos, teve séria discussão, e o regente saiu do sério. O imbróglio só se encerrou com o grande Pareschi atirando seu precioso instrumento no chão, abandonando o ensaio). Nem as estrelas são poupadas. A lendária cantora sueca Birgit Nilssen teve uma saia justa com o poderoso Herbert Von Karajan. No ensaio, a solista disse ao maestro que aquele andamento estava muito rápido. Karajan olhou-a e perguntou quem pagava quem, ele ou ela. E nem esperou resposta, continuou do jeito que queria.

Mesmo alguns fatos reais às vezes adquirem status de anedota no repertório folclórico musical. Tal como um episódio da vida do compositor, violinista e líder de orquestra Jean Baptiste Lully (1632-1637), da corte de Luís XIV, talvez o “pai” da regência com, digamos, uma batuta. Chegado a uma comédia, foi parceiro e amigo de Molière, autor de peças de teatro como “O Burguês Fidalgo”. A Lully também se credita a organização da direção dos arcos dos instrumentos, antes sem rumo, cada qual em uma direção. Depois dele, surgiram belas ondas sinuosas, homogêneas como em um exercício de tai chi chuan.

Praxe da época, Lully comandava a orquestra de seu lugar de primeiro violinista, e se irritava com a dificuldade de manter o andamento correto de alguma passagem: seus comandados atravessavam caoticamente o ritmo com semínimas e colcheias que, rebeldes, teimavam em escapulir dos instrumentos. Parou de tocar, e passou a marcar o tempo batendo seu cajado – Lully era coxo – no chão, cada vez com mais força. Pronto! Estava definitivamente inventado o maestro. Mas um desses golpes de seu “bengalão” escapuliu e acertou-lhe o pé, ferindo-o seriamente. Talvez primeiro caso conhecido de “olho gordo” de orquestra contra regente, a lesão no pé gangrenou, e por causa dela dizem que Lully morreu coisa de 15 dias depois.

(O título deste artigo é inspirado em ‘Amar, Verbo Intransitivo”, do Mário de Andrade. E finalizo com um abraço em todos os amigos regentes).

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