Porque não sou escritor

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O leitor mais atento pode ter estranhado a razão de eu ter usado, para este título, “porque”conjunção causal explicativa, e não “por que”, expressão interrogativa. Guardo a explicação para o final do texto. Também, não deixa de ser uma brincadeira com o leitor sobre as regras gramaticais, que uso mas sem idolatrá-las, até distorcendo-as ou violando-as conscientemente, como recomendava Flaubert, quando apraz ao autor, pelo bem do estilo de escrever.

O título “escritor” ficou ainda mais claro para mim quando, por ocasião do falecimento de meu pai, em 2012, o crítico literário e articulista Humberto Werneck escreveu sobre um caso divertido que acontecera com Fernando Sabino. Na conversa, meu pai, seu amigo, dissera que passara a vida inteira em “trabalho de formiguinha para ser romancista”. E que se escrevesse poesia certamente seria um lixo. Insistia que Sabino, seu dileto amigo, tentasse publicar algo mais do que crônicas, enveredasse pelo romance, pela verdadeira literatura. Werneck assim publicou a “boutade” em “O Estado de São Paulo”, uma semana depois da partida do meu pai (2012):

“Nos anos 70, trocou divertidas farpas com Fernando Sabino quando o amigo, inebriado pelo sucesso do primeiro romance,“O Encontro Marcado” (1956), que o impedia de reincidir no gênero, andou apregoando que o romance estava morto (sic). Gozado o Fernando”, comentou meu pai:“foi campeão de natação, e agora, que já não dá conta de nadar, quer esvaziar a piscina…” Essa uma tirada típica do velho Autran. Sabino voltaria a tentar o romance, com “O Grande Mentecapto”, mas o trabalho de elaborar uma grande trama literária lhe parece ter morrido após mais duas tentativas. Já meu pai continuou a ser formiguinha, e construiu uma obra já consolidada internacionalmente que deixou um lastro de 15 romances, nove livros de histórias mais curtas, um de memórias e seis de ensaios. Por isso, foi considerado pela Unesco autor de textos que figuram entre as obras representativas da literatura universal.

Faço agora um paralelo entre “a pessoa que escreve e o escritor” com “aquele que rege e o maestro”. Hoje a “produção” de maestros é como a “geração espontânea” da antiguidade. Eu me autodenomino maestro porque quero (ou seria uma autofagia oculta?). Muitos, muitos regem, mas, como os que escrevem e não são necessariamente escritores, a imensa maioria dos que se dizem “maestros” não o são. Quem confere então tal título, perguntaria o leitor.O s músicos! Nem a imprensa, nem a universidade, nem o público, apenas os músicos, que reconhecem na liderança que os guia estarem diante de um mestre – do italiano “maestro”. Nem quando músicos o dizem por respeito ou costume, mas quando têm gabarito musical que lhes confere esse poder de “unção”, de dar a quem os rege o galardão de líder de orquestra, é que se ergue um maestro. Disse uma vez o célebre Isaac Karabtchevsky: é maestro quem possui na cabeça as nove sinfonias de Beethoven para reger amanhã, entre outros cavalos de batalha. Na questão requisitos, como músico eu endosso o maestro paulistano de anos muito bem vividos musicalmente aqui e no exterior, hoje aos 83.

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Há e houve ensaístas e críticos, e gente preciosa, como o Humberto Wernek, que mencionei acima (a imprensa recente desgastou “citar”, devido à Lava Jato, provocando confusão no uso da palavra). Afrânio Coutinho, o mestre Antonio Cândido, Alceu de Amoroso Lima, e, do século 19, Sílvio Romero, sem me esquecer do professor emérito da USP e membro da ABL Alfredo Bosi. É um ofício trabalhoso, cheio de espinhos, cujo protagonista tem de estar pronto para receber de volta farpas dos criticados. Dos poetas, artesãos de dificílima arte, temos muitos, desde o versátil Gonçalves Dias à Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Drummond (o “poeta maior”), João Cabral, dos meus favoritos, e tantos outros. Cronistas da imprensa temos aos montes, alguns que admiro pela memória e versatilidade no jornalismo, destacando Carlos Heitor Cony, o saudoso Gullar, Sérgio Augusto, bem versado em cinema, o às vezes debochado e cáustico Arnaldo Jabor, e outros menores que servem para encher página de jornal, cujos nomes declino de mencionar, por respeito à classe dos que emitem boas opiniões fora da aparente (mas não transparente) isenção das notícias.

Entre compositores, o mesmo. Escrevi dezenas de peças curtas, mas nem por isso sou compositor. No máximo, um “cronista da composição”. Um compositor que merece esse título tem de ter escrito uma ou mais sonatas, ou peças cuja complexidade mostrem sua expertise no tema, quem sabe chegar a uma ópera ou sinfonia. Sou modestíssimo artesão, outra coisa são Guarnieri, Villa-Lobos ou Marlos Nobre, entre outros. Componho, mas não me atrevo a usar o título de compositor.

Escrevi alguns livros, quase todos técnicos, fora uma brincadeira musical publicada como diversão. Mas nada de literatura. Minha obra mais importante é o “Dicionário de Termos e Expressões da Música”, que tem trânsito entre músicos em geral. Nunca pensei em me aventurar pela literatura, pois o trabalho deveria ter sido iniciado como meu pai, aos 19. Gostaria, até, claro, a coisa me atrai, mas sei dos meus limites. Sou músico, e está na alma, mesmo que não persista diretamente na atividade devido a problemas que, há anos, me obrigaram a deixar de exercê-la diretamente. Dirijo escolas de música há 28 anos. Mas quanto a escrever, digo que não sou do ramo, apenas faço minhas crônicas.

Porque não sou escritor.


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