O pós-guerra, a pandemia, o teatro do absurdo e nossas dúvidas

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Henrique Autran Dourado

O mundo tem altos e baixos, disse Cartola com uma pitada de maldição à mulher que o abandonara: “… o mundo é um moinho / vai triturar seus sonhos, tão mesquinho / vai reduzir as ilusões a pó”. Quantas fantasias acontecem entre os vaivéns e as moendas da vida!

O pêndulo do transtorno de bipolaridade oscila entre a euforia – ou mania – e a depressão; outras pessoas, doentes do tipo unipolar, lutam para emergir das profundezas – quando não exibem socialmente uma falsa alegria, o que vem a dar no mesmo. A cumplicidade entre a psicanálise e a filosofia, no caso, é entre irmãs: a última vê ali o niilismo (de “nihil”, nada, em latim), a negação. O existencialismo simplifica: “sou para não deixar de existir”, disse Sartre; Schopenhauer usa as lentes do pessimismo e Franz Kafka as do absurdo: em “Metamorfose”, seu personagem deteriorou-se até se transformar em uma repugnante barata.

  1. Fim da II Guerra, negação e angústia tomaram conta do mundo, como um longo “blues period”, depressão pós-parto. A arte perdera a fé na condição humana, predominava um pensamento que flertava com o vazio, entre “o ser e o nada” de Sartre. Embalada na psicanálise e na filosofia, à arte coube a missão de representar o vácuo que tomou conta do mundo.

Sartre admirava um autor, nascido de uma prostituta e preso quando adolescente: Jean Genet, cujas peças um dia viriam a torná-lo um ícone da intelectualidade. O Brasil pôde assistir, nos anos 1970 – “meninos, eu vi”! – à montagem de seu “O Balcão” pelo argentino Victor Garcia,  cujo cenário era uma gigantesca espiral metálica, um bordel em móbile onde os personagens assumiam seus papeis copulando com  as prostitutas nos papeis em que gostariam de ser vistos pela sociedade: general, bispo, juiz; era a transfiguração do personagem em sua fantasia sócio-sexual – o próprio Genet assumiu-se marginal e homossexual porque era através dessa persona que a sociedade o via.

Mestre do absurdo foi o irlandês Samuel Becket, de “Esperando Godot” (de “God”, ou “Gott”), em que os personagens Vladimir e Estragon aguardam a chegada de alguém que nunca virá – a negação de Deus. Dürrenmatt, em sua “A Pane”, fala do viajante cujo automóvel enguiça na estrada (daí o título). Perto dali, um juiz aposentado oferece ajuda e o hospeda em sua casa. Os que lá estavam assumem seus papeis num absurdo tribunal em que o visitante se torna réu. Condenado em um julgamento vivido como “real” sob enorme pressão, o hóspede termina por suicidar-se.

(No filme “A Noite dos Desesperados”, de Sidney Pollack, 1969, um casal participa de uma interminável maratona de dança até que, exaurida, a mulher (Jane Fonda) pede ao seu par que a mate, e ele o faz. À polícia, declara: “They shoot horses, don’t they?”, título do filme em inglês – “Eles matam cavalos, não matam?”. O fato teria acontecido em 1919, em plena depressão econômica e pós-gripe espanhola).

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O espanhol Fernando Arrabal tem em sua “Fando e Lis” não uma história de amor, apenas conflitos, violência, disputas vãs e insanas. Lis, paraplégica, é conduzida por Fando em sua cadeira rumo a Tor, onde nunca chegam: um duro humor negro. A representação depende, além do talento dos artistas, na maior parte de seu autoconhecimento e dos personagens, seus conflitos pessoais e a busca da felicidade – que não sabem onde está, se no mundo ou no interior de cada um.

Eugène Ionesco, franco-romeno precursor do teatro do absurdo com “A Cantora Careca” faz um exercício sobre a impossibilidade de comunicação entre as pessoas. Homem e mulher com o mesmo sobrenome discutem sobre a morte, a vida e filhos – até descobrirem que são casados. Real e falso se anulam, tanto um como outro são verdadeiros. O fio condutor da peça é o desnudar da comunicação humana em diálogos sem sentido, fúteis, ambíguos.

O italiano Luigi Pirandello investe na ambiguidade em sua “Così È se vi Pare” (“Assim é, se lhe parece”). E subverte o velho conceito de teatro, em “Seis Personagens à Procura de Autor”, quando esses surgem com vida própria, junto a um grupo de atores, situação absurda tal que, ao final da estreia, ouvia-se pessoas gritando “manicômio”, “louco”, tamanha a perturbação que a peça lhes despertou.

Estamos em conflito mundial contra um poderoso inimigo que, diferentemente da II Guerra, por sua natureza tenta abater não uma parte, mas a humanidade inteira. A economia mundial naufraga, como no pós-guerra, e há um oceano de conflitos de ordem social, filosófica e política (há até o niilista moderno e o ignorante negacionista!). Alguns até não escondem sua falta de compaixão pelos mortos, doentes e futuras vítimas. Morrer? “Não lhe custa nada, só lhe custa a vida”, aproveito Gilberto Gil.

Os conflitos psicológicos de hoje tiveram início no ódio de um segmento fanático contra as defesas de outro, que em sua maioria depois se confinaram. Mas, após domada a besta, voltaremos ao “normal”? Viveremos os raros altos e muitos baixos do moinho ou serão por ele moídos nossos pessimismos e negações, até percebermos a metamorfose? Será a sociedade nessa ressaca viral um balcão que nos obrigará a assumir as máscaras que quiser nos impor? Seremos personagens à procura de um líder que nos guie rumo ao futuro ou um Godot que nos salve, mas que nunca chega? Continuaremos em conflito e perdidos rumo a Tor, um estranho caminho para Santiago de Compostela que não existe? Teremos de ressurgir do que nos sobrou e para a sociedade mostrar-nos como lhe parecemos?

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