Pandora, reality shows, terapias de grupo e comportamento

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Henrique Autran Dourado

O convívio entre pessoas em um mesmo ambiente é uma caixa de surpresas como a de Pandora, a primeira mulher criada por Zeus, na mitologia grega. Segundo descrições e ilustrações antigas, uma caixa ou pote, a depender. No recipiente, estavam guardados os males do mundo, contou Hesíodo, em seu “Os Trabalhos e os Dias”. Zeus, por capricho, havia feito uma provocação (e nem colocou aquele tipo de aviso que diz “não abra”, mas não foi preciso): Pandora, curiosa que só, destampou o pote, de onde escapou o que há de ruim na Terra.

As pessoas isoladas em um ou poucos ambientes contíguos ficam expostas gradativamente aos sentimentos conflituosos nelas reprimidos. É como se a tampa do pote de Pandora deixasse escapar aos poucos seu conteúdo, a partir de uma fresta. Muito explorado em dinâmicas ou psicoterapias de grupo, o despertar desses ingredientes sociais ocultos vem surgir como uma pequena amostra, o microcosmo da sociedade representada em cada homem e seu plural.

Assim nasceram os reality shows da TV dos anos 1990, com “The Real World”, e logo depois “Idols” e “Big Brother”, franquias vendidas a emissoras mundo afora. Os telespectadores desses shows parecem sentir certo prazer em acompanhar fusões nebulosas entre realidade e cena, esta obviamente submetida a scripts definidos, jogos programados e disputas criadas pela produção, tudo para despertar emoções e reações. Quanto mais agressivas, maldosas ou sensuais essas reações e os complôs, mais o espectador se delicia com o que pode ser uma fotografia intestina dele próprio, seus ódios e desejos ocultos. (Confundem-se ao chamar os participantes de “brothers”: Big Brother, nome do programa, é o “grande irmão” de “1984”, livro de G. Orwell, máquina que tudo vê e a todos controla, como as câmeras e microfones do show).

Telespectadores escolhem anjos e demônios por empatia ou repulsa, torcendo contra ou a favor de um ou outro. Vislumbram suas próprias vidas na tela e podem tecer comentários aos seus convivas sem se identificarem nas cenas da forma que as veem, o buscar do íntimo de cada um, parte da fórmula do sucesso do programa.

Já tratei do Teatro do Absurdo, surgido na desolação do pós-II Guerra. Autores criavam situações terríveis vividas por personagens geralmente enclausurados em um ambiente, apartamento ou casa, o que durante o conflito mundial seria o medo de ir à rua e ser atingido por bala perdida, granada, bomba – ou topar com nazistas. Terminada a guerra, o medo permaneceu, e junto com ele certa descrença na humanidade e na razão da existência. O gênero do Absurdo é uma criação neurótica sobre situações igualmente neuróticas, mas tem, além da erudição, a observação crítica a diferenciá-lo dos fúteis reality shows que se pretendem “reais”.

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A Terapia (ou psicoterapia) de Grupo envolve um certo número de pacientes e um terapeuta, e se abre em uma gama de formatos, como arte-terapia, Terapia de Comportamento Cognitivo (CBT), terapia de dança e musicoterapia, entre outros. Nesses grupos são tratados medo, ódio, neurose, apatia e depressão, além de serem desenvolvidas técnicas coletivas de relaxamento e de adaptação para melhor convívio social – modelos analisados por Charles Montgomery em “Role of Dynamic Group Therapy in Psychiatric Treatment” (Cambridge: CUP, 2018).

Enquanto a terapia de grupo tem profissionais aptos a intervir, quando necessário, nos reality shows a mediação é feita por um apresentador sem qualquer preparo, que dá combustível aos acontecimentos. E, claro, sempre com um olho na contabilidade eletrônica, conforme o público que interage, e indiretamente, um outro da emissora, por meio das medições eletrônicas de audiência – sem falar no retorno financeiro dos anunciantes e eventuais merchandisings em cena. Surgem mais e mais imbróglios, e a produção da TV os estimula, sendo as séries de jogos e disputas elementos fundamentais à criação da atmosfera fértil para as crises se desenvolverem. Se ultrapassar certo limite, o participante é punido, lançado à execração dos demais ou até expulso.

Os isolamentos sociais de hoje em razão da pandemia são grupos sem controle e sem os voyeurismos dos reality shows, sem mediadores ao microfone e menos ainda terapeutas profissionais. Como em todas as situações de grupo – no lar, no círculo de amigos, no clube, na sala de aulas ou no trabalho -, um dos que fazem parte do conjunto assume sua posição de líder, seja por uma determinante social (pai, mãe, chefe) ou espontaneamente, quando o grupo é homogêneo. Se há intrigas ou debacles mais fortes, é ele o indivíduo que tende a interferir.

Pela lente da chamada sétima arte, Alain Resnais, cineasta francês, repercutiu, em “Mon Oncle d’Amérique” (“Meu Tio Americano”), de 1980, as ideias do médico e filósofo Henri Laboritt sobre estudos dele acerca do eu (“self”) e a sociedade. Analisa essa relação em que “todas as criaturas lutam por equilíbrio (homeostasia) em seus ambientes, nos quais se manifestam como comportamentos de controle nos personagens do filme”, diz o cientista, comparando as reações desses personagens em ambientes estressantes às dos ratos de laboratório: disputa, fuga e inibição. A criação artística é um rico meio de compreensão dessas tensões.

Arte é fantasia, imaginação, neurose; é crítica social, política, científica, tudo o que brota na mente e vem a público sob um ponto de vista estético e filosófico. Se não aponta soluções, desperta perguntas. Que acendem uma luz.

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